Relatório da PwC aponta integração de ativos digitais ao sistema financeiro e expõe disputas por infraestrutura global
Estudo aponta blockchain como back-end invisível do dinheiro, forçando co-opetição entre bancos e consolidando o dólar como rede de reserva tecnológica global
Um relatório de 108 páginas da PwC sobre a regulação global de criptoativos indica que o setor entrou em uma fase de integração com a infraestrutura do sistema financeiro tradicional, ao mesmo tempo em que revela uma dinâmica crescente de competição entre instituições pela camada de serviços ao cliente.
Segundo o documento, mais de 99 jurisdições já estabeleceram marcos legais para ativos digitais. Ainda assim, a implementação permanece desigual. Em relação à chamada Travel Rule, recomendação internacional que exige o compartilhamento de dados entre instituições em transferências, mais de 70% das jurisdições apresentam níveis parciais de conformidade. O relatório destaca que essa lacuna entre legislação e fiscalização cria espaço para arbitragem regulatória.
O estudo também aponta que mais de 95% do valor das stablecoins em circulação está denominado em dólar, o que, na avaliação da PwC, reforça o papel da moeda americana no ambiente digital. A predominância sugere que a influência do dólar se estende para além dos canais tradicionais, acompanhando a expansão das infraestruturas baseadas em blockchain.
Nos Estados Unidos, iniciativas envolvendo acesso direto à infraestrutura do Federal Reserve, como as chamadas “skinny master accounts”, são mencionadas como parte de discussões sobre novos modelos operacionais. O relatório não indica implementação ampla, mas sugere que mudanças nesse sentido poderiam alterar a dinâmica de intermediação bancária, reduzindo a dependência de instituições tradicionais em determinadas operações.
No Japão, o documento registra ajustes regulatórios que permitem que até 50% das reservas de stablecoins sejam alocadas em títulos públicos. A medida é descrita como um movimento para aumentar a eficiência econômica desses instrumentos, ampliando sua competitividade no mercado internacional.
No Brasil, o relatório cita as Resoluções nº 519 e 520 do Banco Central, com vigência a partir de 2 de fevereiro de 2026, como parte do processo de organização do mercado. As normas estabelecem exigências relacionadas à governança, capital e gestão de riscos para prestadores de serviços de ativos virtuais, alinhando o país a práticas internacionais de supervisão.
Além dos avanços regulatórios, o documento descreve um ambiente de transformação estrutural. Instituições financeiras como JPMorgan Chase e Citigroup são citadas como exemplos de atores que já operam ou testam soluções baseadas em tecnologia de registro distribuído, indicando uma aproximação entre o setor bancário tradicional e a infraestrutura digital.
Embora o relatório enfatize a convergência entre os dois universos, a leitura dos dados também aponta para um cenário de competição na camada de serviços. A padronização regulatória e o compartilhamento de infraestrutura tendem a reduzir barreiras técnicas, deslocando a disputa para a experiência do usuário, distribuição e escala.
Nesse contexto, o avanço regulatório não elimina a fragmentação global. O estudo apresenta diferenças relevantes entre jurisdições quanto à velocidade de implementação, escopo das normas e integração com sistemas financeiros existentes. Essas variações sugerem a formação de zonas com distintos níveis de adoção e influência no ecossistema digital.
A consolidação de regras, combinada à entrada de grandes instituições, indica que os ativos digitais estão sendo incorporados ao funcionamento do sistema financeiro. Ao mesmo tempo, os dados reunidos pela PwC mostram que essa integração ocorre em paralelo a uma reorganização competitiva, na qual a cooperação na infraestrutura convive com a disputa por espaço na relação com o cliente final.