Brecha de segurança na ColdCard causa prejuízo de 1.816 BTC e testa limites da autocustódia
Vulnerabilidade da carteira ColdCard induziu a geração de seeds a partir de dados previsíveis, permitindo que invasores reconstruíssem chaves privadas sem acesso físico ou digital aos dispositivos.
Web3News
- Uma quarta onda de ataques no domingo elevou o total drenado a 1.816 BTC, aproximadamente US$ 114 milhões, de mais de 5.200 endereços, segundo a Galaxy Research.
- Em apenas 41 minutos, o primeiro ataque atingiu 1.196 endereços, causando prejuízos estimados em US$ 70,2 milhões.
A vulnerabilidade que já drenou 1.816 BTC em poucos dias de carteiras ColdCard abala um dos princípios fundamentais do bitcoin e das criptomoedas: a autocustódia. Entre 29 de julho e 3 de agosto de 2026, uma falha no firmware de carteiras fabricadas pela fabricante canadense Coinkite permitiu que invasores reconstruíssem, sem qualquer acesso físico ou digital aos dispositivos, as frases de recuperação ("seeds") de milhares de carteiras de Bitcoin. Inclusive carteiras de usuários que seguiram à risca os procedimentos de segurança de autocustódia.
Até esta segunda-feira (3), o total drenado soma 1.816 BTC oriundos de pelo menos 5.200 endereços. A Galaxy Research estima o prejuízo em US$ 114 milhões, mas o montante ainda pode crescer: a quarta onda, identificada no domingo pelo chefe de pesquisa da empresa, Alex Thorn, segue em andamento.
Ao contrário das três primeiras, a quarta onda usou o recurso Replace-by-Fee (RBF) do Bitcoin: o invasor substituiu a taxa da transação por uma mais alta enquanto o pagamento ainda estava pendente na mempool, concedendo às vítimas uma chance rara de tentar reaver os fundos antes da confirmação das transferências.
A terceira onda ocorrera em 1º de agosto e sozinha respondeu pela drenagem de 207,73 BTC de 1.912 endereços, elevando o acumulado a 1.367,05 BTC de 4.585 endereços. Por dois dias, estes números foram tratados como o "balanço final do incidente", então avaliado em cerca de US$ 88,6 milhões. Nessa fase, os invasores passaram a redirecionar cada carteira drenada para um endereço de destino próprio e diferente, em vez de consolidar tudo num único endereço, dificultando o rastreamento em bloco que havia marcado os ataques anteriores.
Um dia antes, em 31 de julho, uma segunda onda somou 76,16 BTC de 1.478 endereços, em um padrão de transação praticamente idêntico ao da primeira — o que levou a Galaxy Research a suspeitar que os dois ataques partiram de um mesmo operador, ainda que os dados on-chain não apresentem provas definitivas para a identificação da autoria.
O incidente — tratado como o "11 de setembro do Bitcoin" pela Paradigma Education — teve início na madrugada de 30 de julho. Entre 1h30 e 2h10 (UTC), 1.082,65 BTC — avaliados em US$ 70,2 milhões — foram varridos de 1.196 endereços. Muitos deles parados havia anos, segundo o mapeamento da Galaxy Research.
A análise do caso revelou que a vulnerabilidade em si é bem mais antiga. Uma atualização do firmware da ColdCard de março de 2021 fez com que os usuários da carteira passassem a gerar seeds matematicamente mais fracas do que o anunciado. A falha ficou latente por cinco anos até ser explorada em massa nos últimos dias.
Em resposta, a Coinkite suspendeu os envios de novos dispositivos e destruiu todas as unidades com firmware afetado que ainda estavam em seus estoques. "Interrompemos os envios da ColdCard assim que confirmamos a vulnerabilidade. Todas as unidades restantes em nossas instalações com o firmware afetado foram destruídas", informou a fabricante no X, acrescentando que clientes com pedidos já despachados foram contatados individualmente por e-mail.
"Fiz tudo certo": o caso Jonathan Goodman
Entre os milhares de endereços afetados, o caso do empresário canadense Jonathan Goodman se tornou emblemático por revelar a falha da autocustódia e a perda de fundos, apesar de medidas de segurança tidas como exemplares.
Goodman mantinha 18,25 BTC, avaliados em cerca de US$ 1,6 milhão, divididos em carteiras protegidas por uma ColdCard Mk3 guardada em um cofre bancário, com passphrase forte e sem qualquer conexão prévia com a internet. Entre 21h36 e 21h43 (UTC) de 29 de julho, todos os seus endereços foram esvaziados em uma sequência automática de transações — um intervalo de sete minutos que, segundo ele, só foi percebido horas depois, ao checar o saldo e encontrar uma sequência de transações de saída.
Goodman relatou o episódio em uma publicação no X:
"US$ 1,6 milhão em Bitcoin foram drenados da minha conta em 29 de julho, no hack da carteira Cold Card. Meu Bitcoin estava em armazenamento frio. Minhas chaves estavam em um dispositivo ColdCard guardado em um cofre bancário que nunca havia sido conectado à internet."
Na sequência, Goodman detalhou que hackers haviam descoberto uma vulnerabilidade na rotina de geração de seeds da carteira, e que teriam usado inteligência artificial (IA) para descobrir seeds vulneráveis. No entanto, nem a Coinkite nem os pesquisadores da Galaxy Research ou da Block confirmaram publicamente, até o fechamento desta matéria, que IA tenha sido de fato utilizada na descoberta ou exploração do bug.
Goodman registrou boletim de ocorrência junto à polícia e notificou a Comissão de Valores Mobiliários de Ontário (OSC), mas admite que a chance de recuperar os fundos é praticamente nula. Em suas publicações, ele resumiu o desconforto que passou a circular entre autocustodiantes experientes: a parte mais dura do episódio não foi perder o bitcoin, mas descobrir que seguir os mais altos padrões de segurança em autocustódia não foi suficiente.
Entenda como a vulnerabilidade foi exploradaToda nova carteira de criptoativos precisa gerar uma seed de 12 ou 24 palavras a partir de um processo que deveria ser impossível de prever — equivalente a girar a roleta de um cofre com uma combinação verdadeiramente aleatória. Um erro de código, porém, fez com que determinados modelos da ColdCard gerassem seeds usando informações que já estavam, em parte, ao alcance de quem soubesse onde procurar.
A origem técnica remonta a um commit de firmware de março de 2021 que deveria checar se o gerador de números aleatórios por hardware do chip STM32 estava ativo — e, em vez disso, checava apenas se um parâmetro de configuração existia. Como esse parâmetro estava definido como zero na configuração de produção da ColdCard, o dispositivo caía silenciosamente em um gerador de números pseudoaleatórios de software, a biblioteca Yasmarang do MicroPython — inicializada a partir do número de série (UID) do chip e do estado do relógio interno, sem adicionar entropia extra depois disso, segundo a análise técnica publicada pela equipe de engenharia da Block.
Na prática, isso reduziu a entropia efetiva das seeds de 128 bits (o padrão para uma frase BIP-39 de 12 palavras) para cerca de 40 bits nos modelos Mk3 e cerca de 72 bits nos Mk4, Mk5 e Q, segundo estimativa da própria Coinkite (Coinkite). 128 bits de entropia geram um universo de combinações praticamente impossível de esgotar por força bruta; 40 bits equivalem a pouco mais de 1 trilhão de possibilidades — um espaço de busca que hoje cabe dentro do orçamento computacional de clusters de GPU alugados na nuvem.
O mais relevante do ponto de vista de segurança: o ataque não exige acesso físico nem digital ao dispositivo da vítima. Como o número de série e o comportamento do relógio de cada chip formam um conjunto restrito e, em boa parte, replicável por engenharia reversa do próprio firmware vulnerável, um invasor pode reconstruir offline, em um computador comum, o universo de seeds que aquele firmware poderia ter gerado. A partir daí, basta derivar os endereços de bitcoin correspondentes a cada seed e cruzá-los com o histórico público da blockchain. Quando um desses endereços aparece com saldo, o invasor já tem uma chave privada válida em mãos, sem jamais ter tocado a carteira da vítima.
Esse padrão de "varredura e confirmação" explica por que endereços inativos havia anos foram esvaziados de uma hora para outra, sem qualquer ação do proprietário. A Galaxy Research constatou que os fundos drenados estavam parados, em média, havia 3,18 anos antes do ataque, um indício de que a maioria das vítimas era formada por holders de longo prazo, e não por usuários que movimentam ativamente suas carteiras.
Atualizar o firmware, importante frisar, não corrige seeds já geradas: como a fragilidade está na forma como a chave foi gerada, e não em uma falha ativa no software atual, qualquer carteira criada em uma ColdCard vulnerável permanece exposta até que o usuário gere uma seed inteiramente nova em firmware corrigido e migre os fundos — reimportar a seed antiga em um dispositivo atualizado carrega a mesma fragilidade adiante, segundo orientação da própria Coinkite.
Autocustódia em xequeO episódio provocou uma das reações mais intensas da comunidade do bitcoin em anos — e reacendeu, com força, o debate entre autocustódia e custódia institucional que rondava o mercado mesmo antes do hack, em meio à ascensão dos ETFs de bitcoin entre os investidores. "Este é o pior golpe da história do Bitcoin contra os bitcoiners mais experientes e 'devidamente protegidos'", escreveu o analista Guy Swann:
"Isto não é uma corretora sendo hackeada por causa de chaves quentes. São milhares de indivíduos tendo suas chaves privadas pessoais descobertas sob seus narizes."
Cético em relação à autocustódia, Lorenzo Valente, diretor de pesquisa em ativos digitais da ARK Invest, foi taxativo em uma publicação no X:
"O mercado de carteiras de autocustódia é, neste momento, um desastre, e alimenta a reputação negativa do setor mais do que qualquer outra coisa. Na prática, o consumidor trocou o risco de contraparte por risco de software, risco de hardware, risco de cadeia de suprimentos, risco de phishing, risco de backup, e a possibilidade de perder tudo por um único erro. Francamente, hoje você está mais seguro mantendo fundos distribuídos entre várias corretoras listadas em bolsa ou ETFs."
Na mesma linha, David Lawrence, cofundador da Amicus, avaliou que o episódio deve empurrar novos investidores para produtos regulados, como o ETF IBIT, da BlackRock, em vez da autocustódia direta.
"Isso é um grande golpe para quem acredita que 8 bilhões de pessoas vão guardar seu próprio Bitcoin em autocustódia no futuro. Esse sonho acabou. Terminou."
Em oposição, Nick Neuman, CEO da empresa de segurança Casa, rebateu a tese de que "a autocustódia acabou": segundo ele, a natureza distribuída do problema — cada carteira comprometida isoladamente, sem um ponto único de falha central — deu tempo de reação aos usuários, e o volume de bitcoin protegido por autocustódia é hoje muito maior do que o volume roubado no ataque.
Alex Thorn, da Galaxy Research — cuja equipe assumiu o papel de principal rastreadora on-chain do caso — resumiu o dilema em termos que vêm sendo repetidos pela comunidade:
"Isto é um golpe para a autocustódia do Bitcoin, e precisamos fazer melhor como comunidade: em segurança, em educação, e sendo realistas sobre a complexidade, as expectativas e as recomendações que fazemos a amigos, familiares e ao público em geral."
O efeito direto no preço do bitcoin tem se mostrado limitado, apesar do abalo provocado na comunidade. O preço do BTC atingiu mínimas de US$ 62.500 nos dias seguintes ao início do ataque, mas os analistas não atribuem a queda isoladamente ao hack. Fatores macroeconômicos, como a instabilidade no Oriente Médio e as taxas de juros nos EUA, têm mantido o bitcoin preso a uma faixa limitada de preço entre US$ 62.000 e US$ 66.500 nos últimos 30 dias.
O hack da ColdCard ocorre em um momento em que duas tendências tecnológicas já vinham desafiando a tese da autocustódia como opção preferencial de armazenamento de criptoativos: o barateamento do poder computacional proporcionado pela IA, e o avanço da computação quântica.
Embora ainda não haja confirmação do uso de IA no caso da ColdCard, especialistas em cibersegurança apontam que o acesso facilitado a clusters de GPU via nuvem e a modelos de fronteira reduziu drasticamente o custo de testar bilhões de combinações de seed em poucas horas. Antes da popularização da IA, isso exigiria infraestrutura indisponível a hackers individuais.
O desenvolvedor Udi Wertheimer ilustrou a mudança de paradigma da seguinte forma no X:
"A ideia de que seu Bitcoin descansa tranquilo em algum local secreto enquanto você aproveita a vida sem se preocupar é, hoje, irreal (...) se você não quer se preocupar, precisa pagar alguém para se preocupar por você."
No que diz respeito à computação quântica, um relatório do Citi classificou o Bitcoin como mais vulnerável a um eventual ataque quântico do que redes como a Ethereum. Um estudo divulgado pelo Google em abril de 2026 reduziu a estimativa de qubits necessários para quebrar a criptografia de curva elíptica do Bitcoin para menos de 500 mil — bem abaixo das projeções de milhões de qubits que dominavam o debate até pouco tempo atrás.
Hoje, cerca de 6,9 milhões de BTC, incluindo parte das moedas atribuídas a Satoshi Nakamoto, já estão expostos a esse risco futuro por terem a chave pública visível on-chain, um pré-requisito técnico para o tipo de ataque que a computação quântica poderá viabilizar em um futuro não muito distante.
O Bitcoin, como protocolo, a criptografia de curva elíptica por trás de suas chaves e o algoritmo de consenso que valida cada bloco seguem matematicamente intactos. A rede não foi quebrada. O ataque à ColdCard demonstra que, por enquanto, não é o protocolo que está sob ataque. São os vetores de risco introduzidos por ação humana, como códigos imperfeitos, falhas de auditoria e a velocidade com que novas tecnologias reduzem o custo de explorar cada uma delas.