Ransomware, deepfakes e roubo de chaves: como agentes de IA ampliam risco de hacks no mercado cripto

Redes coordenadas de "laranjas" já são usadas para lavar fundos roubados por agentes de IA através de exchanges, alerta a Sumsub em depoimento exclusivo ao WB3News.

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  • TRM Labs documentou em julho o primeiro ataque de ransomware sem intervenção humana conduzido inteiramente por um agente de IA.
  • No Brasil, tentativas de fraude com deepfakes cresceram 126% em um ano, segundo a Sumsub.

Agentes autônomos de inteligência artificial (IA) podem fazer os hacks bilionários que abalam o mercado cripto parecerem irrelevantes diante dos novos riscos de segurança que eles representam para o ecossistema.

O alerta foi feito por Ryan Kirkley, CEO da Global Settlement Network, durante painel no Wyoming Blockchain Symposium 2026:

"Achamos que esses hacks de pontes são devastadores. É apenas um trocado, não é nada. Antes, era muito difícil tentar hackear um único alvo em troca de US$ 20 mil. Por que você gastaria todo aquele tempo indo atrás de uma única pessoa? Agora, posso ter um agente que vai atrás de todo mundo".

O primeiro ataque 100% autônomo

O alerta não se baseia em suposição. Tem lastro em dados. Segundo o AI In Crime Adoption Index 2026, da TRM Labs, o uso de inteligência artificial em operações criminosas envolvendo criptoativos saltou de 28 para 54 pontos, numa escala de 0 a 100, entre 2024 e 2026. Esse número consolida uma alta de 96% em dois anos.

De acordo com o índice, o uso de IA em golpes e fraudes já é classificado como uma categoria "madura", enquanto hacks e ransomware ainda estão em estágio "emergente".

É justamente nessa categoria emergente que a TRM Labs documentou, em julho de 2026, o que descreve como o primeiro ataque de ransomware conduzido inteiramente por um agente de IA autônomo, batizado de JadePuffer. Segundo o relatório, a partir do acesso inicial via uma vulnerabilidade na ferramenta Langflow, o agente executou sozinho, sem intervenção humana, toda a cadeia do ataque — reconhecimento, roubo de credenciais, movimentação lateral, escalada de privilégios e criptografia dos dados.

O mesmo relatório revela a escala do risco: menções a IA em denúncias de golpe cresceram cerca de 25 vezes desde 2022, enquanto golpes que efetivamente usam IA cresceram 13 vezes no mesmo período.

As perdas com golpes baseados em deepfake até agora em 2026 já superaram todo o volume de 2025 em 263%. Por sua vez, grupos especializados em golpes de ransomware cresceram 21% entre 2024 e 2025. Ferramentas que viabilizam esse tipo de ataque são negociadas on-line ao custo de US$ 400 a US$ 1.200, com pedidos de resgate estimados entre US$ 75 mil e mais de US$ 500 mil em bitcoin.

Em outro relatório, focado exclusivamente no primeiro semestre de 2026, a TRM Labs contabilizou 207 hacks de criptoativos, somando US$ 972 milhões em perdas. Os incidentes mais que dobraram na comparação com o mesmo período em 2025. Os hackers da Coreia do Norte responderam por 66% desse total, cerca de US$ 643 milhões, com destaque para os ataques contra o Drift Protocol (US$ 285 milhões) e a KelpDAO (US$ 292 milhões).

O maior incidente independente registrado este ano até agora segue sem autoria confirmada: a TRM Labs não atribui a nenhum agente específico o roubo de aproximadamente 1.816 BTC — cerca de US$ 116 milhões — de usuários de carteiras Coldcard.

Sumsub: "O risco não é hipotético"

Ao contrário da ameaça quântica, um vetor de risco ainda distante no horizonte tecnológico, os agentes de IA já são capazes de explorar diversas superfícies de ataque, afirmou com exclusividade ao WB3News Javier Herrera Zumztein, engenheiro de Soluções de Monitoramento de Transações da Sumsub, empresa especializada em verificação de identidade e prevenção de fraude: 

"Agentes de IA já representam riscos concretos para o ecossistema cripto porque podem automatizar tentativas de fraude em larga escala. O fator decisivo é se exchanges e instituições financeiras implementam salvaguardas avançadas.”

Zumztein acrescentou que a natureza descentralizada e não permissionada do ecossistema dificulta não apenas a prevenção contra ataques, mas também a identificação de criminosos e a recuperação de fundos roubados:

“A própria arquitetura do setor cripto, com descentralização e ausência de estornos, torna essas ameaças ainda mais urgentes. Fraudadores exploram identidades sintéticas e deepfakes para burlar verificações de onboarding, enquanto invasões de contas e redes coordenadas de 'laranjas' são usadas para lavar fundos ilícitos por meio das exchanges. No panorama mais amplo, o risco não é hipotético e já está se materializando.”

Zumztein destacou também que o próprio Brasil já vem sendo afetado por esse cenário em transformação. Fraudes com deepfake cresceram 126% em 2025 na comparação com o ano anterior, aponta o relatório Identity Fraud Report 2025-2026 da Sumsub:

“Embora o índice geral de ataques tenha caído ligeiramente no país, a parcela de ataques complexos subiu 180%”, afirmou Zumztein. Segundo o engenheiro, novas formas de verificação de identidade estão sendo adotadas para mitigar os riscos:

“Para enfrentar esse cenário, instituições estão adotando salvaguardas em camadas: verificação biométrica avançada combinada com detecção de vivacidade, reconhecimento de padrões impulsionado por IA e monitoramento contínuo.”

O relatório da Sumsub mostra que o Brasil registrou em 2025 uma das menores taxas de fraude de identidade da América Latina: apenas 0,9%. A queda de 10% em relação a 2024 é atribuída ao amadurecimento dos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro, às regras mais rígidas do Banco Central para KYC e para integração ao sistema do Pix, e ao monitoramento de transações em tempo real.

O recuo, porém, não se estende às fraudes com deepfake e identidade sintética, que vêm crescendo no país — sobretudo nos setores de banco digital e apostas online. Golpes que utilizam perfis gerados por IA para burlar verificações de cadastro se tornam cada vez mais comuns.

Segundo o relatório, o Brasil está "entrando em uma nova fase, definida pela personificação habilitada por IA e pela manipulação de múltiplas contas": 4% dos usuários aprovados pelos sistemas de identificação da Sumsub no Brasil estão ligados a redes de fraude organizadas.

Em nível global, o relatório descreve o surgimento, em 2025, dos primeiros "agentes de fraude de IA": sistemas autônomos que combinam geração de conteúdo, automação e aprendizado por reforço para gerar identidades falsas sob demanda, interagir em tempo real com interfaces de verificação — respondendo a solicitações, ajustando o comportamento no meio do processo, imitando respostas humanas e aprendendo com tentativas mal-sucedidas para refinar abordagens futuras. 

Atualmente, segundo a Sumsub, esses agentes ainda estão "em sua infância", restritos a fóruns clandestinos e círculos de pesquisa fechados. No entanto, o relatório projeta uma explosão de fraudes conduzidas por "frotas coordenadas de agentes autônomos" em ataques de múltiplas etapas, com alta velocidade e escala:

"Este é o momento em que a IA deixa de simplesmente viabilizar fraude e passa a operá-la."

IA ataca mas também é alvo

Para quem constrói produtos cripto, a pergunta prática não é se a IA pode operar um golpe, mas quais são as principais superfícies de ataque. Leonardo Maximiliano, cofundador e CEO da DSec Labs, empresa de carteiras open-source e infraestrutura de pagamentos com cripto, afirma que as vulnerabilidades não estão na tecnologia em si:

"Hoje, um agente de IA não consegue simplesmente descobrir uma chave privada corretamente gerada ou assinar uma transação sem ter acesso a ela. O risco está em tudo que existe ao redor da criptografia. Agentes conseguem tornar engenharia social, phishing, falsificação de identidade e busca por vulnerabilidades muito mais rápidos, personalizados e escaláveis. Em outras palavras, a IA não precisa quebrar a criptografia se conseguir enganar quem controla a chave ou explorar uma falha no sistema que a protege", afirma Maximiliano.

Caio Mattos, CEO da NearX, startup brasileira de blockchain e tecnologias emergentes, acrescenta que os agentes de IA podem não apenas orquestrar ataques, mas também se tornar vítima deles:

"De um lado, ela pode ser usada para atacar, ampliando e facilitando a engenharia social (com uso de deepfakes, documentos falsos, etc.), além de ataques coordenados, como DDoS, entre outros. Na outra ponta, temos os próprios agentes de IA sendo atacados.”

A adoção de agentes de IA por empresas do setor financeiro sem estruturas robustas de cibersegurança potencializa esse vetor de ataque específico, afirma Mattos:

“Hoje já existem agentes gerenciando carteiras e tesourarias e fazendo hedging, e esses agentes têm se tornado alvo preferencial de hackers justamente pela quantidade de vulnerabilidades encontradas nesse tipo de aplicação."

Ao apontar as principais superfícies de ataque, os dois executivos convergem em parte, mas discordam sobre onde há maior concentração de risco.

"Com certeza as corretoras representam a maior superfície de ataque, principalmente pela engenharia social e pela concentração da custódia", afirmou Maximiliano. “Em segundo lugar, colocaria carteiras multiativos e aplicações conectadas a contratos inteligentes, porque quanto mais redes, contratos, integrações e permissões existem, maior tende a ser a superfície de ataque que um agente pode analisar e explorar", acrescenta.

Mattos concorda que os contratos inteligentes de custódia são um dos pontos mais expostos, e aponta as pontes entre blockchains como o alvo preferencial dentro dessa categoria:

"Em geral, as superfícies mais vulneráveis são os smart contracts, principalmente os que funcionam como escrow (custódia) e armazenam grandes quantidades de dinheiro. As aplicações mais visadas são as chamadas pontes (bridges), que basicamente são contratos inteligentes que servem para transferir valores de uma rede blockchain para outra.”

Maximiliano explica que casos como o da Coldcard são exceção e não a regra. Em geral, segundo ele, “carteiras offline dedicadas possuem uma superfície muito mais restrita”. Exceto se o usuário terceirizar a custódia de seus ativos a um agente autônomo, alerta Mattos:

"Se temos agentes de IA gerenciando chaves de acesso de carteiras, por exemplo, essa passa a ser a mais vulnerável."

Pavel Goldman-Kalaydin, chefe de IA/ML da Sumsub, sugere que a adoção de agentes de IA exigirá a implementação de uma nova camada de segurança, com um novo tipo de verificação: não apenas de pessoas, mas dos próprios agentes que agem em nome delas:

"A IA está transformando a verificação de identidade dos dois lados do campo de batalha. De um lado, está dando a fraudadores o poder de criar deepfakes, identidades sintéticas e até agentes de fraude autônomos que se comportam como humanos. Do outro, está dando a quem defende uma visibilidade sem precedentes — nos permitindo modelar o comportamento do usuário, detectar anomalias em milissegundos e construir sistemas de autoaprendizado que se adaptam a novas ameaças. A próxima fronteira é a verificação dos próprios agentes de IA — confirmando não apenas quem você é, mas quem está agindo em seu nome."


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