O que o Rio Web Summit 2025 nos ensinou sobre IA, Web3 e os rumos da tecnologia

Por * GUTA NASCIMENTO-
O que o Rio Web Summit 2025 nos ensinou sobre IA, Web3 e os rumos da tecnologia
Panorâmica do Riocentro lotado

Olá! 

Mais uma maratona cumprida!  A do Rio Web Summit 2025, no gigantesco Riocentro. 

Pra quem nunca foi, são mais de 570 mil metros quadrados de “me encontra no Pavilhão 3”, “onde é a entrada do palco principal?” e “dei 8 mil passos só tentando achar um café com pouca fila”. Mas, afinal, por que vale a pena encarar quatro dias de filas para tudo e os Ubers mais caros do planeta Terra? Porque é uma oportunidade única de esbarrar a todo momento com fundadores de startups, caçadores de unicórnios e também palestrantes pra lá de aleatórios. E esse ano não foi diferente.

A noite de abertura teve bem menos conteúdo que a da primeira edição, quando pudemos conhecer algumas startups que estariam no evento. Mas a cerimônia de abertura de 2025 não decepcionou porque tivemos o anúncio de importantes notícias. 

BIG NUMBERS
De cara, o fundador e novamente CEO das Web Summits mundo afora, Paddy Cosgrave , anunciou mais cinco edições no Rio de Janeiro. Ou seja, a  conferência agora está garantida por aqui até 2030. 

Na sequência, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, anunciou o projeto da RIO AI City, que, segundo ele, será o maior hub de data centers da América Latina e um dos maiores do mundo.

Paes disse que o hub terá uma capacidade inicial de 1,8 gigawatts até 2027 e expansão prevista para 3 gigawatts até 2032. Ainda segundo ele, esse parque seria totalmente abastecido por energia limpa e com abastecimento ilimitado de água. A ideia da Rio AI City é posicionar o Rio de Janeiro como um dos 10 principais players globais em infraestrutura de tecnologia para inteligência artificial. Quando consolidada, a iniciativa abriria caminho para a instalação de novos supercomputadores, semelhantes ao Santos Dumont (que está em 96o lugar na lista dos 100 maiores do mundo), com alta resiliência, latência zero e potência computacional gigantesca. 

E quanto é 1.8 gigawatts?

É energia pra caramba. Tipo acender 15 milhões de lâmpadas ao mesmo tempo e, como disse lá no Insta, ligar dois DeLoreans do “De Volta para o Futuro”. 

Paes não deu detalhes de como esse parque será abastecido por energia limpa e como se dará esse abastecimento ilimitado de água. Aguardamos ansiosos por essas informações. 

Quem também anunciou números grandiosos foi Luciana Santos, a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação. Na abertura do evento, Luciana falou da importância dos 760 milhões de reais do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), recurso fundamental pra fomentar pesquisa e inovação no país, que hoje tem 61 parques tecnológicos, 291 incubadoras e 65 aceleradoras de empresas. Ela também anunciou 150 milhões de reais para fomentar 1.000 startups na próxima fase do Centelha, programa que ano passado incentivou 1.137 startups. E falou dos 23 bilhões de reais (sim, bilhões) do PBIA - o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. No dia seguinte, ao retornar ao evento, Luciana lançou a 6a edição do Mulheres Inovadoras, programa de incentivos para acelerar 50 startups lideradas por mulheres. 

BIG PLAYERS
No segundo dia, um dos maiores destaques foi a apresentação de Marcio Aguiar, o brasileiro diretor de vendas da NVIDIA Enterprise para a América Latina, seguida de uma coletiva para a imprensa. Foi muito bom perceber nas entrelinhas do discurso corporativo para onde a empresa mais valiosa do mundo está realmente caminhando. 

No palco principal do evento, ele misturou retrospectiva com visão de futuro e em vinte minutos provou por que a empresa é mais do que uma fabricante de placas de vídeo. A NVIDIA é hoje  uma das arquitetas da era atual da IA.

A viagem no tempo começou quando Márcio lembrou que o primeiro grande salto da computação moderna foi em 1964, quando a IBM lançou seu sistema, o ZS S360. Em 1999, a NVIDIA lançou sua primeira GPU (Unidade de Processamento Gráfico), mas foi só em 2012 que a empresa teve seu primeiro contato com o que chamamos hoje de inteligência artificial. Neste ano, estudantes de Harvard começaram a usar GPUs da NVIDIA (originalmente criadas para games) para treinar data sets para reconhecer e segmentar imagens. Bingo! A ficha caiu.  Havia um mercado enorme além do entretenimento.

Dos GPUs dos nerds de Harvard até a atual explosão dos Agentics AI, Marcio desenhou os degraus rápidos pelos quais a inteligência artificial subiu em meros treze anos. Falou da Perception AI, quando começaram a aplicar IA para reconhecimento de fala ou imagens médicas, e da chegada à IA Generativa. Em 2022, quando a Open AI disponibilizou a plataforma do ChatGPT para o público, ela rodava com mais de 10 mil GPUs da NVIDIA. Foi quando entramos na era da Perplexity AI, que vem a ser essas ferramentas de busca conversacional com IA que interage com o usuário, faz perguntas, sugestões, como ChatGPT, Grok, Gemini e afins. Mas elas ainda não são ajustadas para a realidade de cada empresa.

Por isso…muitos GPUs depois…  bem-vindo todo mundo aos Agentic AI, a era em que vivemos hoje.  A Agentic AI representa um avanço em que a IA consegue raciocinar, reconhecer padrões e pensar de forma muito mais rápida do que qualquer agente anterior. E ela está nos levando rapidamente para  a era da Physical AI, em que robôs começam a entrar em cena para auxiliar humanos em tarefas repetitivas, já que a IA Física permite que sistemas autônomos — como robôs, carros autônomos e ambientes inteligentes — percebam, compreendam e executem ações complexas no mundo real.

Para quem estava na plateia assustado, sem familiaridade com o que nos levou do ChatGPT a robôs dentro de casa em tão pouco tempo, Márcio tranquilizou: “Não pense que você está atrasado. Isso é um mito. A gente ainda está no começo da virada da IA”.

E a NVIDIA já está lá na frente. 

Num salto gigantesco de velocidade, a mais recente arquitetura de GPU deles batizada de Blackwell (projetada pra acelerar tarefas de IA e computação de alto desempenho (HPC), é, segundo Márcio, 50 mil vezes mais rápida do que a primeira GPU, a CUDA. E isso está fechando a lacuna entre simulação e twin digitals em tempo real. Sim, gêmeos digitais já estão por aí. A NVIDIA Omniverse é uma plataforma já disponível que permite recriar um mundo digital misturando dados reais no ambiente. Dá para simular cenários e prever projetos antes da implementação. Ou seja: vai dar para realizar simulações de fábricas inteiras no metaverso, otimizando custos e processos de produção antes mesmo da planta física ser construída.

E quais os setores mais promissores para a NVIDIA?

Varejo. Mas foi interessante ouvir do Márcio Aguiar como especialmente no Rio de Janeiro, empresas do setor de óleo e gás são clientes potentes. 

Após a apresentação, na coletiva para a imprensa, Aguiar também falou sobre a Jetson (série de computadores compactos e de baixo consumo de energia, projetados para aplicações de IA e aprendizado de máquina, especialmente em dispositivos de ponta), que integra o Isaac, robô virtual que aprende a trabalhar em conjunto com humanos. 

Questionado sobre o cenário global de guerra tarifária, ele reconheceu que as tensões comerciais, especialmente com a China, impactam os negócios da NVIDIA. Desde 2023, a empresa enfrenta restrições na venda de GPUs para o país asiático, um de seus mercados mais importantes. Alertou para um deadline mundial em 15 de maio, quando será decidido se as tarifas atuais serão mantidas. Ainda assim, ele vê o surgimento de uma nova indústria com valor de mercado superior a 1 trilhão de dólares: softwares para robôs.

Para quem não sabia, ele lembrou que a NVIDIA está na área de carros autônomos desde 2010. O primeiro cliente foi a Tesla, que hoje desenvolve tecnologia própria. 

Ao ser perguntado sobre que conselho daria para os jovens que querem trabalhar com tecnologia, foi direto: "Entrem no site developer.nvidia.com. Ali vocês têm acesso a bibliotecas de softwares que podem usar para criar. Não sejam apenas consumidores, sejam desenvolvedores."

BIG WEB3 
Transfero é Web Summit Global Partner e mais uma vez investiu em um stand atraente (em 2023, na primeira edição, arrasaram na comida, lembram? Falei de todas as gostosuras aqui) Este ano o destaque foi um painel com excelente título, provocativo  “Pix or Crypto? - Why not both?” Houve também uma apresentação num dos palcos do evento sobre “Como a blockchain está silenciosamente remodelando o seu mundo”.

OKX também investiu em bom conteúdo. Foram vários paineis durante três dias. Meu preferido foi o “Estamos Ouvindo, Não Julgando: Erros Comuns ao Começar no Mundo Cripto” (mais um  título provocativo). Por que eu gostei? Porque abordaram uma análise que eu venho debatendo há meses. Disseram com todas as letras: “A gente compete com tigrinho”. Em setembro do ano passado, perguntei a vários influenciadores presentes ao Modular Summit e ao NFT Brasil (que ocorreram na mesma época) como eles estavam vendo o impacto das Bets no mercado cripto. Poucos foram os que já tinham percebido. Sete meses depois, é importante ver uma corretora do porte da OKX entrar nesse debate. Conversei depois com Vinicius Bazan, um dos painelistas, que complementou que em relação à renda média do brasileiro, “é um cobertor curto, você vai cobrir a cabeça, você tira do pé”. Lembramos do estudo do Itaú que mostrou que em apenas um ano (junho de 2023 a junho de 2024), os brasileiros perderam 23,9 bilhões em apostas esportivas.”Se os brasileiros colocaram tanto dinheiro em apostas e produtos como esses, eles tiraram de outros lugares. Então a gente vê essa dispersão e as pessoas, inevitavelmente, acabam deixando de investir”.

Quem também fez ação importante foi a Bitso, que anunciou no evento os vencedores do The Push, um programa global de aceleração de startups com foco em stablecoins. Foram mais de 300 inscrições em todo o mundo, o que apenas comprova o quanto stablecoin é um pilar do atual ciclo das criptomoedas. Nove empresas especializadas em pagamentos internacionais, remessas e processamento de pagamentos foram selecionadas e durante 3 meses farão parte de um programa de aceleração. E que alegria ver 2 empresas brasileiras entre as vencedoras: Lumx e BlindPay.

A Lumx oferece on/off ramps em stablecoins, assim como contas virtuais e wallets. A BlindPay uma API para transferência de stablecoins. Parabéns pras duas. O resultado foi anunciado em uma coletiva que contou com líderes das duas startups, e com a presença do fundador e CEO da Bitso, Daniel Vogel, e de Bárbara Espir, a CEO da Bitso no Brasil. Daniel também fez uma apresentação num dos palcos do Web Summit sobre stablecoins e como as fintechs estão movimentando dinheiro no século 21. E vale lembrar que a Bitso realiza em 27 e 28 de agosto, na Cidade do México, a Stablecoin Conference Latam, com a presença de autoridades, reguladores e representantes do ecossistema que está sendo formado nessa ascensão das stablecoins na indústria de pagamentos. 

Ainda sobre títulos divertidos, destaque para “E se cripto pudesse pagar pelo seu café da manhã?”, apresentação da Gerente Regional da Bybit na UE e Executiva responsável pelas moedas fiduciárias da Bybit, Mazurka Zeng. 

BIG PITCHES
Este ano, entre os mais de 34 mil participantes, mais de 500 eram investidores. Foram 1.400 startups em busca de um lugar ao sol. Foi um prazer conhecer algumas delas, como a alpha BlueStars, que usa IA para soluções de administração no varejo, incubada na PUC de Minas. Prazer também em ouvir o pitch de Carmela Borst, fundadora da Soul Code, uma edtech que é referência em inclusão digital. Infelizmente o Rio Web Summit teve apenas 5% de startups de impacto (elas ganhavam um selo estampado em seus stands), por isso parabéns pra Soul Code por ser uma delas. 

De modo geral, sou muito contra pitches de dois minutos. Acho um desafio sem propósito. Não por que não seja possível definir um negócio em dois minutos. É. A questão não é essa. Meu ponto é por que não dar mais tempo para uma startup se apresentar? Só pela cultura de conseguir resumir um negócio em 120 segundos? Mas, enfim, por isso mesmo - por eu achar isso uma das muitas culturas equivocadíssimas no ecossistema das startups -  meus parabéns também para a Smash, que conseguiu nesse patético tempo, explicar bem seu negócio de gift cards para funcionários de empresas. Assim, como a Powpay, que conseguiu apresentar sua plataforma de administração de gastos de família. 

Entre as 35 startups selecionadas para disputas ao vivo no evento, quem venceu foi a DigAí, uma plataforma de IA conversacional para negócios. Ela cria agentes de IA conversacionais no WhatsApp em dois produtos, um de recrutamento e outro de negociação de dívidas com inadimplentes.

BIG ALEATORIEDADES
Se eu ganhasse 01 USDC cada vez que me perguntam, “Mas vale a pena ir ao Rio Web Summit?”, eu ampliaria consideravelmente o saldo da minha wallet. Rs. Como não aproveitar um evento em que você ouve executivos da NVIDIA, da Open AI, da IBM  e da Microsoft, esbarra no Hugo Gloss (que sempre compartilha falas interessantes e pertinentes sobre o universo da comunicação), conhece um caçador de unicórnios, assiste à CEO da WGSN falar sobre o consumidor de 2027 (pra quem perdeu, aqui vai uma palhinha, como sempre faz a consultoria dividiu os futuros consumidores em 4 tipos: guardiães da privacidade / convencionais / novos independentes / energizadores), ouve os planos futuros da Cazé TV e perde o painel que mais queria ver: “Como reviver um unicórnio zumbi?”.

 

Pra mim, valeu cada quilômetro andado!

Espero que para quem foi também.

Nos vemos no Rio Web Summit 2026!

Até lá!


*Guta Nascimento é jornalista especializada em tecnologias emergentes e trabalha com onboarding por meio de palestras, lives, aulas, talks e painéis. Para saber mais, leia Web3 Para Todos.


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