Stablecoins locais avançam sobre o dólar na América Latina com LATAM Ramp, da Pods
Recém lançado, o Pods LATAM Ramp conecta real, peso mexicano, peso argentino e peso colombiano às finanças on-chain, com rendimento automático.
- US$ 415 bilhões em stablecoins já circulam na América Latina — US$ 287 bilhões só no Brasil.
- Há uma separação cada vez mais clara entre os casos de uso do dólar e das moedas locais no ecossistema financeiro da região, segundo a Pods.
O protocolo DeFi brasileiro Pods lançou o LATAM Ramp, conectando Brasil, México, Argentina e Colômbia a rampas de entrada e saída em moeda local com rendimento automatizado via stablecoins locais. O lançamento mira um mercado em expansão, no qual as moedas locais vêm atender a demandas e casos de uso que não necessariamente passam pelo dólar.
Segundo dados da Pods, a América Latina já movimenta US$ 415 bilhões em stablecoins — US$ 287 bilhões só no Brasil, US$ 56 bilhões na Argentina, US$ 44 bilhões na Colômbia e US$ 28 bilhões no México.
Embora as stablecoins atreladas ao dólar ainda sejam dominantes na região, a tendência é que cada vez mais elas deixem de ser passagem obrigatória para quem movimenta moedas locais, afirmou Robson Silva, cofundador da Pods, em depoimento exclusivo ao WB3News:
Dólar e moedas locais têm casos de uso difererentes"USDT e USDC continuam extremamente relevantes como infraestrutura global de liquidez e dólar on-chain. Mas nem todo caso de uso financeiro na América Latina precisa passar pelo dólar. Se uma empresa recebe, paga, investe ou mantém sua operação em reais, pesos mexicanos, argentinos ou colombianos, converter primeiro para dólar pode adicionar câmbio, custo e complexidade desnecessários."
Entre 15% e 20% da população em idade ativa da Argentina usou stablecoins no último ano, movimentando mais de US$ 1,5 bilhão por mês via P2P, segundo o "Stablecoin Insider". O Brasil giraria cerca de US$ 20 bilhões ao ano em stablecoins, ocupando a sétima posição global em adoção cripto. Em ambos os países, USDT e USDC ainda dominam como proteção contra inflação — mas stablecoins de moeda local, como a BRLA no Brasil, já se tornam alternativas comuns especificamente para transações domésticas.
A diferença de custo é um dos fatores que incentiva essa migração: pagamentos transfronteiriços por trilhos tradicionais custam entre 2% e 7% do valor da transação, com liquidação em 2 a 5 dias, contra menos de 1% em taxas no corredor Estados Unidos–México via stablecoin, segundo dados da Polygon. Só a corretora Bitso processou US$ 6,5 bilhões em remessas cripto entre os dois países em 2024.
Por enquanto, os casos de uso de stablecoins locais atendem majoritariamente ao mercado B2B, admite Silva. No entanto, o cofundador da Pods nota que uma demanda "invisível" por parte dos usuários do varejo que valida a tese de adoção de stablecoins atreladas ao real e outras moedas locais:
"Ramp-to-yield" é parte da evolução do mercado local"O usuário final não necessariamente quer 'comprar uma stablecoin local'; ele quer pagar, investir ou transferir dinheiro na moeda que já utiliza."
O LATAM Ramp é o novo produto da Pods que conecta os trilhos de pagamento locais — Pix no Brasil, transferência bancária e Mercado Pago na Argentina, CLABE/SPEI no México, PSE e BRE-B na Colômbia — a ativos on-chain, permitindo que uma fintech ou neobanco ofereça entrada e saída entre moeda fiduciária e stablecoins através de uma única integração.
Dentro desse fluxo, o mecanismo intitulado "ramp-to-yield" faz com que o saldo do usuário comece a render automaticamente assim que o depósito é convertido, sem uma etapa intermediária entre o recebimento dos fundos e a aplicação.
O foco, segundo Silva, está na adequação do produto às necessidades do mercado local e não à competição direta com stablecoins de dólar:
"Nós enxergamos o ramp-to-yield menos como uma competição com USDT ou USDC e mais como uma evolução da própria infraestrutura de ramps."
Hoje, diz Silva, uma rampa comum já resolve bem a conversão de moeda fiduciária em stablecoins e vice-versa — Pix para USDC, por exemplo. A Pods cria uma camada adicional, permitindo o destravamento de fluxos como Pix para yield, Pix para ações tokenizadas ou Pix para ativos do mundo real (RWA), sem que o usuário precise executar cada etapa on-chain separadamente. "Nós conectamos o trilho de entrada e saída a uma camada de execução e produtos financeiros", resume o cofundador da Pods.
Os rendimentos atrelados a cada uma das quatro moedas do produto variam de acordo com a infraestrutura subjacente, explica:
"A Pods funciona como uma camada de infraestrutura e abstração. Por baixo dos panos, integramos parceiros especializados em cada mercado e produto, como Etherfuse, Ripio e Avenia, entre outros. Isso permite que a experiência para quem está integrando a Pods seja padronizada, mesmo que a origem do produto financeiro seja diferente em cada país. Em alguns mercados, por exemplo, o yield pode estar ligado a instrumentos de renda fixa e dívida soberana local tokenizada; em outros, a estrutura e os parceiros podem ser diferentes."
A liquidação ocorre em nove blockchains, incluindo Base, Polygon, Solana e Monad. A Pods promete cotação travada, sem variação entre o momento da cotação e a liquidação. A empresa cobra dos provedores locais com quem negocia câmbio no atacado, não das empresas que integram a API. A receita vem do spread de conversão.
O público-alvo do novo produto são neobancos focados na América Latina, eliminando a necessidade de provedores diferentes por país; fintechs globais, que ganhariam acesso a rampas locais com um único processo de KYB; e produtos de yield e investimento, com rendimento on-chain automatizado a partir do depósito de moedas fiduciárias.
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Silva aponta que o avanço regulatório na região — e em especial no Brasil — representa "muito mais uma oportunidade" do que um risco para os produtos da Pods:
"A descentralização da infraestrutura não significa que as interfaces com o sistema financeiro local possam ignorar a regulação. Quando existe entrada e saída de fiat, custódia, câmbio ou distribuição de determinados produtos financeiros, existem agentes regulados envolvidos."
O modelo da Pods conecta a infraestrutura on-chain a parceiros locais regulados, evitando que os parceiros precisem "entender e integrar separadamente toda a infraestrutura regulatória, financeira e blockchain de cada país para entrar na América Latina", diz Silva.
No Brasil, o Banco Central enquadrou as stablecoins atreladas ao dólar ao mercado de câmbio por meio da Resolução BCB 521/2025. Em paralelo, o PL 4.308/2024, de autoria do deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ), segue em tramitação no Congresso Nacional. O texto define stablecoins como ativos virtuais projetados para manter valor estável, geralmente lastreados em moedas como o dólar ou o real, ou outros ativos de referência, e exige que emissores mantenham reservas financeiras equivalentes ao total de tokens em circulação, proibindo o uso de derivativos financeiros como mecanismo de lastro.
O projeto também prevê a realização de auditorias trimestrais por auditores registrados na CVM, com divulgação pública dos resultados, e divide a supervisão entre três órgãos: o Banco Central, responsável pelas operações cambiais; a CVM, que fiscaliza o cumprimento das regras; e o Coaf, encarregado de monitorar lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo.
As restrições cambiais criam uma espécie de assimetria regulatória para as stablecoins atreladas ao real, uma vez que a autorização do Banco Central para operar no mercado de câmbio é exigida especificamente de stablecoins vinculadas a moeda estrangeira, e não para aquelas emitidas em real.
Atualmente, o PL 4.308/2024 está em análise nas comissões de Ciência, Tecnologia e Inovação; Desenvolvimento Econômico; Finanças e Tributação; e Constituição e Justiça da Câmara, antes de seguir para votação em plenário. Se aprovado, ainda precisará passar pelo Senado para virar lei.
No México, o processo de regulação das stablecoins está em andamento. Em maio de 2026, o senador Alejandro Murat Hinojosa apresentou um projeto que cria os Activos Virtuales Estables Referenciados en Moneda Nacional (AVE), definidos no texto como "a representação digital de valor utilizada como meio de pagamento, registrada eletronicamente, cuja emissão incorpora a obrigação do emissor de garantir sua convertibilidade em Moeda Nacional a valor nominal."
De acordo com a proposta, as stablecoins atreladas ao peso mexicano são tokens privados com paridade estrita de 1:1, que exigem reservas líquidas equivalentes a 100% dos tokens em circulação e garantem direito imediato de resgate, sem, no entanto, ter curso legal ou substituir o peso.
A supervisão ficaria dividida entre o Banco de México, responsável por preservar a estabilidade monetária — que teria 180 dias corridos após a entrada em vigor da lei para expedir as disposições aplicáveis —, e a Comissão Nacional Bancária e de Valores (CNBV). O texto reserva a emissão exclusivamente a bancos e Instituições de Fundos de Pagamento Eletrônico (IFPEs) já autorizadas, deixando de fora fintechs e startups criptonativas sem licença bancária prévia.
Argentina e Colômbia, os outros dois corredores do LATAM Ramp, seguem sem um marco definido. A Argentina, sob o governo Milei, mantém uma postura mais permissiva, mas ainda não estabeleceu um regime de licenciamento formal para esse tipo de ativo. A Colômbia, por sua vez, ainda não tem uma política governamental para o setor. O presidente Abelardo de la Espriella, empossado em 7 de agosto de 2026, ainda não emitiu uma posição sobre criptoativos, mas sinalizou simpatia ao tema durante a campanha.
O plano de governo de Espriella continha uma proposta de adoção da tecnologia blockchain como padrão de transparência governamental, mas ainda não está claro qual a posição do novo governo em relação à regulação do setor.
Para Sebastián Serrano, CEO da corretora cripto Ripio, parceira da Pods na região, o avanço das stablecoins locais na América Latina é também uma questão de soberania monetária. Em artigo publicado no Fórum Econômico Mundial, Serrano argumenta que, se uma parcela relevante do comércio da região migrar para ativos estrangeiros, os bancos centrais perdem ferramentas de controle e gerenciamento de liquidez e reduzem sua capacidade de responder a desafios internos.
Além disso, acrescenta o executivo, stablecoins locais têm potencial de reduzir custos com dinheiro físico, conectar usuários a fundos e títulos em moeda nacional, e tornar mais rastreáveis pagamentos de subsídios e pensões governamentais.