O estudo “Stablecoins: uma visão do mercado sobre modelos de emissão, governança e regulação”, elaborado pela KPMG em conjunto com a ABcripto em 2026, oferece um retrato relevante sobre como participantes do mercado enxergam o desenvolvimento das stablecoins no Brasil em um momento de evolução do ambiente regulatório aplicável aos ativos virtuais.
A composição da pesquisa ajuda a contextualizar os resultados: 70% dos participantes são PSAVs (prestadoras de serviços de ativos virtuais) e 30% bancos, enquanto 80% já emitem stablecoin e os demais 20% pretendem emitir. Trata-se de uma fotografia das expectativas e preocupações de agentes diretamente envolvidos nesse mercado.
Um dos principais pontos está relacionado aos casos de uso. Transações internacionais aparecem como a principal proposta para emissão de uma stablecoin, mencionadas por 33% dos participantes, seguidas pela integração com serviços financeiros digitais e pela geração de liquidez para empresas, ambas com 20%. Empresas também constituem o principal público-alvo apontado pela pesquisa.
Quando questionados sobre o papel futuro das stablecoins no sistema financeiro brasileiro, 50% apontam infraestrutura para pagamentos e câmbio internacional e 30% indicam sua utilização como moeda de liquidação para ativos tokenizados.
No contexto brasileiro, esse resultado ganha especial relevância. Diante de uma infraestrutura doméstica de pagamentos altamente eficiente, o potencial das stablecoins parece estar menos na substituição dos meios de pagamento locais e mais na ampliação das possibilidades de conexão com pagamentos no exterior. Nesse cenário, operações cross-border, câmbio, tesouraria e tokenização despontam como alguns dos casos de uso mais relevantes.
Outro ponto relevante é que a confiança nas stablecoins parece depender cada vez mais da solidez da estrutura financeira e institucional que sustenta sua emissão e circulação. Para 67% dos participantes, o modelo ideal envolve lastro de 100% em dinheiro ou títulos públicos.
Todos os entrevistados consideram necessária a realização de auditorias independentes sobre as reservas, e 70% apontam como principal indicador de transparência a publicação de relatórios sobre composição, liquidez e localização dos ativos.
A governança segue lógica semelhante. Para 89% dos participantes, decisões críticas deveriam ser tomadas pela própria instituição emissora, sujeita a regras internas e supervisão regulatória.
Esses resultados apontam para uma mudança importante na forma como o mercado enxerga as stablecoins. Em modelos voltados à adoção institucional, a tecnologia, isoladamente, não basta para sustentar a confiança. Passam a ganhar peso elementos tradicionais de solidez e controle, como qualidade das reservas, auditoria, transparência, governança e mecanismos de resgate.
A discussão sobre reservas também possui dimensão econômica. Para 43% dos participantes, a principal fonte de receita deveria decorrer dos rendimentos dos ativos mantidos como reserva, como juros sobre títulos públicos ou depósitos. Isso mostra que o desenho das reservas não é apenas uma questão prudencial, mas também pode afetar diretamente a viabilidade do modelo de negócio.
É nesse ponto que os resultados do estudo dialogam com o amadurecimento da regulação brasileira. Segundo a pesquisa, 60% dos participantes avaliam positivamente o impacto das novas resoluções do Banco Central, associando-as a maior clareza, segurança jurídica, institucionalização e profissionalização do mercado. Ao mesmo tempo, o estudo registra preocupações com aumento de custos, concentração e possíveis impactos sobre a inovação.
Essa tensão é um dos pontos mais relevantes do documento. A regulação passa a ser percebida não apenas como custo de conformidade, mas também como elemento capaz de gerar confiança, legitimidade e acesso institucional.
O estudo chega a utilizar a expressão “moat regulatório” para descrever a percepção de que emissores que investirem antecipadamente em compliance, tecnologia e governança podem construir uma vantagem competitiva difícil de replicar.
Esse ponto merece atenção. Se a regulação passa a funcionar também como vantagem competitiva, ela influencia não apenas a segurança do mercado, mas sua própria estrutura concorrencial. Requisitos mais elevados podem aumentar confiança e reduzir riscos, mas também elevar barreiras de entrada e favorecer agentes com maior capacidade financeira e tecnológica.
Outra questão relevante está na comparação entre stablecoins e instrumentos tradicionais de câmbio e pagamentos internacionais. O estudo sugere que a transformação pode ocorrer menos pela substituição direta dos produtos existentes e mais pela reorganização da infraestrutura utilizada para processá-los. Stablecoins poderiam ganhar espaço em fluxos cross-border mais ineficientes e substituir partes de processos como pre-funding e reconciliação, enquanto bancos e prestadores de serviços de pagamento continuariam responsáveis por relacionamento com clientes, compliance e financiamento.
A própria pesquisa resume essa percepção ao indicar que a competição tende a ocorrer menos entre produtos e mais entre modelos de infraestrutura.
Esse talvez seja um dos pontos que melhor traduzem o estágio atual do mercado. Mais do que discutir se as stablecoins substituirão bancos ou meios de pagamento tradicionais, importa entender como elas podem transformar etapas da infraestrutura financeira, sobretudo em fluxos que podem ser liquidados de forma programável, contínua e integrada a redes blockchain.
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O processo regulatório, contudo, ainda está em construção. O estudo registra participantes que identificam falta de clareza e insuficiência de padronização operacional, além de desafios relacionados à interoperabilidade, privacidade, resiliência e segurança cibernética.
Os resultados apontam para um mercado brasileiro de ativos virtuais em uma nova etapa de desenvolvimento. As stablecoins passam a ser vistas não apenas como instrumentos do ecossistema cripto, mas como potenciais componentes da infraestrutura de pagamentos, câmbio, liquidação e tokenização.
Nesse contexto, a regulação também assume um papel mais amplo: deixa de ser percebida apenas como restrição e passa a influenciar o próprio desenho econômico e competitivo do setor. O desafio está em ampliar segurança, previsibilidade e capacidade de escala sem criar obstáculos excessivos à concorrência e à inovação.