Palantir ataca Anthropic e OpenAI na disputa pelo futuro da IA
Alex Karp declara que 'revolução pela independência e pela soberania em IA já está em pleno andamento' em ataque a laboratórios rivais.
Wb3News
- Em carta aos acionistas, Alex Karp acusa os laboratórios de linguagem de tentar capturar "os meios de produção" de seus próprios clientes corporativos.
- A empresa reportou receita recorde de US$ 1,94 bilhão (+93%) e lucro de US$ 1,06 bilhão no segundo trimestre de 2026.
O CEO da Palantir, Alex Karp, atacou diretamente a Anthropic e a OpenAI na carta trimestral aos acionistas divulgada em 3 de agosto de 2026, acusando os laboratórios de linguagem líderes do mercado de tentar capturar "os meios de produção" dos usuários de suas plataformas. A carta é a mais nova peça da narrativa que a empresa vem construindo em torno da disputa pela infraestrutura e pelos dados utilizados pelas empresas de inteligência artificial (IA).
O documento acompanhou a divulgação dos resultados da Palantir no segundo trimestre. A receita somou US$ 1,94 bilhão, registrando uma alta de 93% sobre o ano anterior. "Outro recorde nas duas décadas de operação da empresa", destacou Karp.
O lucro líquido chegou a US$ 1,06 bilhão: "geramos mais lucro em um único trimestre do que em receita total no mesmo período do ano anterior", escreveu o CEO. A receita nos EUA somou US$ 1,6 bilhão no trimestre, alta de 115% na comparação anual; a receita comercial nos EUA chegou a US$ 764 milhões, alta de 149% ano a ano e de 28% frente ao trimestre anterior.
Esses números, segundo Karp, reforçam a posição da empresa como fornecedora de infraestrutura de IA para governos e empresas. A Palantir elevou a projeção de receita anual para US$ 8,16 bilhões e as ações da empresa subiram quase 30% no pregão seguinte à divulgação dos resultados.
"Estados vassalos": a tese de Karp contra Anthropic e OpenAIA carta aos acionistas que acompanhou os resultados abre com um ataque explícito ao modelo de negócios de Anthropic e OpenAI:
"A revolução pela independência e pela soberania em IA já está em pleno andamento. Todas as organizações do mundo estão despertando para os riscos de entregar as chaves de suas instituições aos criadores dos modelos de linguagem."
Karp acrescenta que a demanda dos clientes da Palantir é por "controle sobre os dados e os prompts que os modelos internalizam e, mais fundamentalmente, a inteligência organizacional e de negócios, o alfa, que os laboratórios de linguagem não apenas estão dispostos, mas estão estruturalmente projetados para capturar de seus clientes".
"Nossos clientes recusam-se a se tornar Estados vassalos dos laboratórios de linguagem", afirmou Karp.
Karp escreveu que o modelo de negócio da Palantir diferencia-se da estratégia de captura de valor gerado pelos usuários adotada pelos laboratórios rivais:
"Somos pagos, e sempre aspiramos a ser pagos, como derivativo da criação de valor [...] Não somos pagos por cliques, tokens ou conversas. A gamificação do desenvolvimento mais significativo da história econômica moderna nos parece equivocada."
Karp chamou o modelo de cobrança dos rivais de "complexo token-industrial" e afirmou que a Palantir "sempre se recusou, e continuará se recusando, a desenvolver uma relação parasitária com seus parceiros". Em oposição, o modelo da Palantir teria "contornos e subtons marxistas".
No encerramento da mensagem aos acionistas, escreveu que a Palantir é "uma das poucas [...] totalmente alinhada com seus clientes".
Uma narrativa construída ao longo de mesesA carta não foi um movimento isolado. Em 29 de junho, a Palantir anunciou a ampliação de sua parceria com a Nvidia para levar os modelos de parâmetros abertos Nemotron a ambientes "soberanos" de IA voltados a agências governamentais e infraestrutura crítica dos EUA.
No dia seguinte, o perfil oficial da Palantir no X publicou um manifesto de nove pontos sobre a soberania da IA que antecipa os ataques de Karp na carta aos acionistas. O documento afirma que "a soberania de IA é determinante para o futuro da sua instituição" e que a manutenção do controle dos dados é fundamental. Transferi-los a terceiros não apenas implica em transferência de valor como também expõe as instituições a riscos imprevisíveis.
"Há uma razão para quem vende tokens se recusar a cobrá-los com base em valor", afirma o manifesto ao cunhar o termo "tokenmaxxing" para caracterizar o sequestro de valor e a redução da fortaleza e da inteligência de empresas e instituições governamentais.
Em entrevista à CNBC em julho, Karp mencionou diretamente Sam Altman e Dario Amodei, co-fundadores da OpenAI e da Anthropic, respectivamente, ao questionar a lógica operacional de ambas as empresas:
"Essas pessoas são o Sam e o Dario — não há nada mais divertido do que debater com o Dario em particular, então não estou jogando uma sombra neles — mas algo deu completamente errado. E a visão dominante entre as empresas neste país é: vou ficar de boa e desperdiçar meu tempo com tokens, não vou obter valor nenhum, e eles vão ficar com minha propriedade intelectual."
Na sequência, explicou por que a parceria com a Nvidia atende à demanda dos clientes por controle sobre a própria infraestrutura de IA:
"O que me alinha com a Nvidia é o que acho que os nossos clientes desejam: controle sobre o uso que fazem de computação, de seus modelos, de seus dados e de seu alfa. Eles querem saber que são donos dos meios de produção, que isso não está sendo transferido para terceiros."
Karp destacou os riscos à segurança nacional e à estratégia militar dos Estados Unidos para consolidar a posição da Palantir como a empresa mais confiável do setor em nível governamental:
"Quando o Departamento de Guerra recorre a você e diz 'preciso desta aplicação' — quem controla os parâmetros, eles ou você? Vamos mesmo terceirizar o campo de batalha deste país para o consenso do Vale do Silício? Isso é uma loucura."
As ações da Palantir subiram entre 8% e 9% no dia da entrevista.
A Palantir mantém um contrato de até US$ 10 bilhões com o Exército dos EUA, que referenda 75 contratos anteriores por até dez anos, segundo comunicado oficial da corporação. Em paralelo, a Anthropic segue em atrito com o governo Trump: o secretário de Defesa, Pete Hegseth, qualificou a empresa como de "risco à cadeia de suprimentos" em 27 de fevereiro, depois de a empresa recusar a assinatura de um contrato de uso irrestrito de sua plataforma para fins militares.
O que muda para quem compra IA de governo ou empresaA publicação da carta e o desfecho do atrito entre Anthropic e o Pentágono reacendem uma questão prática para compradores institucionais de IA: qual fornecedor mantém acesso a ambientes classificados e qual corre risco de ser descontinuado por decisão política.
Karp não menciona em suas declarações públicas, mas Palantir integra o Claude à sua plataforma AIP em ambiente classificado IL6, sobre a nuvem da AWS, desde novembro de 2024, segundo comunicado conjunto das três empresas — a mesma parceria técnica que, meses depois, se tornou pano de fundo do atrito entre a Anthropic e o Departamento de Guerra.
A OpenAI, por sua vez, fechou acordo direto com o Pentágono em março de 2026, logo após o confronto entre o governo e a Anthropic. Não há, nas fontes levantadas nesta apuração, um levantamento público e consolidado de quais acreditações (como FedRAMP High, IL5 ou IL6) cada fornecedor mantém ativas hoje informação que compradores em setores regulados precisariam confirmar diretamente com cada empresa.
O manifesto que fundamenta o discurso de KarpMeses antes, em 19 de abril, a Palantir havia publicado no X uma síntese de 22 teses sobre o compromisso e a missão das empresas de tecnologia americanas extraídas do livro The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, de Karp e Nicholas Zamiska, chefe de assuntos corporativos da empresa.
Because we get asked a lot. The Technological Republic, in brief. 1. Silicon Valley owes a moral debt to the country that made its rise possible. The engineering elite of Silicon Valley has an affirmative obligation to participate in the defense of the nation.
— Palantir (@PalantirTech) April 18, 2026
2. We must rebel…
Mais amplo em escopo, o documento defende que "o Vale do Silício deve uma dívida moral ao país que possibilitou sua ascensão" e que a elite de engenharia do setor têm "a obrigação de participar afirmativamente da defesa da nação". Argumenta que "os limites do soft power [...] foram expostos" e que sociedades livres precisam de "hard power" baseado em software:
"A pergunta não é se armas de IA serão construídas; é quem vai construí-las e com qual propósito?"
Foi nessa postagem, que soma mais de 30 milhões de visualizações no X, que a Palantir formulou, pela primeira vez, os termos que reapareceram no discurso de Karp recentemente: a defesa de que dados, parâmetros e "alfa" pertencem a quem os gera, e de que ceder esse controle a terceiros — sejam laboratórios de linguagem, sejam potências estrangeiras — equivale a abrir mão da soberania.
A corrida trilionária: os IPOs de Anthropic e OpenAIA disputa pela soberania dos dados terá um capítulo adicional em breve: Anthropic e OpenAI caminham para se tornar, também, concorrentes da Palantir nos mercados públicos de capitais.
A Anthropic protocolou pedido confidencial de IPO na SEC em 1º de junho de 2026, avaliada em cerca de US$ 965 bilhões. A OpenAI fez o mesmo em 8 de junho, com valuation entre US$ 730 bilhões e US$ 850 bilhões. O mercado estima que ambas as empresas tornem-se públicas entre setembro e o fim de 2026.
Se os IPOs saírem como planejado, Anthropic e OpenAI devem se juntar à Palantir como opções de investimento em IA disponíveis na bolsa. Ou seja, passarão a competir com a empresa de Karp não apenas pelos dados e pela confiança de governos, mas pelo capital dos mesmos investidores.