O poder computacional (compute), a capacidade de processamento usada para treinar e rodar sistemas de inteligência artificial (IA), está se tornando um mercado novo e potencialmente grande para ativos digitais, segundo relatório da BlackRock. A tokenização de direitos padronizados sobre recursos computacionais permitiria negociá-los, usá-los como garantia e liquidá-los em blockchain, com agentes de IA comprando e pagando pelos serviços de forma autônoma, de acordo com a gestora.
Publicado em 22 de setembro, o relatório “The Machine-Native Economy: How digital assets connect intelligence, commerce, and compute” (A economia nativa das máquinas: como os ativos digitais conectam inteligência, comércio e poder computacional, em tradução livre) é assinado por Will Su, chefe de pesquisa de ativos digitais, Robert Mitchnick, chefe de ativos digitais, Jay Jacobs, chefe de ETFs de ações nos EUA, e William Helm, chefe de inovação de produtos iShares nos EUA. A tese central do documento afirma que as tecnologias de IA e blockchain têm na tokenização uma base comum: os grandes modelos de linguagem (LLMs) dividem o texto em tokens numéricos para processá-lo, e as blockchains representam ativos como tokens verificáveis por máquinas.
O ponto de convergência entre os dois sistemas é a IA agêntica, que planeja e executa tarefas em várias etapas com intervenção humana limitada, afirma o relatório:
“A IA representa a inteligência nativa das máquinas, enquanto os ativos digitais representam o dinheiro nativo das máquinas.”
As estimativas de investimento acumulado em infraestrutura de IA superam US$ 5 trilhões entre 2025 e 2030, segundo dados do Goldman Sachs citados no relatório. De acordo com a BlackRock, uma parcela significativa do custo operacional (OpEx) que acompanha esse investimento é direcionado para o mercado de computação em nuvem. As receitas somadas de Amazon Web Services (AWS), Intelligent Cloud da Microsoft e Google Cloud devem chegar a cerca de US$ 1,1 trilhão em 2030, com crescimento anual de 29% a partir de 2025, de acordo com estimativas compiladas pela Bloomberg.
À medida que esse mercado se expande, o poder computacional “está se tornando um recurso econômico distinto, grande e cada vez mais investível, que pode sustentar uma nova classe de ativos digitais”.
A tendência é que a demanda se desloque do treinamento de sistemas de IA para a inferência, o uso cotidiano de modelos já treinados. De acordo com o modelo da McKinsey reproduzido no relatório, a inferência responderá por 43% da demanda de energia dos data centers em 2030, contra 28% do treinamento. Em 2025, as fatias eram de 25% e 28%, respectivamente. A base de usuários de inferência, que inclui empresas e consumidores, é “consideravelmente maior e mais fragmentada” que o grupo concentrado de participantes do mercado de treinamento, diz o relatório.
A BlackRock usa como modelo os mercados de commodities, que desenvolveram mercados de base e contratos por diferença (CFDs) para lidar com ativos heterogêneos e preços variáveis de acordo com fatores regionais. O relatório reconhece que ainda há desafios de padronização de contratos antes de o mercado ganhar escala, como as diferenças de produtividade entre gerações de chips, os custos de energia de cada região e os padrões de liquidação financeira ou por entrega da capacidade contratada. A gestora classifica esses obstáculos como “importantes, mas, em última instância, solucionáveis”:
“À medida que esses arcabouços amadurecem, esperamos que produtos padronizados, incluindo futuros de poder computacional negociados em bolsa, sustentem uma formação de preços mais transparente e um hedge mais eficaz tanto para fornecedores quanto para consumidores de poder computacional. Contratos padronizados de poder computacional também poderiam criar direitos sobre capacidade e direitos de uso relacionados, que podem ser representados, transferidos, dados em garantia e liquidados por meio de infraestrutura programável.”
Na prática, o modelo descrito pela BlackRock funciona da seguinte forma: o usuário faz solicitações complexas a um agente de IA, que estima o poder computacional necessário enquanto executa a tarefa. Por meio do MCP (Model Context Protocol), padrão criado pela Anthropic em novembro de 2024 para conectar aplicações de IA a dados e ferramentas externas, o agente consulta provedores e compara preço, desempenho, latência, localização e tipo de hardware. A contratação e o pagamento passam pelo x402, protocolo aberto desenvolvido pela Coinbase que usa o código de status HTTP 402 ("Payment Required") para permitir pagamentos iniciados por máquinas. O x402 permitiria a liquidação sob demanda "por uso, por token do modelo ou por tarefa", segundo o relatório.
O relatório destaca a compra da OpenRouter pela Stripe, anunciada em 19 de agosto de 2026, como um “sinal estratégico precoce” dessa convergência. A OpenRouter distribui cargas de trabalho entre mais de 400 modelos de mais de 80 provedores. A Stripe não divulgou o valor do negócio, mas tanto a Bloomberg quanto o TechCrunch reportaram cifra acima de US$ 7 bilhões.
A atuação da Stripe em pagamentos, stablecoins, cobrança por uso e comércio agêntico também reforça a tese, segundo a BlackRock. O anúncio oficial do negócio enfatiza a ampliação do Token Billing, produto de cobrança por consumo de tokens lançado pela própria Stripe, e a incorporação do roteamento dinâmico de modelos, por complexidade da tarefa, preço, velocidade e confiabilidade, à gestão de custos das empresas clientes. Nvidia, Zoom e Lovable estão entre os clientes da OpenRouter.
"Tokens são a moeda central das empresas que desenvolvem com IA, e está claro que o potencial econômico real dependerá do bom uso de recursos computacionais escassos", afirmou Patrick Collison, CEO da Stripe, ao justificar a aquisição.
Os futuros de poder computacional previstos no relatório já têm data de lançamento. O CME Group anunciou em 11 de agosto o lançamento, em 5 de outubro de 2026, de contratos futuros sobre dois índices da Silicon Data que medem o preço por hora do aluguel das GPUs H100 e B200, da Nvidia. Os contratos serão listados na NYMEX e dependem de aprovação regulatória. Cada um representa um mês de custo de aluguel de GPU.
“O poder computacional se tornou a moeda da era da IA”, afirmou Pete Keavey, chefe global de produtos de energia e ambientais da CME Group.
Os contratos oferecem instrumentos de hedge a desenvolvedores de IA e provedores de nuvem de grande escala (hyperscalers) diante da volatilidade dos preços de GPU, segundo o comunicado do CME. Os índices de preço por hora são a referência dos dois contratos, afirma Carmen Li, CEO da Silicon Data:
“Os futuros de poder computacional dão ao mercado algo que ele nunca teve: um preço de referência público e negociável para o recurso sobre o qual todo sistema de IA funciona.”
A Intercontinental Exchange (ICE) anunciou em 19 de maio contratos semelhantes em parceria com a Ornn, liquidados financeiramente em dólar e referenciados no Ornn Compute Price Index (OCPI), que acompanha os preços à vista de GPUs como H100, H200, B200 e RTX 5090. Os contratos da ICE também dependem de aprovação regulatória e ainda não têm data de lançamento. A ausência de um mecanismo de preço aceito globalmente é o argumento da bolsa e de sua parceira para o desenvolvimento do novo produto, afirma Kush Bavaria, cofundador e CEO da Ornn:
“O poder computacional se tornou um mercado de um trilhão de dólares, mas ainda carece da infraestrutura de precificação e de transferência de risco da qual todas as outras grandes commodities dependem.”
O relatório cita os financiamentos lastreados em GPU como um dos indicadores que sustentam a tese do poder computacional como uma nova classe de ativo digital. Embora a BlackRock não mencione nenhuma empresa, um exemplo é o caso da CoreWeave. Em 30 de março de 2026, a empresa anunciou uma linha de crédito de US$ 8,5 bilhões com vencimento em março de 2032, garantida por sua infraestrutura de GPUs e por contratos com clientes.
Segundo a empresa, é o primeiro financiamento com grau de investimento lastreado nesse tipo de ativo, com classificação A3 da Moody’s e A (low) da DBRS. Com a operação, os compromissos de financiamento da CoreWeave somam cerca de US$ 28 bilhões em 12 meses.
A versão on-chain do mesmo mecanismo é o USD.AI, protocolo de stablecoin que concede empréstimos a operadores de data centers de IA. Cada GPU financiada fica armazenada em um data center segurado e é tokenizada como um NFT (token não fungível), com direito executável sobre o hardware sob a lei comercial americana. Os operadores pagam os empréstimos com a receita da venda de tempo de processamento para treinamento e inferência de modelos.
O USDai, stablecoin do protocolo, tem cerca de US$ 328,6 milhões em capitalização de mercado, lastreados em empréstimos de infraestrutura e ativos de reserva, segundo a DefiLlama.
As stablecoins são o instrumento de pagamento que a BlackRock coloca no centro da economia de máquinas. Com mais de US$ 300 bilhões em circulação, segundo a RWA.xyz, os criptoativos atrelados ao dólar estão consolidados como a maior categoria de ativos do mundo real tokenizados. O volume ajustado de transações com stablecoins chegou a US$ 11,2 trilhões em 2025, um terço abaixo do volume da Visa (US$ 16,7 trilhões no ano fiscal encerrado em setembro de 2025) e acima da Mastercard (US$ 10,6 trilhões), de acordo com dados da Visa Onchain Analytics e da Allium reproduzidos no relatório.
No primeiro semestre de 2026, foram US$ 8,5 trilhões. O ACH, sistema de transferências bancárias dos EUA, movimentou US$ 93 trilhões em 2025, mas cresceu cerca de 8,5% ao ano entre 2020 e 2025, contra 80% das stablecoins. Na comparação com as redes de cartão, o relatório ressalva que as métricas não são diretamente comparáveis: o volume ajustado das stablecoins inclui operações em corretoras, DeFi, empréstimos, emissão e resgate de tokens e rampas de entrada e saída, enquanto a Visa reporta o volume total, com pagamentos e saques, e a Mastercard, o volume bruto em dólares.
Os pagamentos feitos por agentes, no entanto, ainda representam uma fração mínima desse volume. O x402 movimentou cerca de US$ 24 milhões em julho, valor aproximado ao que a Visa processa em um minuto, segundo a CoinDesk. Lincoln Murr, chefe de produto de IA da Coinbase, estimou à CoinDesk que cerca de 99% desses pagamentos usam USDC, a stablecoin atrelada ao dólar e emitida pela Circle.
A maior parte dos pagamentos é canalizada para APIs (interfaces de programação de aplicações), com agentes pagando poucos centavos por vez por dados, poder computacional ou acesso a ferramentas online. Apesar do potencial, trata-se de um mercado nascente e ainda em construção, afirma Murr:
“Esses agentes estão em ascensão, e não há uma economia clara para como esse novo consumo de conteúdo funcionará. Se pensarmos nos agentes como a evolução dos aplicativos, estamos na era do ‘scanner de código QR/aplicativo de lanterna’. As pessoas estão experimentando, e sabemos que esse é o futuro, mas ainda estamos descobrindo as mecânicas exatas.”
A Cloudflare lançou no início de agosto as Cloudflare Wallets e o cloudflare.pay, que permitem a agentes de IA fazer compras online dentro de limites preestabelecidos. A inferência está entre os primeiros casos de uso efetivos das stablecoins por agentes, segundo Stephanie Cohen, diretora de estratégia da empresa:
“As stablecoins são particularmente adequadas para os tipos de transações que esperamos que agentes de IA realizem inicialmente, essencialmente muitos pagamentos muito pequenos e de alta frequência para coisas como chamadas de API, dados, inferência e conteúdo.”
A própria BlackRock afirma que a atividade de pagamentos agênticos “permanece nascente” e que a liquidez do mercado de poder computacional ainda é limitada. Os autores, porém, consideram que o “encaixe estrutural” entre agentes autônomos e sistemas de pagamento nativos das máquinas torna a área digna de acompanhamento e fecham o relatório com uma projeção condicionada ao avanço da IA:
“À medida que a adoção da IA se amplia e os sistemas agênticos se tornam mais capazes, os ativos digitais podem se tornar cada vez mais parte integrante da infraestrutura econômica da IA, ampliando sua utilidade entre stablecoins, ativos do mundo real tokenizados e criptoativos nativos que sustentam a liquidação em blockchain.”