Boom dos imóveis no metaverso vira prejuízo bilionário

Após movimentar mais de US$ 500 milhões em 2021, terrenos virtuais perdem valor e enfrentam baixa liquidez, com plataformas chegando a apenas 38 usuários ativos

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Cinco anos atrás, o investidor-anjo de tecnologia Chris Adamo e um grupo de amigos decidiram seguir uma tendência em ascensão no universo dos ativos digitais. Eles recorreram a uma corretora imobiliária virtual para comprar 23 lotes em um metaverso chamado The Sandbox. Adamo não se lembra do valor exato, mas estima que o investimento total tenha girado em torno de 200 mil dólares.

Na prática, tratava-se de terrenos digitais, compostos por parcelas pixeladas em bairros virtuais considerados “descolados”, um tipo de ativo que entusiastas de Web3 e investidores cripto enxergavam como a próxima fronteira dos investimentos em tecnologia. Em determinado momento, esses ativos chegaram a se valorizar dez vezes. Adamo não foi exceção. Nas quatro principais plataformas de metaverso, as vendas de imóveis ultrapassaram 500 milhões de dólares em 2021.

O entusiasmo também ganhou força fora dos nichos. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Mark Zuckerberg, que apostou alto no conceito e definiu o metaverso como o “sucessor da internet móvel”. Convencido de que a tecnologia poderia alcançar um bilhão de usuários, destinou cerca de 80 bilhões de dólares ao projeto e, em um movimento simbólico, rebatizou o Facebook como Meta.

Adamo e seus colegas compraram essa visão. Segundo ele, o grupo já tinha experiência com NFTs e viu na compra de terrenos um passo natural dentro desse novo ambiente digital. A ideia era aprender, testar possibilidades e participar ativamente do que parecia ser o início de uma nova economia.

Com o passar do tempo, no entanto, a promessa perdeu força. O desempenho financeiro ficou abaixo das expectativas, a base de usuários não cresceu como o previsto e diversas empresas do setor passaram a enfrentar dificuldades. Em 2023, o The Verge reportou que o metaverso da Decentraland chegou a registrar apenas 38 usuários ativos em um único dia. A Animoca Brands, dona do The Sandbox, reduziu sua equipe pela metade e fechou escritórios ao redor do mundo. Mais recentemente, Zuckerberg anunciou que a Meta iria encerrar o Horizon Worlds, com demissões em massa e corte de 30% no orçamento da área, em meio a uma mudança de foco para inteligência artificial e dispositivos vestíveis.

No caso de Adamo, o investimento acabou sendo tratado como prejuízo. Em entrevista à Fast Company, ele afirma que o grupo tentou vender os terrenos, mas não encontrou compradores. Por enquanto, decidiram manter os ativos, parte na expectativa de uma eventual recuperação, parte como uma espécie de registro de um momento específico da história da tecnologia.

Ele afirma que o grupo sempre soube que se tratava de uma aposta de alto risco. Ou poderia fracassar rapidamente ou gerar um retorno significativo. Na avaliação dele, a tecnologia demorou mais do que o esperado para amadurecer, e o interesse perdeu força com o fim das restrições da pandemia e a retomada da vida presencial.

A lógica do mercado imobiliário no metaverso reproduz, em grande medida, o funcionamento do mundo físico. Terrenos podem ser comprados em leilões ou a preço fixo, pagos em criptomoedas e registrados como NFTs. A partir daí, os proprietários podem desenvolver projetos, construir ambientes virtuais ou simplesmente tentar revender os ativos.

Um ecossistema inteiro surgiu em torno dessa dinâmica, incluindo empresas como a Metaverse Property e profissionais especializados em design de espaços digitais.

Os terrenos adquiridos por Adamo ficavam em uma área valorizada do The Sandbox, próxima de regiões associadas ao Bored Ape Yacht Club e a espaços vinculados à Adidas. Na época, os preços partiam de cerca de 1 ETH, o equivalente a aproximadamente 3 mil dólares, mas podiam atingir valores muito mais altos. Um lote próximo chegou a ser vendido por 42 ETH, cerca de 130 mil dólares, em 2022.

O plano do grupo não se limitava à valorização dos ativos. Eles chegaram a desenhar um projeto de uma faculdade virtual, com cursos voltados a criptomoedas, blockchain, captação de recursos e comunicação. A iniciativa, no entanto, nunca saiu do papel.

Outros investidores seguiram caminhos semelhantes. O rapper Snoop Dogg vendeu um terreno no The Sandbox por 450 mil dólares. A MetaMetric Solutions apontou que as vendas de imóveis virtuais superaram 85 milhões de dólares apenas em janeiro de 2022. Já o criador de conteúdo Matt Upham relatou publicamente que perdeu dinheiro após investir 15 mil dólares em terrenos digitais e classificou a decisão como um erro.

Apesar do cenário, há quem ainda veja potencial no conceito. Hrish Lotlikar, CEO da SuperWorld, defende que o recuo faz parte de um ciclo natural de amadurecimento. A empresa dele trabalha com a venda de bilhões de parcelas digitais sobrepostas ao mundo real, permitindo que usuários associem experiências e serviços a locais específicos.

Hoje, segundo ele, cada lote tem valor médio de cerca de 20 dólares. Para Lotlikar, o principal obstáculo do metaverso foi a adoção. Ele avalia que a aposta em ambientes totalmente imersivos exigia uma mudança de comportamento grande demais, especialmente em um momento em que as pessoas buscavam retomar interações presenciais.

Na visão dele, dispositivos como óculos de realidade aumentada, incluindo modelos desenvolvidos pela Meta em parceria com a Ray-Ban, podem funcionar como uma ponte entre o mundo físico e o digital, viabilizando uma integração mais gradual.

A lógica por trás dessa visão é semelhante à de plataformas como Airbnb e Uber, que transformaram ativos comuns em oportunidades de negócio. Para Lotlikar, o mesmo pode acontecer com espaços físicos convertidos em camadas digitais.

Ainda assim, ele é uma voz minoritária em um mercado que perdeu tração. Muitos dos principais players já seguiram outros caminhos. Quando a Fast Company tentou contato com a Metaverse Property, não obteve resposta, e executivos ligados à empresa já haviam assumido novas posições no mercado, de acordo com seus perfis profissionais.


Por Chris Morris

Chris Morris é jornalista especializado em tecnologia, negócios e inovação, com foco em tendências digitais e seus impactos econômicos. Colabora com a Fast Company, onde cobre temas como Web3, metaverso e transformação tecnológica.


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