A Ethereum (ETH) e a Solana (SOL), duas das principais redes de contratos inteligentes para stablecoins e ativos do mundo real, avaliam mudanças na política monetária de seus tokens nativos que reduziriam a inflação anual a níveis inferiores ao do ouro, segundo relatório da gestora de atigos digitais Grayscale. Zach Pandl, chefe de pesquisa da empresa que assina a análise, afirma que ambos os tokens funcionam como commodities digitais, precificadas por oferta e demanda, e um menor crescimento de oferta tende a ter um efeito positivo sobre o valor de mercado do ETH e do SOL:
Se as mudanças forem implementadas, os detentores de tokens que realizarem staking receberão menos tokens, uma vez que as recompensas de staking são pagas por meio da emissão de novos tokens. No entanto, com menos tokens em circulação, o valor decorrente da escassez poderá aumentar, exercendo pressão de alta sobre os preços.
No relatório "Ethereum and Solana Tokenomics Under Review" (Tokenomics de Ethereum e Solana sobre Revisão, em tradução livre), a Grayscale estima que, caso as mudanças propostas sejam implementadas, a inflação anual do ether se igualaria a do Bitcoin em cerca de 0,4% ao ano até o fim de 2031, enquanto a do SOL cairia paraa cerca de 1,1% ao ano no mesmo período. Os números são inferiores ao índice de preços ao consumidor (CPI) dos Estados Unidos, que ficou em 3,3% em julho, e à inflação atual do ouro, que é de 1,8% ao ano, segundo dados do relatório.
As projeções assumem que as propostas em discussão nas comunidades da Ethereum e Solana terão efeito imediato uma vez aprovadas e que a atividade em ambas as redes se mantenha nos níveis atuais e a proporção do suprimento de ETH em staking seja de 1/3 do suprimento circulante.
Na Solana, há duas propostas em debate visando a redução da emissão do SOL. A SIMD-0550, intitulada "Double Disinflation", propõe dobrar a taxa de desinflação anual da rede, de 15% para 30% — o que anteciparia o alcance da inflação terminal de 1,5% ao ano de 2032 para 2029 e cortaria cerca de 18,9 milhões de SOL da emissão prevista para os próximos seis anos.
Já a SIMD-0553 ("Base Inclusion and Resource-based Fee") defende o redimensionamento do modelo de taxas de transação: divide a taxa fixa atual por assinatura em uma taxa de inclusão fixa, paga aos validadores, e uma taxa de recurso dinâmica que seria 100% queimada. Se implementada, a proposta elevaria a queima diária de cerca de 650 SOL para uma faixa entre 7.500 e 9.000 SOL no estágio terminal do mecanismo.
As duas propostas foram reunidas na SGP-0003, sob o framework oficial de governança da Solana Foundation, que exige no mínimo 15% dos tokens em staking ativo na rede para abrir uma votação formal, com aprovação condicionada a dois terços dos votos "a favor" sobre o total de votos "a favor" e "contra". Segundo o Solana Compass, esse limiar foi cruzado em 5 de agosto, com a Helius liderando o apoio formal (cerca de 16 milhões de SOL) e mais de 70 validadores sinalizando apoio desde então.
Se aprovada, a SIMD-0550 reduziria o rendimento de staking de cerca de 5,84% para 4,34% no primeiro ano. A proposta parte do mesmo princípio de reequilibrar a política monetária do protocolo com menor recompensa nominal e maior escassez que está no centro do debate paralelo no Ethereum.
Pandl aponta que a emissão líquida de ETH está em alta nos últimos anos. Embora todas as taxas de transação na camada base da rede sejam queimadas, a migração de atividade para soluções de camada 2 (L2) reduziu o custo das transações na Ethereum e, com elas, o volume de ETH queimado. Como as futuras atualizações da rede tem priorizado o aumento da escalabilidade da rede para competir com blockchains de alta performance como a Solana, Pandl projeta que as taxas permaneçam relativamente baixas, contribuindo para o aumento do suprimento circulante do ETH.
A gestora aponta também que o custo marginal de colocar ETH em staking está perto de zero: os saques já foram liberados, o que reduziu o prêmio de risco da imobilização, e produtos como ETPs e tesourarias de ativos digitais (DATs) mantêm grandes quantidades de ETH em staking. Se os incentivos marginais continuarem, quase todo o ETH em circulação poderia, eventualmente, ser travado em staking sem benefício concreto para a rede ou para os detentores de ETH, afirma Pandl:
O staking é necessário para o funcionamento do protocolo Ethereum, mas níveis muito elevados de staking podem ser contraproducentes. Em primeiro lugar, isso gera uma diluição desnecessária. Ou seja, aumenta a emissão líquida [do token] sem elevar significativamente a segurança da rede — tal como uma nação que gasta excessivamente em defesa sem trazer grandes benefícios à segurança nacional. Em segundo lugar, níveis elevados de staking podem introduzir riscos de cauda adversos caso um pequeno número de instituições passe a dominar a atividade de staking (uma possibilidade decorrente dos efeitos de rede dos provedores de serviços). Uma solução poderia ser a transição para um modelo de recompensa que incentive o staking apenas até determinado ponto.
Como o WB3News reportou em agosto, a comunidade da Ethereum já discute uma proposta nesse sentido: a EIP-8361, batizada de "Tapered Issuance Burn" e assinada por seis pesquisadores, entre eles Justin Drake, da Ethereum Foundation. A proposta propõe a redução dos rendimentos dos validadores de cerca de 2,6% para 1,2% à medida que o volume em staking se aproxima de 60,25 milhões de ETH. Nesse ponto, a emissão seria zerada.
Atualmente, cerca de 41 milhões de ETH, ou 34% do suprimento circulante, já estão em staking, com outros 2,5 milhões na fila de entrada.
A proposta dividiu a comunidade. Stani Kulechov, fundador do protocolo de empréstimos Aave, calculou que, com 39 milhões de ETH em staking, a renda total do validador, incluindo recompensas mais MEV, cairia de 2,862% para 1,476%, uma queda de 48%. Ainda segundo Kulechov, o ganho líquido anual de um validador solo de ETH (considerando ETH a US$ 1.900, custo operacional de US$ 500 e impostos de 30%) passaria de US$ 718 para US$ 125. Já Mike Silagadze, fundador da EtherFi, argumenta que a mudança expulsaria stakers individuais do mercado, concentrando a atividade em grandes entidades centralizadas.
Pandl já havia defendido, em publicação anterior, que limitar os incentivos ao staking seria "positivo para o preço do Ether no longo prazo". No relatório mais recente, ele argumenta que a taxa atual de recompensa de staking do ETH (cerca de 3%) equivale a aproximadamente um dia de volatilidade do preço do ativo. Para o analista, o preço do ETH pesa mais no retorno do investidor do que as recompensas de staking em si.
De acordo com o relatório, a redução da inflação tende a favorecer quem não faz staking: com menos tokens novos em circulação, a escassez do ETH e do SOL tende a aumentar, pressionando os preços para cima. Já para quem faz staking, o resultado depende do equilíbrio entre a queda na recompensa em tokens e uma eventual alta de preço.
A EIP-8361 não foi aprovada nem incluída na atualização Hegotá até o momento; o processo de seleção de propostas pode se estender até 8 de novembro, com a atualização prevista possivelmente para o segundo trimestre de 2027.
LEIA TAMBÉM