'Trilhos paralelos': CBDCs voltam à pauta na cúpula do Brics enquanto Drex segue travado

Plano que o banco central indiano apresentará na cúpula baseia-se na Declaração do Rio, de 2025, que propõe a interoperabilidade entre os sistemas de pagamento do bloco.

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  • A Cúpula de Líderes do Brics acontece em Nova Délhi nos dias 12 e 13 de setembro de 2026, sob presidência da Índia.
  • A proposta de avançar com a integração de moedas digitais de bancos centrais dos países mebros estará em discussão.

A Índia vai reforça a proposta de conexão das moedas digitais de bancos centrais (CBDC) dos países do Brics para pagamentos transfronteiriços na Cúpula de Líderes marcada para 12 e 13 de setembro de 2026, em Nova Délhi, segundo reportagem da Reuters. A proposta entra novamente na pauta do bloco apesar dos obstáculos políticos e técnicos que limitam o avanço da criação de um sistema de pagamento comum.

Com a Índia ocupando a liderança do bloco em 2026, banco central do país, o Reserve Bank of India (RBI), propôs em janeiro a integração das moedas digitais oficiais dos membros para facilitar o comércio internacional entre os países membros. Em agosto, o presidente do RBI, Sanjay Malhotra, tratou publicamente do assunto em Mumbai:

"Várias opções estão em discussão, mas ainda estão em fase de debate, incluindo as CBDCs e as integrações entre sistemas de pagamentos rápidos."

Na mesma ocasião, ele citou o objetivo de internacionalizar a rupia indiana, e ampliar o uso de moeda locais em operações transfronteiriças.

A proposta indiana é uma iniciativa para levar adiante a intenção declarada no parágrafo 50 da Declaração do Rio de Janeiro. Aprovada pelos líderes do bloco em julho de 2025 em cúpula realizada no Brasil, ela incumbiu ministros de finanças e presidentes de bancos centrais de "continuar a discussão sobre a Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS" e reconheceu o progresso da Força-Tarefa de Pagamentos (BPTF) do bloco em identificar caminhos para "maior interoperabilidade entre sistemas de pagamento do BRICS".

O Brasil assinou o parágrafo 50, mas travou projeto do Drex

Quatro meses depois da assinatura do documento, o Brasil interrompeu seu projeto de moeda digital coordenado pelo Banco Central (BC). Em 4 de novembro de 2025, o Banco Central comunicou que desligaria a plataforma baseada na rede Hyperledger Besu, usada nas fases 1 e 2 do piloto do Drex, devido a problemas de privacidade não resolvidos. A ideia é substituir toda a infraestrutura tecnológica, adotando soluções voltadas para ampliação do acesso ao crédito focadas no usuário final.

Em apontamentos do Fórum Drex, o BC declarou que "as soluções tecnológicas de privacidade testadas até o momento não demonstraram a maturidade necessária" para atender aos requisitos jurídicos de proteção de dados, e condicionou qualquer teste com a população ao momento em que os requisitos de segurança estiverem suficientemente endereçados.  

“O mandato do Banco Central não é usar uma tecnologia nova, o mandato do Banco Central é resolver problemas para a população", afirmou Gabriel Galípolo, presidente do BC em novembro do ano passado. Ao mesmo tempo, garantiu que o BC pretende seguir investindo no desenvolvimento de uma infraestrutura dedicada a ativos digitais.

Apesar do compromisso, Galípolo não estabeleceu prazos para a retomada do projeto. Com isso, o Brasil chega a Nova Délhi sem uma moeda digital em operação para conectar a qualquer arranjo do bloco.

Guerra no Irã cortou canal financeiro dentro do bloco

A cúpula de Nova Délhi ocorre em meio à guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã. O país do Oriente Médio tornou-se membro do Brics em 2024. O conflito provocou o fechamento virtual do Estreito de Ormuz, ponto de estrangulamento do comércio mundial de petróleo, e elevou o preço do barril acima de US$ 100 nos últimos dias diante de impasses nas frentes de batalha e nos canais dipolmáticos.

Os Emirados Árabes Unidos, também membros do bloco, foram alvos de ataques do Irã desde o início da guerra e suspenderam em agosto todas as transações comerciais e financeiras com o país. Além das questões técnicas, esse é um ponto de atrito relevante para a interligação de moedas digitais dos países do bloco, segundo fonte ouvida pela Reuters: dois membros que deveriam participar da mesma infraestrutura de pagamentos não mantêm relação financeira entre si.

O impasse já teve implicações práticas anteriormente. Em maio, os ministros das Relações Exteriores do Brics não conseguiram emitir declaração conjunta após reunião em Nova Délhi, por divergências entre Irã e Emirados Árabes Unidos.

"Alguns dos novos membros dos Brics — Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia — estão envolvidos em tensões e não concordam em muitos pontos. Isso é uma má notícia para uma entidade que opera com base no consenso", disse Michael Kugelman, pesquisador sênior do Atlantic Council.

O porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, afirmou em 8 de setembro de 2026 que as diferenças entre os dois países tiveram "impacto negativo" e dificultam a "elaboração" de uma declaração conjunta, mas disse esperar que os líderes cheguem a uma formulação aceitável para ambas as partes.

Guerra na Ucrânia e o precedente do SWIFT

Se o conflito no Oriente Médio pode travar o avanço da proposta indiana, a guerra na Ucrânia opera em chave oposta. Em 2 de março de 2022, o Conselho da União Europeia baniu sete bancos russos do sistema SWIFT "em vista da agressão militar não provocada e injustificada da Federação Russa contra a Ucrânia".

Ao restringir o acesso da Rússia ao sistema, as sanções forçaram o governo de Vladimir Putin a recorrer ao comércio com moedas alternativas ao dólar. O presidente afirmou que o comércio da Rússia com os países da Organização de Cooperação de Xangai (OCX) atingiu US$ 400 bilhões, com 98% em moedas locais.

A mesma Declaração do Rio que abriu caminho para a interoperabilidade de pagamentos condena, no parágrafo 14, "a imposição de medidas coercitivas unilaterais contrárias ao direito internacional" e afirma que sanções econômicas unilaterais e secundárias "têm implicações negativas de longo alcance para os direitos humanos". Especialistas em política externa ouvidos pela Reuters afirmaram que uma declaração conjunta em Nova Délhi demonstraria que um fórum de países emergentes pode se unir contra políticas economicamente debilitantes, como as sanções ocidentais.

O economista russo Yaroslav Lissovolik, ex-Fundo Monetário Internacional (FMI) e autor do artigo de 2017 que lançou a sigla R5 — a ideia de usar as moedas nacionais dos cinco membros originais do Brics —, descreve o movimento como deslocamento de eixo institucional. Ex-economista-chefe do Deutsche Bank para Rússia e Comunidade de Estados Independentes (CEI) e ex-chefe de pesquisa de investimentos do Sberbank, ele fundou em 2023 a consultoria BRICS+ Analytics.

"Sou um grande defensor de diversificar as instituições geograficamente, na medida do possível. De nos afastarmos desse padrão ocidental em que uma ou duas cidades representam toda a governança global, para que todas as regiões do mundo comecem a representá-la", disse Lissovolik.

Os obstáculos: China, swap cambial e adoção limitada

Discussões anteriores no âmbito do Brics sobre mecanismos de pagamento compartilhados tiveram pouco avanço, o que evidencia a dificuldade de integrar a infraestrutura financeira de um grupo cada vez mais diverso de países. Atualmente, o bloco reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

A própria Índia tem relutado em aprofundar a integração financeira com a China, afirmou uma das fontes, acrescentando que acordos desse tipo exigiriam confiança mais profunda entre os dois gigantes asiáticos. O país suspendeu a proposta do Alipay+ de se conectar ao seu sistema de pagamentos instantâneos para transações transfronteiriças por preocupações de segurança nacional relacionadas às ligações da plataforma com o governo chinês. Além disso, o governo indiano mantém relações amistosas com os EUA e nega interesse em substituir o dólar.

Acordos de swap cambial também seriam necessários para gerenciar desequilíbrios comerciais antes que qualquer integração de CBDCs entrasse em operação, acrescentou a fonte. A adoção ainda limitada de moedas digitais de bancos centrais em nível global é outro fator que pode complicar a implementação — e o caso brasileiro mostra que a limitação não é só de escala, mas de arquitetura.

Apesar da disposição do bloco por buscar alternativas ao dólar, a maioria das propostas não avançou até agora. Inclusive a ideia de criação de uma moeda comum. Enquanto isso, projetos logísticos que reúnem alguns dos países membros podem facilitar a integração econômica.

Por exemplo, o corredor Norte-Sul, que liga o porto de Mumbai ao Irã e segue até São Petersburgo por ferrovia e navegação no mar Cáspio, encurta de forma expressiva a rota que hoje passa pelo Canal de Suez. Rússia, Irã e Índia integram tanto o Brics quanto a OCX, uma aliança que surgiu com uma agenda de segurança e pode evoluir para um bloco econômico.

"A OCX será a espinha dorsal, o elo absolutamente crucial de todo esse grande projeto que chamam de Grande Eurásia. Eu o chamaria de OCX+", afirmou Lissovolik.

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