XR recebe US$ 70 bilhões, mas falha em escalar na indústria

Mesmo com crescimento acelerado e casos reais de ganho operacional, a maioria das iniciativas com XR segue restrita a pilotos sem escala corporativa

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Konrad Wolfenstein, especialista em realidade estendida. Imagen: Xpert.Digital

Apesar de mais de US$ 70 bilhões investidos em hardware de realidade estendida (XR) desde 2019, incluindo aportes da Meta e de grandes fabricantes globais, a tecnologia ainda não desencadeou uma revolução industrial em escala. Dados de mercado indicam crescimento acelerado: o setor global de XR atingiu US$ 252,6 bilhões em 2025 e pode chegar a US$ 4,4 trilhões até 2035. No entanto, na prática, a maioria das implementações corporativas permanece restrita a projetos-piloto.

Estudos de mercado indicam que cerca de 95% dos projetos industriais com XR não avançam para implementação permanente, mesmo quando são tecnicamente bem-sucedidos. O fenômeno é conhecido no setor como “armadilha do piloto”: iniciativas funcionam em ambientes controlados, mas não se transformam em processos operacionais contínuos.

A discrepância entre viabilidade técnica e adoção organizacional tem levado especialistas a questionar a narrativa dominante de que o problema estaria na imaturidade do hardware. Casos documentados em empresas como DHL, Ford, Safran e Latecoere mostram ganhos objetivos: aumento de até 34% em produtividade em linhas de montagem, redução de até 40% em taxas de erro logístico e cortes de até 70% no tempo de treinamento industrial.

Segundo Konrad Wolfenstein, especialista em realidade estendida e desenvolvimento digital da Xpert.Digital, “o gargalo não está nos dispositivos, mas na ausência de um ecossistema de execução capaz de integrar a XR aos sistemas corporativos, fluxos de trabalho e métricas operacionais”.

Esse ecossistema envolve três camadas estruturais. A primeira é a identidade persistente, que permita continuidade entre dispositivos. A segunda é uma camada transacional, que viabilize incentivos econômicos e monetização. A terceira é a integração sistêmica, conectando XR a ERP, MES, IoT e ambientes industriais.

Sem esses pilares, os óculos de XR operam como terminais isolados, sem valor sistêmico. A tecnologia funciona, mas fora de um ambiente capaz de transformá-la em infraestrutura produtiva.

A assimetria explica por que a XR avança em ambientes industriais específicos, mas não se consolida no mercado consumidor. Nas fábricas, os dispositivos são incorporados a arquiteturas de dados já existentes. Fora delas, permanecem experiências fragmentadas, sem valor agregado contínuo.

Pesquisas com especialistas do setor apontam uma inversão organizacional: as principais barreiras deixaram de ser tecnológicas e passaram a ser estruturais. Custos, resistência interna e complexidade técnica aparecem como sintomas de um problema mais profundo, marcado pela ausência de estratégia, governança de TI e métricas claras de valor.

A conclusão que emerge do setor é que a XR já está tecnicamente pronta. O que ainda não amadureceu é o ambiente organizacional capaz de absorvê-la em escala.