Blockchain e tokenização impulsionam impacto social na Web3

BLOCOS ON CHAIN #21 - Web3 de impacto: livros, marmitas e florestas em blockchain

Por GUTA NASCIMENTO-

Iara Vicente comanda a tokenização de florestas pela Rede de Reservas Descentralizadas

Julho voou e agosto já está quase aí! 

 

Por isso, começo esta coluna antecipando a energia que teremos que ter para o início do segundo semestre deste foguete chamado 2025.

 

Agosto será um mês e tanto para a web3 no Brasil com Blockchain.RIO e Rio Innovation Week. De 5 a 7 de agosto, o Blockchain.RIO 2025 volta ao Expomag, prevendo 18 mil participantes e 410 palestrantes. A grade da programação inclui trilhas de tokenização de ativos, DeFi, IA aplicada a blockchain e painéis regulatórios com BC e CVM, além de um dia - denominado Blockchain Leaders - fechado para C-level e reguladores na Casa Camolese. Entre os nomes expoentes já confirmados estão André Portilho, do BTG Pactual; Courtnay Nery, estrategista em DeFi e ativos digitais; João Paulo Aragão, especialista no poderoso match AI+DeFI e o procurador federal Alexandre Senra. Ou seja, praticamente uma incubadora de debates práticos sobre tokenização, AI, stablecoins, CBDC, DAOs, compliance e cases de uso em fintech, energia, agritech e governo. Tudo junto e misturado.

 

Logo depois, de 12 a 15 de agosto, a Rio Innovation Week 2025 (RIW) toma conta de novo do Píer Mauá. Com direito ao porta-aviões NAM e tudo. O mega evento – que em 2024 atraiu 185 mil visitantes - projeta números ainda maiores para este ano. Na programação, muitos paineis embalando cripto, IA generativa, tokenização, amalgamados em cases de energia, agro e finanças públicas. O Energy Hub Summit, dentro da RIW, trará já logo no primeiro dia o painel “Blockchain, Web3: Descentralização digital e novos modelos de negócios energéticos”.

 

Eu adoro esses grandes eventos e considero eles vitais para dar visibilidade a muitas iniciativas, atrair um público novo e também acelerar parcerias. Mas na coluna de hoje quero falar sobre algumas iniciativas que me encantaram no Token Nation, em maio, em SP. É outro evento grande, anual, do qual sou muito fã, e que permitiu me conectar com algumas narrativas realmente transformadoras que estão sendo escritas por artistas, professores, motoboys e guardiãs da floresta. uma galera que mostra, na prática, o que significa tokenização de impacto.

 

Marmita Solidária

 

No coração de Taboão da Serra, periferia de SP, um projeto social mostra que blockchain pode servir não apenas para transações financeiras, mas também para alimentar corpos e restaurar dignidades. Idealizado pelo motoboy Torepa.eth, o Marmita Solidária é um exemplo do poder de transformação quando a Web3 encontra propósito social.

 

A iniciativa nasceu após Torepa participar do NFT Brasil 2024, onde teve seu primeiro contato com a Vrbs – uma das frentes do ecossistema da Nouns voltada para apoio a projetos de impacto. Através dessa ponte e com o apoio de outra iniciativa parceira, a Flux, o Marmita Solidária conquistou seu primeiro financiamento via grants. Esse empurrão inicial viabilizou algo que já fervilhava na mente e no coração de Torepa: um mutirão comunitário voltado à distribuição de marmitas, roupas e kits de higiene para pessoas em situação de rua.

 

“O projeto começou pequeno. No início fazíamos 50 marmitas. Hoje já conseguimos distribuir de 150 a 200, além dos kits de higiene com sabonete, escova, creme dental e absorvente. As roupas arrecadadas também são separadas com cuidado pelas voluntárias, que montam kits personalizados para crianças, homens e mulheres”, contou Torepa, visivelmente emocionado.

 

A Web3 entra como catalisadora de impacto. As doações em cripto são feitas por meio dos grants da Vrbs e da Flux, e a descentralização permite que recursos cheguem direto na ponta, com agilidade e sem burocracia. “A nossa moeda local não tem grande poder de compra, então mesmo com os grants, ainda precisamos mobilizar arrecadações de mantimentos e apoio logístico. Produzimos as marmitas apenas uma vez por mês, mas o sonho é fazer toda semana”, afirmou.

 

O projeto é uma mostra do potencial do ecossistema Web3 no Brasil, que começa a olhar para o mundo físico, onde blockchain pode ser - de verdade e não apenas social washing - ferramenta de equidade. “A Web3 tem o potencial de financiar o bem comum. Mas precisa olhar para a base da pirâmide. Porque é lá que a transformação mais urgente precisa acontecer”, apontou.

 

Agora, o Marmita Solidária busca novos apoiadores para crescer. “Com mais recursos, podemos aumentar a frequência, estruturar melhor nossa logística, ampliar os kits e até oferecer novas formas de apoio à população vulnerável, como capacitação e reintegração social.”

 

Ou seja, se a Web3 quer afirmar ser mesmo descentralizada, talvez precise começar a se conectar com as margens – ou, como em Taboão da Serra, com as bordas que alimentam o centro. Torepa.eth e sua comunidade já entenderam isso. E estão mostrando que, sim, é possível tokenizar empatia.

 

Da folha ao bloco: literatura em NFT

 

No Token Nation, em maio, fiquei super feliz de mediar o painel “Do livro ao NFT”, que reuniu três vozes distintas para debater o que acontece quando a literatura encontra a Web3:

 

Emanuel Souza, escritor e filósofo, mintou em 2022 o primeiro livro homologado como NFT pela Câmara Brasileira do Livro.

Fer Caggiano, artista visual e consultora, é referência internacional com coleções vendidas em múltiplas redes e exposições nos EUA.

 

Rodrigo Cid, doutor em filosofia, produtor e editor da revista Virtualia, mistura arte, lógica e blockchain na prática.

Nossa conversa começou destacando que tokenizar um livro vai muito além de transformar um arquivo digital em NFT. Trata-se de reimaginar um livro, a experiência da leitura e a relação entre autor e leitor.

 

Emanuel Souza: literatura como projeto coletivo

 

Emanuel contou que entrou na Web3 em 2021, durante o boom das NFTs. Seu foco sempre foi levar a literatura para esse novo universo, alcançando leitores de forma independente. Em 2022, publicou o primeiro livro homologado na Câmara Brasileira do Livro como edição NFT. Agora trabalha em seu segundo livro, em parceria com Fer (ilustrações) e Rodrigo (produção). Ele destacou que tokenizar não é apenas subir um arquivo: é criar um projeto coletivo que envolve arte visual, narrativa expandida, comunidade e até ambientes virtuais imersivos para os capítulos.

 

Fer Cagiano: NFT como ponte para colaborações globais

 

Fer começou sua jornada NFT após uma exposição nos EUA, quando um visitante perguntou se suas obras estavam tokenizadas. Após resistir inicialmente, aceitou o convite de um colecionador para participar de um projeto beneficente. Resultado: diversas coleções vendidas e uma nova carreira digital iniciada. Ela ressaltou que o glamour de “vender tudo e ficar rica” não corresponde à realidade. A força está nas colaborações e na comunidade. “Minha arte ganhou mundo. Conheci artistas e culturas que não teria acesso de outro jeito”, contou. Sua parceria com Emanuel é prova disso: uma conexão Web3 que nasceu à distância e virou obra coletiva.

 

Rodrigo Cid: blockchain como antídoto contra perdas

 

Conhecido como The Philosopher, Rodrigo entrou na Web3 motivado por duas perdas: teve uma revista acadêmica apagada quando um servidor falhou, e obras de arte suas foram roubadas. A blockchain, com seu registro descentralizado e permanente, foi a solução. Hoje, ele toca a Virtualia, uma revista que mistura filosofia, arte e tecnologia. Também está lançando o Virtualia Journal, um periódico acadêmico peer-reviewed hospedado no Open Journal System, e desenvolvendo uma plataforma para registrar cursos e certificados na blockchain — com o objetivo de evitar falsificações.

 

O processo de tokenização (tecnicamente falando)

 

Rodrigo explicou que tokenizar um livro é registrar o arquivo na blockchain, normalmente via contratos inteligentes que permitem controle sobre número de cópias, transferências e vendas. O registro pode ser feito com armazenamento descentralizado (como IPFS), garantindo durabilidade e autenticidade. Ele também mencionou a possibilidade de registrar capítulos inteiros dentro do próprio contrato, o que aumenta ainda mais a imutabilidade do conteúdo.

 

Propriedade intelectual, ISBN e oportunidades

 

Emanuel comentou que, ao registrar um livro como NFT, é possível contornar a necessidade de ISBN, embora tenha feito essa homologação para integrar também o sistema tradicional. O NFT, por si só, garante autoria, posse e origem imutável — algo que o mercado tradicional, segundo ele, ainda não oferece com tanta autonomia para o autor. No entanto, reconhece que o autor precisa assumir funções extras: promoção, construção de comunidade, e relacionamento com leitores. Por isso, tenta furar a bolha da Web3 aliando seu projeto a uma editora tradicional.

 

O conselho dos veteranos

 

Na rodada final, os três deixaram conselhos para quem quer entrar na Web3 literária e artística. Rodrigo alertou. “Cuidado com scammers. Guarde bem suas chaves. E valorize o registro permanente, não só a venda.” Fer Caggiano complementou. “Compreenda que vendas não são garantidas. O maior ganho está na comunidade e nas colaborações.” E Emanuel finalizou. “Tenha paciência. Web3 é cíclica. Seu portfólio construído na blockchain vale mais que um currículo.”

 

Resumindo, ao longo do painel o trio provou em suas falas a premissa inicial da conversa de que tokenizar um livro não é apertar um botão —  é criar um projeto artístico colaborativo. Mais do que um novo formato de publicação, os livros NFT são uma declaração: o autor retoma o controle sobre sua obra — da criação à distribuição.

 

Mata nativa e metadados: a Rede de Reservas

 

E se, em vez de apenas especular, a gente tokenizasse florestas?

 

É exatamente isso que propõe a Rede de Reservas Florestais Descentralizadas, projeto da Iara Vicente, CEO da consultoria Nossa Terra Firme. A iniciativa certifica áreas privadas de vegetação nativa com NFTs soulbound e organiza os proprietários em uma DAO chamada Protetores da Floresta.

 

No processo de adesão, o dono da terra passa por uma análise técnica, recebe o NFT com dados georreferenciados e entra para a rede. A partir daí, a DAO conecta essas reservas a oportunidades reais: editais ESG, créditos ambientais, turismo de base comunitária, fundos de impacto.

 

A Web3, nesse caso, oferece não só transparência e governança, mas também um canal direto para monetizar a conservação — sem intermediários e com legitimidade técnica.

 

“Eu sempre comento que a magia da Web3 acontece nos eventos. Experiências como a Token Nation explicam isso muito bem. Foi uma honra contar no Palco Futuros o que temos feito na Nossa Terra Firme para alavancar a proteção das florestas através da tecnologia. Foi muito rico trocar com parceiros que estão olhando para o mesmo problema sob perspectivas diferentes — como o Álvaro Andrés Gómez Rodríguez, com o olhar do venture capital estratégico; a Larissa da Rosa Correa, com foco nos bioinsumos; e o Renato Ximenes de Melo conduzindo a discussão a partir do direito regenerativo”, escreveu Iara após o evento em seu Linkedin.

 

Web3 além da bolha

 

E o que conecta esses três exemplos? A noção de que a Web3 é mais que uma indústria — ela pode ser também uma linguagem. E como toda linguagem, ela pode ser usada para o bem comum, não apenas para a próxima rodada de funding.

 

Se os grandes eventos de agosto conseguirem ir além dos keynotes e ouvirem quem está tokenizando desde a base — comida, cultura, floresta — o Brasil poderia assumir um lugar de vanguarda global em Web3 com impacto real.

 

Porque no fim das contas, blockchain não é apenas sobre o que está no código. É sobre o poder que ela tem de transformação.

 

Guta Nascimento é jornalista especializada em tecnologias emergentes e trabalha com onboarding por meio de palestras, lives, aulas, talks e painéis. Para saber mais, leia Web3 Para Todos.