'Rompimento ou armadilha'? Bitcoin sobe 23% e analistas debatem fim do bear market
Alta provocou a maior liquidação diária de posições vendidas da história do Bitcoin, mas analistas apontam níveis que ainda não foram testados acima e abaixo do preço atual.
- Bitcoin sobe 23% em sete dias, saltando da faixa dos US$ 63 mil para máximas locais de US$ 79.306.
- ETFs de Bitcoin somaram US$ 1,6 bilhão em captação líquida em quatro dias consecutivos.
O Bitcoin disparou da faixa dos US$ 63 mil para uma máxima intradiária de US$ 79.306, seu maior valor desde junho, acumulando ganhos semanais de 23%. Nesta sexta-feira, o preço do BTC era cotado em torno de US$ 77.500, de acordo com dados da CoinGecko.
A alta acompanhada pelas principais altcoins elevou o Índice de Medo e Ganância Cripto, que funciona como termômetro do sentimento do mercado, saltou de 60 para 73 pontos em três dias, migrando de "neutro" para "ganância".
O gatilho do movimento foi o anúncio do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, de ampliar as recompras de títulos públicos de longo prazo — com vencimentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos —, elevando o limite por operação de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões, segundo relatório do BTG Pactual assinado por Matheus Parizotto e Vinicius Bitelo.
A medida passa a valer em 9 de setembro e segue até 4 de novembro. O novo calendário de operações será detalhado na próxima rodada trimestral de refinanciamento do Tesouro. Segundo o relatório, o anúncio aliviou os juros longos e o dólar, favorecendo ativos sem geração de fluxo de caixa — caso dos criptoativos e do ouro.
O aumento da volatilidade provocou liquidações forçadas em escala: US$ 953 milhões em posições vendidas foram liquidados nas últimas 24 horas, e US$ 4,3 bilhões desde o início da alta. Segundo dados da Coinglass, ao romper a resistência em US$ 67 mil, o preço do BTC desencadeou a liquidação recorde de US$ 1,2 bilhão em um único dia. Foi o maior evento de liquidação de posições vendidas da história do ativo, superando os recordes anteriores de US$ 748 milhões (jul/2021), US$ 694 milhões e US$ 565 milhões (jul/2025).
Segundo análise da Ecoinometrics, o rali marca a superação de um "obstáculo-chave de recuperação": o rompimento decisivo da média móvel de 200 dias após uma primeira tentativa fracassada em maio. Aproximadamente sete em cada dez rompimentos acima da média de 200 dias foram seguidos por altas de preço do Bitcoin nos três meses seguintes.
A análise pondera que, apesar da liquidação recorde, o rompimento teve suporte de demanda genuína: segundo seu modelo de fluxo de ETFs, o Bitcoin está atualmente sustentado em uma faixa entre US$ 67 mil e US$ 78 mil, com valor justo em torno de US$ 72 mil. As duas últimas sessões de negociação antes do rompimento registraram entradas positivas em ETFs após um agosto de captação modesta.
Os ETFs de Bitcoin captaram US$ 517 milhões em 19 de agosto — maior saldo diário desde o início de maio. No dia seguinte, as entradas somaram US$ 606,3 milhões, marcando o quarto dia consecutivo de entradas e US$ 1,6 bilhão acumulados.
O ambiente regulatório nos EUA também colaborou para a alta. A análise do BTG Pactual atribui o momento favorável à iniciativa da Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) de apresentar a proposta para criação de um regime específico para ofertas de tokens ligados a contratos de investimento, embora pondere que a proposta tem efeito mais limitado que uma lei, reforçando a importância da aprovação do Clarity Act como marco estrutural para o setor.
“Apenas um rali de alívio”Apesar da euforia momentânea, nem todo analista interpreta o movimento como uma reversão de tendência. João Wedson, CEO e fundador da Alphractal, já havia sinalizado em 19 de agosto que o Bitcoin ainda tinha espaço para subir acima dos US$ 70 mil. "Há posições vendidas paradas nessa região há vários meses", escreveu em uma publicação no X. Mas, ao filtrar o gráfico de níveis de liquidação para mostrar apenas as maiores piscinas de liquidez, Wedson identificou que o principal e maior pool de liquidação segue concentrado perto de US$ 57 mil — abaixo do fundo local registrado no atual ciclo de baixa.
No dia seguinte, advertiu:
"Short squeezes são comuns em bear markets, e podem ser perigosos. Além de liquidar posições vendidas posicionadas no momento errado, eles também podem fazer as pessoas acreditarem que uma nova tendência de alta já começou. Quem está no mercado há tempo suficiente sabe que uma tendência de alta não se define por apenas alguns dias de valorização de preço. É preciso uma causa muito mais forte, sustentada por volume, além de avaliar modelos de valuation e onde estão os principais níveis de liquidação. Por enquanto, vejo esse movimento como nada mais que um rali de alívio. Na minha visão, nada mudou ainda."
Wedson também apontou uma região de atenção abaixo do preço atual: a região logo acima de US$ 72.600, que descreve como uma "zona quente" on-chain — território onde o mercado tende a ficar sobreaquecido e que pode funcionar como resistência. "Mesmo que o Bitcoin suba acima de US$ 75 mil, a importância dessa zona não é invalidada", escreveu, lembrando que, em bear markets anteriores, regiões semelhantes se mostraram armadilhas e sinais falsos.
Com o Bitcoin acima de US$ 77 mil, há necessidade de cautela redobrada daqui em diante, e não o contrário, advertiu o analista:
"Por enquanto, esperar parece a melhor estratégia."
Cenário macro também exige cuidados
O cenário macroeconômico também emite sinais de alerta em meio à euforia. Victor Alfa, analista da WeSearch, apontou em um publicação no X que, historicamente, o PMI ISM de manufatura funciona como um termômetro de ciclo de mercado para o Bitcoin: quando a indústria americana entra em expansão sustentada (acima de 50 pontos), o apetite a risco melhora e o crédito se expande.
Os dados mais recentes apontam melhora real na atividade: o PMI chegou a 55,6, maior nível desde 2022, sétimo mês seguido de alta, com produção saltando de 52,2 para 58,5, o mercado de trabalho voltando à expansão após 33 meses (de 49,7 para 52,8).
Mesmo assim, segundo o analista, o Bitcoin "ainda não reagiu com a força de ciclos anteriores" a esse ambiente favorável. Para o analista, a descorrelação vem de uma transmissão incompleta entre o ciclo de negócios e a liquidez:
"O cenário é bom para a economia real, mas ainda insuficiente para o preço do BTC, que precisa de confirmação de alívio na política monetária", escreveu Alfa, acrescentando:
“Muito cuidado com essa alta, pode ser uma armadilha.”
Parede entre US$ 58 mil e US$ 67 mil pode virar suporte
Já o analista de dados on-chain Cauê Oliveira sugeriu em uma publicação no X que uma estrutura de suporte mais robusta pode sustentar o movimento reversão do mercado. Segundo Oliveira, existe uma "parede" de 3,44 milhões de BTC com custo médio entre US$ 58 mil e US$ 67 mil que poderá atuar como suporte relevante em eventuais correções.
De acordo com o analista, 2,23 milhões de BTC — cerca de 11% de todo o suprimento em circulação — se movimentarm nessa faixa enquanto o preço passou 11 semanas andando de lado, e quase 9 em cada 10 dessas moedas vieram de cima, principalmente da faixa entre US$ 67 mil e US$ 74 mil, que perdeu quase 40% da própria oferta no período.
A região de US$ 67 mil, apontada pelo BTG Pactual como a resistência rompida nesta semana, marca justamente o topo do intervalo de custo médio identificado por Oliveira. Análise técnica e dados on-chain convergem no mesmo ponto.
Do total de moedas que ficaram presas acima dessa faixa, 76% simplesmente segurou a posição sem vender, segundo Oliveira; apenas 11% aproveitou para baixar o próprio custo médio “comprando a queda”, e os outros 13% capitularam, vendendo com prejuízo médio de 26%. "Esse é o tipo de padrão de troca de mãos em região de formação de fundo", avaliou.
Em outra publicação, Oliveira destaca a faixa entre US$ 65 mil e US$ 67 mil como o "ponto de controle" de maior demanda represada:
"Quem não acompanhou todo o movimento vai provavelmente reposicionar capital ali e poderá trazer uma faixa de suporte importante. Tudo depende de como a demanda atual se sustenta para que isso ocorra. Em caso de manutenção, essas regiões ficarão apenas na história."
Enquanto o padrão clássico do ciclo de quatro anos não for quebrado, não haverá consenso sobre o fim do bear market. Caso a história se repita, o fundo será registrado entre outubro e novembro deste ano.
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