Guajajara critica modelo de inovação baseado na exploração de recursos naturais

No Web Summit, ministra diz que expansão da IA mantém pressão sobre recursos naturais e cobra revisão do modelo de desenvolvimento tecnológico

Por

Sonia Guajajara e Felipe Villela participam de painel sobre biodiversidade e inovação no Web Summit Rio 2026_Crédito_Luiz Lamim

A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, afirmou nesta quinta-feira (11), no Web Summit Rio 2026, que o avanço da tecnologia, especialmente da inteligência artificial, precisa incorporar o conhecimento ancestral e respeitar limites ambientais para evitar impactos irreversíveis. A declaração foi feita antes de painel sobre biodiversidade e negócios no principal palco do evento.

Segundo a ministra, a presença do tema em um dos maiores encontros globais de tecnologia indica uma mudança na forma de discutir inovação.

“Considero de uma relevância extrema um evento sobre tecnologia trazer esse debate do conhecimento tradicional, da sabedoria dos povos indígenas, como uma forma também de apontar o futuro, com esse farol que realmente reorienta o caminho que nós devemos seguir”, afirmou.

Guajajara dividiu a agenda com Felipe Villela, diretor para a América Latina do The Earthshot Prize, e com o cientista Carlos Nobre, referência internacional em estudos sobre clima e sistemas da Terra.

Durante coletiva de imprensa, a ministra afirmou que o debate sobre tecnologia precisa avançar para além do entusiasmo com a inteligência artificial e considerar seus efeitos sobre o meio ambiente e a sociedade.

“Nunca se falou sobre tecnologia e ancestralidade. A transformação da humanidade passa pela relação com a natureza, pelo cuidado com a Mãe Terra. Por mais que estejamos em um tempo de inteligência artificial como um farol para o futuro para muita gente, é preciso também pensar os impactos que a inteligência artificial causa nas nossas vidas, no meio ambiente e principalmente na mente das pessoas”, destacou.

Na avaliação dela, o modelo de desenvolvimento que sustenta parte da economia digital ainda está baseado na exploração intensiva de recursos naturais, o que exige revisão.

“É importante esse equilíbrio nos dias de hoje para pensar o que realmente simboliza o futuro que a gente quer. Se é somente pensar tecnologias sempre buscando esse funcionamento a partir da exploração do meio ambiente e das riquezas naturais, ou se vamos pensar no que realmente interessa para garantir o futuro”, disse.

Guajajara afirmou que não é possível pensar em desenvolvimento de longo prazo sem garantir a proteção dos ecossistemas.

“Sem água não é possível o futuro. Sem terra protegida e floresta em pé não é possível o futuro”, afirmou.

A ministra também comentou a expectativa para o painel e disse que a discussão deve alcançar públicos além do setor de tecnologia.

“Quero muito que esse debate possa reorientar e provocar reflexões nas pessoas que são da tecnologia, mas também naquelas que não são da tecnologia”, declarou.

O painel reúne três vozes de referência em biodiversidade, sustentabilidade e inovação em um momento em que o debate sobre inteligência artificial, infraestrutura digital e transição climática ocupa espaço central na agenda global. A proposta da discussão é mostrar que a crise da biodiversidade deixou de ser apenas uma questão ambiental para se tornar também um desafio econômico, social e empresarial.

Ao levar a perspectiva dos povos indígenas para um dos principais palcos da tecnologia mundial, o Web Summit Rio reforça uma das mensagens que vêm marcando esta edição do evento: o futuro da inovação dependerá não apenas da capacidade de desenvolver novas tecnologias, mas também de encontrar formas sustentáveis de coexistência entre progresso econômico e preservação da vida no planeta.