Alex Tapscott: "Criptoativos serão liderados por novos empreendedores, não por bancos tradicionais"
Especialista em blockchain, empresário canadense destaca que a disrupção no setor financeiro virá de fora das grandes corporações, com a tecnologia transformando toda a economia.
Em um cenário de constantes inovações tecnológicas, são os empreendedores e cientistas com mentalidade disruptiva que costumam transformar mercados. Alex Tapscott, empresário, autor de best-sellers e executivo especializado no impacto de tecnologias emergentes como blockchain, inteligência artificial (IA) e realidade estendida (XR), acredita que no universo dos criptoativos, as grandes corporações tradicionais não serão as protagonistas. Coautor do livro "Blockchain Revolution", que vendeu mais de 500.000 cópias em todo o mundo e foi traduzido para 19 idiomas, Tapscott defende que a verdadeira revolução será liderada por novas empresas, muitas das quais ainda nem surgiram. "Grandes bancos querem controlar tokens, mas isso entraria em conflito com o próprio sistema financeiro que eles dominam", afirmou Tapscott em entrevista ao Valor Econômico.
O empresário, que acompanha o mercado de criptoativos desde 2014, também se apresentará no HSM+ em São Paulo, no próximo dia 27, onde continuará compartilhando suas previsões sobre a transformação digital que a blockchain está promovendo.
Criptomoedas: do desafio à consolidação institucional
Em 2023, a aprovação dos primeiros ETFs de bitcoin nos EUA, com empresas gigantes como BlackRock, Fidelity e Ark Invest à frente do movimento, representou um marco na adoção institucional dos criptoativos. O que antes era visto com ceticismo por grandes nomes do setor financeiro, como o J.P. Morgan, agora se reflete em ações concretas, como a compra de terrenos no metaverso Decentraland, um ambiente virtual baseado em blockchain.
Para Tapscott, no entanto, essas empresas estão presas a uma contradição. Elas fazem parte do sistema financeiro tradicional, o mesmo que o bitcoin nasceu para desafiar. O criador do bitcoin, Satoshi Nakamoto, já apontava em seu white paper que a moeda digital foi criada para ser uma alternativa descentralizada ao sistema financeiro, que se mostrou ineficiente durante a crise de 2008. "Líderes do antigo paradigma têm dificuldade em liderar o novo. O bitcoin surgiu para mudar a forma como os pagamentos são feitos. Se você depende de taxas intermediárias, você está ameaçado pela blockchain," disse Tapscott.
Ethereum e a "tokenização" da economia
Para Tapscott, o Ethereum teve um papel crucial na evolução do mercado cripto. Desde sua criação, a plataforma revolucionou o conceito de blockchain ao introduzir os contratos inteligentes, permitindo a tokenização de não apenas moedas, mas de toda a economia. "Eu não sou de escolher favoritos, mas o Ethereum é uma das blockchains mais ambiciosas e bem-sucedidas. Estaríamos em um lugar pior sem ela," afirmou Tapscott.
Ele vê no Ethereum a confirmação da tese central de seu livro "A Revolução Blockchain", de que as redes descentralizadas podem representar e transacionar qualquer ativo de valor, sem a necessidade de intermediários. Esse avanço, para ele, prova que a blockchain pode ir além do bitcoin, oferecendo soluções práticas para diversos setores.
O papel de todos no futuro cripto
Embora se mostre favorável ao engajamento de novos atores, Tapscott ressalta que a tecnologia cripto não é exclusividade de libertários ou de um grupo específico de pessoas. Para ele, a "tenda do cripto" está aberta a todos, desde governantes, CEOs, até cidadãos comuns. No entanto, ele se opõe às moedas digitais de bancos centrais (CBDCs), como o Drex, lançado recentemente no Brasil. Tapscott vê nelas um retrocesso, pois criariam um sistema de moeda rastreável por governos, diferente do que o bitcoin oferece, que garante transações mais privadas. "A CBDC é uma moeda do governo, mas sem o benefício do anonimato que o dinheiro em papel oferece. Não sou contra a ideia, mas duvido que elas resolvam eficientemente os problemas que prometem resolver," explicou. Para Tapscott, a solução para pagamentos transfronteiriços poderia ser mais bem resolvida com stablecoins, criptomoedas com valores atrelados a moedas tradicionais, como o dólar.
O desafio da adoção em massa
Tapscott acredita que o maior obstáculo para a adoção em massa dos criptoativos é melhorar a experiência do usuário. Atualmente, o mercado cripto ainda é complexo para a maioria das pessoas, que enfrentam desafios como o uso de carteiras digitais e o gerenciamento de chaves privadas. No entanto, ele vê no futuro um cenário em que a simplicidade será a chave para a expansão do mercado. "A próxima revolução virá quando os usuários não precisarem entender as complexidades por trás das transações, como taxas de gás e senhas de 12 palavras. O que queremos é que as pessoas usem as criptos da mesma forma que hoje elas usam a internet, sem se preocupar com o 'www'."
Com esse futuro em mente, Tapscott segue acreditando que as oportunidades no mundo cripto são imensas, e que os próximos anos poderão trazer uma verdadeira "revolução financeira", liderada por novos empreendedores e empresas disruptivas.