Farcaster devolve US$ 180 milhões e transfere protocolo para operadora de infraestrutura

Venda do protocolo e reembolso integral aos investidores marcam uma mudança operacional no social descentralizado, com foco em infraestrutura e desenvolvimento

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Varun Srinivasan, cofundador da Farcaster_Divulgação

A Merkle Manufactory, empresa por trás do protocolo social descentralizado Farcaster, anunciou que devolverá integralmente os US$ 180 milhões arrecadados junto a fundos de venture capital após a venda do protocolo para a empresa de infraestrutura Neynar. A decisão ocorre em meio a uma reestruturação do projeto, que passa a operar sob uma nova administração.

O cofundador da Merkle, Dan Romero, afirmou publicamente que a Farcaster “não vai desligar” e que o protocolo continuará funcionando. Segundo ele, a Neynar pretende direcionar a Farcaster para uma abordagem “mais focada em desenvolvedores”, assumindo a operação e a manutenção da infraestrutura.

A transferência inclui os contratos do protocolo, repositórios de código, o aplicativo central da Farcaster e o projeto Clanker. Com isso, a Neynar passa a ser responsável pela operação do sistema, enquanto a Merkle encerra sua posição como operadora direta.

Fundada em 2020 por Romero e Varun Srinivasan, a Merkle Manufactory levantou US$ 180 milhões de investidores como a16z Crypto e Paradigm. A Farcaster foi avaliada pela última vez em US$ 1 bilhão após uma rodada Série A de US$ 150 milhões em 2024, antes da venda do protocolo.

O movimento ocorre em um momento de reorganização mais ampla no segmento de redes sociais descentralizadas. Nesta semana, o Lens Protocol confirmou que a Mask Network assumirá a responsabilidade operacional do projeto. Nos dois casos, protocolos sociais passam a ser administrados por empresas especializadas em infraestrutura, em vez de permanecerem sob controle direto das equipes fundadoras.

Observadores do setor apontam que essas transições indicam uma mudança de fase no social on-chain. Em vez de operar como projetos orientados por ideologia ou cultura de comunidade, os protocolos começam a ser tratados como sistemas que exigem confiabilidade, escala e manutenção contínua.

“A social on-chain não está morrendo, está abandonando a ideia de que a descentralização, por si só, é suficiente”, afirmou Lia Savillo, chefe de redes sociais da agência Hype, em entrevista à Decrypt. Segundo ela, a próxima etapa será conduzida por equipes que priorizam infraestrutura, experiência do usuário e sustentabilidade operacional.

O cofundador do Ethereum, Vitalik Buterin, também citou recentemente Farcaster e Lens como exemplos de protocolos que testam se redes sociais podem mudar de operador sem comprometer usuários, identidade ou governança. Para ele, a capacidade de transferência operacional sem ruptura é um dos testes centrais do modelo descentralizado.

No caso da Farcaster, a devolução integral do capital aos investidores e a passagem do controle para a Neynar registram um movimento pouco comum no setor: a separação entre a camada protocolar e a gestão operacional. O protocolo permanece ativo, enquanto sua operação passa a ser tratada como infraestrutura.

O episódio documenta uma inflexão no social descentralizado. Em vez de plataformas ancoradas na figura de fundadores, surgem estruturas pensadas para continuidade técnica, escala e manutenção. A descentralização permanece no nível do protocolo, enquanto a operação passa a seguir uma lógica mais próxima à de sistemas críticos da internet.