Três incidentes independentes em menos de um mês abalaram a narrativa de que carteiras de autocustódia são a forma mais segura de guardar Bitcoin e outros criptoativos. Uma falha na geração de chaves da Coldcard, fabricada pela canadense Coinkite, resultou no maior roubo de Bitcoin de 2026. Na sequência, vazamentos de dados da Trezor e da SafePal expuseram informações pessoais de dezenas de milhares de clientes.
Para a DSec Labs, empresa brasileira de infraestrutura blockchain e segurança de ativos digitais, os três casos mostram que a segurança da autocustódia deixou de ser uma questão de estar ou não conectado à internet.
"Durante muito tempo, o mercado concentrou a discussão na diferença entre deixar os ativos em uma corretora ou armazená-los em uma carteira offline. Os ataques recentes mostram que a análise precisa ser mais ampla. A segurança envolve a geração da chave, o dispositivo, o software, o backup, os fornecedores e até as informações pessoais associadas à compra do equipamento", disse ao WB3News Guilherme Campos, COO e cofundador da DSec Labs.
O caso mais grave envolveu a carteira Coldcard. Segundo a DSec Labs, uma falha no software usado por determinados modelos reduziu a aleatoriedade da geração de frases-semente — o conjunto de palavras que dá acesso a uma carteira —, tornando viável que criminosos testassem diversas combinações até encontrar endereços válidos, sem precisar de acesso físico aos dispositivos.
As estimativas mais recentes dão conta de que mais de US$ 130 milhões em Bitcoin foram roubados a partir da vulnerabilidade. Dados da Chainalysis revelam que o Brasil está entre os países mais atingidos pelo ataque.
Dias depois, a Trezor confirmou, em comunicado oficial, que uma invasão ao banco de dados de um de seus fornecedores de logística expôs dados de 13.689 clientes. Embora carteiras, chaves privadas ou fundos não tenham sido comprometidas, nomes, telefones, e-mails e, parcialmente, endereços de entrega foram vazados publicamente.
A SafePal, por sua vez, identificou uma falha de autorização em um plugin de rastreamento de pedidos que expôs informações de 39.798 clientes. A empresa confirmou que senhas, frases-semente e fundos não foram atingidos, mas os dados vazados já circulam à venda em mercados clandestinos.
Ainda que não tenham resultado em perdas diretas, os dados comprometidos podem ser utilizados em golpes de engenharia social, alerta Toni Farias, CPTO da DSec Labs:
"A chave privada não precisa aparecer diretamente em um vazamento para que exista um risco relevante. Quando os dados permitem identificar quem possui uma carteira e onde essa pessoa mora, os criminosos ganham informações suficientes para construir ataques digitais ou físicos muito mais direcionados."
Nesse caso, a inteligência artificial (IA) atua como um vetor adicional de risco, acrescenta Farias:
"A inteligência artificial não quebra uma chave corretamente gerada. Ela potencializa vulnerabilidades que já existem e torna os ataques mais rápidos, personalizados e difíceis de identificar."
NVK, cofundador da Coldcard, sugeriu publicamente que ferramentas de IA podem ter facilitado a descoberta da vulnerabilidade da geração de chaves explorada no ataque da Coldcard. Em defesa da comunidade, uma força-tarefa intitulada Bitcoin Red Team foi mobilizada para evitar futuros incidentes da mesma natureza.
O grupo reuniu 16 voluntários e varreu 390 repositórios de código aberto do ecossistema Bitcoin para identificar vulnerabilidades similares às da Coldcard. Ao explicar a criação do Bitcoin Red Team, Rob Hamilton, cofundador e CEO da AnchorWatch e um dos líderes do grupo ao lado do desenvolvedor Calle, criador do aplicativo de mensagens instantâneas Bitchat, enfatizou a necessidade de proteger quem prefere não confiar seus bitcoins a terceiros:
"Não existe Bitcoin sem autocustódia. Isso não é negociável."
Usando uma combinação de modelos de IA em um mutirão inicial que durou 27,5 horas, a força-tarefa descobriu 4.962 vulnerabilidades, das quais 85 foram classificadas como críticas e 635 como de alta severidade.
Leonardo Maximiliano, CEO e cofundador da DSec Labs, reconhece que a IA aumenta a capacidade ofensiva de atores maliciosos, mas também pode ser utilizada para mitigar riscos:
"A IA não muda a segurança matemática de uma chave corretamente gerada, mas muda significativamente a velocidade com que falhas de implementação podem ser encontradas. O caso da Coldcard é um bom exemplo da diferença entre quebrar a criptografia e encontrar uma implementação que reduziu a entropia esperada. Ao mesmo tempo, transparência e código aberto continuam sendo elementos fundamentais de segurança, porque permitem que essas falhas sejam auditadas, reproduzidas e corrigidas publicamente."
"A segurança não termina no dispositivo"
Para os fundadores da DSec Labs, os três episódios têm uma origem comum. Campos avalia que "a superfície de ataque não termina no dispositivo", aumentando os riscos de carteiras de autocustódia:
"Os três casos são diferentes, mas estão conectados pela mesma lógica. Em um deles, houve comprometimento técnico da geração das chaves. Nos outros, os criminosos atingiram sistemas e fornecedores que fazem parte da cadeia das carteiras."
A empresa recomenda que os usuários de carteiras autocustodiais evitem guardar a frase-semente em fotos, e-mails ou serviços de nuvem, desconfiem de contatos sobre atualizações ou falhas de segurança, verifiquem endereços antes de transferir e considerem soluções de autocustódia multi-sig em caso de armazenamento de cifras elevadas.
Os três casos recentes remetem a falhas humanas: vulnerabilidade de código, fornecedor comprometido e engenharia social. Mas há um vetor de ataque ainda distante que adiciona um potencializador tecnológico à equação: a computação quântica.
Um whitepaper do Google, publicado em março de 2026, reduziu em 20 vezes a estimativa de qubits físicos necessários para quebrar a criptografia de curva elíptica que protege chaves públicas já expostas na blockchain. A vulnerabilidade não é da rede em si, mas das carteiras, alertou o pesquisador Rafael Castaneda em uma publicação recente no X. O alvo em potencial da computação quântica são os cerca de 6,9 milhões BTC armazenados em endereços cuja chave pública está exposta:
"A leitura que fica é que o medo está apontado para o lugar errado. A mineração aguenta. Quem vai precisar migrar para uma criptografia nova, antes que o relógio feche, é a carteira."
Não há consenso na comunidade sobre quando a ameaça quântica se tornará realidade: as estimativas mais pessimistas apontam para o início da década de 2030, mas Maximiliano afirma que é prudente tomar precauções para minimizar os vetores de ataque imediatamente:
"Faz sentido recomendar desde já boas práticas que também diminuem a superfície de exposição a uma eventual ameaça quântica, especialmente evitar a reutilização de endereços."
Embora não se trate de uma solução definitiva, "outputs que não revelam imediatamente a chave pública oferecem uma camada adicional de proteção", afirma o executivo da DSec Labs. Para ele, é "prematuro recomendar uma migração massiva de fundos exclusivamente por causa da BIP-361, porque ela permanece em estágio Draft e ainda não existe um padrão pós-quântico adotado pelo Bitcoin."
A BIP-361 é uma das propostas em debate para lidar com a ameaça quântica. Apresentada em abril de 2026 pelo desenvolvedor Jameson Lopp em colaboração com outros cinco coautores, a BIP-361 estabelece um plano de três fases para lidar com os BTC potencialmente vulneráveis: primeiro, bloquear novas transferências para endereços legados que já expõem a chave pública; depois, invalidar as assinaturas desses endereços, tornando os fundos não migrados inacessíveis; por fim, abrir um mecanismo de prova de conhecimento zero para que o dono dos endereços congelados prove que é dono do BTC neles armazenados.
Segundo estimativas dos próprios autores da BIP-361, cerca de 1,7 milhão BTC ficariam nessa situação, incluindo as moedas nunca movimentadas de Satoshi Nakamoto, o criador do Bitcoin.