Tokenização não vai substituir o mercado tradicional, afirma CVM

Executivos de Coinbase, Binance e Nomad concordam com CVM no Blockchain.RIO: ganho real da tokenização está na liquidação 24/7 e no acesso a ativos globais.

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  • O painel "Mercado de Capitais Reloaded: Tokenização e acesso global a investimentos" ocorreu no primeiro dia do Blockchain.RIO 2026.
  • Representantes de Coinbase, Binance, Nomad e CVM debateram lado a lado onde a tecnologia já entrega valor concreto — e onde ela esbarra em compliance, regulação e hábitos do investidor brasileiro.

 A tokenização de ativos financeiros não deve substituir o mercado de capitais tradicional — pelo menos não em um horizonte próximo. A avaliação é de Egmon Henrique de Oliveira Costa, superintendente de Relações com o Mercado e Intermediários (SMI) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), durante o painel "Mercado de Capitais Reloaded: Tokenização e acesso global a investimentos", no Blockchain.RIO 2026, no Rio de Janeiro.

"Nesse primeiro momento, vamos ter a convivência das duas coisas: mercados tradicionais de capital e o tokenizado. O potencial da tecnologia está sendo testado", disse Costa.

Para o superintendente, o obstáculo à adoção em massa não é tecnológico,  estrutural. No mercado tradicional cada instituição financeira opera dentro de parâmetros próprios. O "custo da inérica" cria barreiras para que, no futuro, todo mundo use o mesmo sistema.

"Vamos ter tanto o ativo tradicional como o ativo tokenizado", afirmou. A tokenização total do mercado ainda é um cenário distante, que talvez não venha sequer a se materializar.

É sob esse princípio de coexistência que o Grupo de Trabalho (GT) da CVM trabalha. O papel do órgão regulador, segundo Costa, é repensar a responsabilidade dos participantes do mercado diante da nova tecnologia e criar um ambiente para testes e riscos controlados — já que mudar toda a regulação de uma vez implicaria mais risco para todas as entidades do mercado, incluindo os investidores.

Lucas Anselmo, CPO da Nomad, endossa a leitura da CVM: "De fato, a tokenização não vai resolver problemas que já existem", disse. Para ele, a tecnologia não resolve, por exemplo, o risco de investidores brasileiros não entenderem os riscos de liquidez do mercado de crédito privado — em um primeiro momento, avalia, isso pode até piorar com a popularização da tokenização.

O que a tokenização já resolve

Para Lourenço Brasil, consultor jurídico associado para a América Latina da Coinbase, a tecnologia já entrega valor concreto em uma etapa específica do mercado de capitais. Segundo ele, emissão, liquidação e negociação são as três frentes possíveis de tokenização, mas é na liquidação — com liquidação atômica e operação 24 horas por dia, sete dias por semana — que a tecnologia mostra maior potencial. Na negociação, a tendência é de convergência, visando unificar a experiência do cliente.

Segundo ele, a tokenização vai permitir permitir, com segurança, que investidores locais acessem produtos já disponíveis globalmente — e que ativos brasileiros consigam competir e ganhar o mundo. Isso não acontece no âmbito do mercado tradicional.

A distribuição, ou seja, para onde esses ativos tokenizados efetivamente vão chegar, é, na avaliação dele, "a grande questão" ainda em aberto, e a discussão sobre o tema precisa ficar mais específica.

Thiago Sarandy, diretor-geral da Binance no Brasil, aponta na mesma direção pelo lado da renda variável e da renda fixa: tokenizar ações brasileiras para o mercado global seria benéfico, assim como levar títulos de renda fixa e o próprio real a investidores fora do país — incluindo acesso global ao Tesouro brasileiro.

Para ele, o principal da tokenização é a possibilidade de manter o mercado permanentemente aberto: "O 24/7 é a possibilidade de você decidir o que você quer fazer. Ele é necessário para o mercado de investimentos", afirmou, ao apontar que o mercado tradicional não se atualizou na velocidade de comunicação das outras tecnologias.

Já para Anselmo, o benefício mais concreto da tokenização para a Nomad não está no acesso a produtos de investimento globais — que a fintech, atuando como corretora, já oferecia por meios convencionais —, mas no chamado dinheiro programável: a possibilidade de o próprio ativo carregar informações desde a emissão:

"Isso é um benefício. O próprio ativo carrega as informações sobre ele. Vai nascer na emissão."

Costa acrescenta um argumento de educação financeira: tickets de investimento mais baixos e uma experiência mais gamificada — na linha do que já popularizou as apostas esportivas no país — facilitariam o entendimento de produtos que hoje soam distantes, como uma debênture. Segundo ele, jovens já chegam ao mercado financeiro pelo contato prévio com cripto em jogos, o que antecipa uma familiaridade que o mercado tradicional não consegue gerar sozinho.

O que a tokenização ainda não resolve

Para Anselmo, o maior gargalo está fora da camada financeira: é o compliance. Mundo tradicional e mundo cripto, segundo ele, já resolveram bem suas próprias formas de compliance — mas os dois ainda não conversam entre si. As equipes de prevenção à lavagem de dinheiro da Nomad, por exemplo, ainda não confiam em DLTs (tecnologias de registro distribuído, na sigla em inglês). A rastreabilidade de transações típica da Web3, hoje impossível no mundo tradicional, segue incompatível com os processos internos de compliance já estabelecidos — um desafio de interoperabilidade que, segundo ele, vai além da camada financeira.

Na prática, os limites aparecem também na oferta: Sarandy afirmou que a Binance não vai oferecer ações a investidores brasileiros por meio de tokenização, e sim pelos meios tradicionais de corretagem.

Segundo o executivo, o investidor brasileiro valoriza a facilidade de acesso e a liquidez imediata. Por isso,a caderneta de poupança segue como o investimento preferencial da população:

"Porque é fácil, simples, ele pode sacar a qualquer momento e paga 5%", disse Sarandy, "mas o que ele não sabe é que a poupança perde para inflação."


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