Embedded Finance: a infraestrutura sai do bastidor e ganha espaço na estratégia
Debates na Febraban Tech 2026 reforçam que incorporar serviços financeiros exige alinhar infraestrutura, experiência do cliente e estratégia de negócio, afirma Gustavo Siuves, CRO da Azify.
- Enquanto o BaaS fornece a infraestrutura financeira, o embedded finance integra contas, pagamentos e outros serviços à jornada do cliente.
- Agentes inteligentes ampliam a capacidade de execução, mas definir quais produtos oferecer e qual valor devem gerar continua sendo uma decisão humana, afirma Siuves.
A FEBRABAN TECH, maior evento de tecnologia bancária da América Latina e um dos principais do setor no mundo, acaba de reunir, em São Paulo, empresas, instituições financeiras e especialistas para discutir os rumos da transformação tecnológica no mercado. Realizada entre os dias 24 e 26 de agosto, no Distrito Anhembi, a edição deste ano teve como tema "Agentes Inteligentes e Liderança Humana", colocando em perspectiva não apenas o avanço da inteligência artificial, mas também o papel das pessoas nas decisões que orientam essa transformação.
Pude acompanhar de perto essas discussões. Para mim, uma das principais conclusões que ficam da feira é que a evolução tecnológica está tornando menos relevante a pergunta sobre o que uma empresa consegue oferecer e mais importante a discussão sobre como ela decide o que oferecer, para quem e com qual propósito.
Há alguns anos, o debate sobre Banking as a Service (BaaS) estava muito concentrado na infraestrutura necessária para que empresas pudessem oferecer serviços financeiros. A lógica era disponibilizar, por meio de tecnologia e APIs, componentes como contas, pagamentos, cartões e outras funcionalidades que antes exigiam uma estrutura própria muito mais complexa.
Com a evolução do mercado e da infraestrutura, ganhou força uma discussão complementar: como incorporar serviços financeiros às jornadas de negócios que não nasceram como instituições financeiras? É nesse contexto que o embedded finance ganha relevância.
A diferença é importante. BaaS diz respeito à infraestrutura e aos serviços que permitem viabilizar determinadas operações financeiras. Embedded finance diz respeito à forma como essas capacidades são incorporadas à experiência de um produto, plataforma ou negócio.
Um marketplace pode, por exemplo, utilizar uma infraestrutura financeira para oferecer contas aos seus vendedores, estruturar pagamentos, split e repasses. Quando essas funcionalidades passam a fazer parte da própria jornada do vendedor dentro da plataforma, temos uma aplicação de embedded finance.
A tecnologia está por trás. A experiência é o que o cliente percebe, e o produto financeiro precisa fazer sentido para a jornada. Esse avanço também muda a pergunta que as empresas precisam fazer.
A questão fundamental é entender qual problema determinado produto resolve, em que momento da jornada ele aparece e qual valor gera para o cliente e para a empresa.
Para um varejista, por exemplo, uma conta pode estar associada a cashback e fidelização. Em um marketplace, serviços financeiros podem facilitar a relação com vendedores e melhorar a gestão dos repasses. Em uma empresa de software, pagamentos podem ser incorporados ao sistema que o cliente já utiliza diariamente.
São aplicações diferentes para uma mesma lógica: o serviço financeiro deixa de ser um produto isolado e passa a fazer parte da experiência principal do negócio. Existe, porém, uma parte dessa transformação que costuma receber menos atenção: a operação que acontece por trás da experiência.
Para o usuário final, abrir uma conta, fazer um Pix ou receber um pagamento precisa ser simples. Para a empresa que oferece esse serviço, a realidade é bastante diferente. Por trás de uma experiência financeira simples, existe uma operação complexa: é preciso cadastrar e validar clientes e empresas, conhecer quem está utilizando o serviço, monitorar transações, prevenir fraudes, cumprir exigências regulatórias, conciliar pagamentos e movimentações, garantir liquidez, administrar a operação e integrar diferentes sistemas.
Quanto mais empresas de diferentes setores incorporam serviços financeiros, mais relevante se torna a capacidade de integrar essas camadas sem transformar cada novo produto em um projeto de infraestrutura construído do zero.
A fronteira entre fintech e empresa tradicional está cada vez menos claraOutro ponto que considero relevante é a ampliação do perfil das empresas interessadas em serviços financeiros. A transformação não está restrita às fintechs. Varejistas, marketplaces, empresas de tecnologia, plataformas digitais, redes de franquias, exchanges e negócios B2B também podem incorporar serviços financeiros às suas jornadas.
Isso acontece porque essas empresas já possuem algo extremamente valioso: relacionamento, distribuição e contexto sobre o cliente.
Em muitos casos, a oportunidade não está em competir com um banco tradicional, mas em resolver uma necessidade financeira dentro de uma experiência que o consumidor ou a empresa já utiliza.
O cliente de um marketplace não necessariamente quer "mais uma conta". Ele pode querer receber seus recursos com mais facilidade, acompanhar seus repasses e administrar sua operação dentro do ambiente em que já vende.
Da mesma forma, o cliente de uma plataforma de software pode não estar procurando um novo meio de pagamento. Mas, se puder realizar essa operação sem sair do sistema que já utiliza, o serviço financeiro ganha outro significado.
Precisamos de soluções que façam sentido para o modelo de negócio, sejam sustentáveis operacionalmente e tenham uma lógica clara de monetização.
Antes de decidir quais produtos financeiros incorporar, é preciso entender o público, o volume esperado, os sistemas existentes, os pontos de contato com o cliente, os processos internos e, principalmente, onde está a oportunidade econômica. A tecnologia viabiliza. Mas é a estratégia que define o que vale a pena construir.
Esse ponto conversa diretamente com o tema central desta edição da Febraban Tech. Agentes inteligentes podem ampliar a capacidade de execução, mas não substituem a responsabilidade de definir objetivos, prioridades e limites.
No embedded finance, essa distinção é especialmente importante. Automatizar uma operação é diferente de ter clareza sobre por que aquela operação deveria existir.
À medida que agentes inteligentes passam a interagir com serviços, comparar alternativas e executar tarefas em nome dos usuários, a infraestrutura financeira também precisa estar preparada para essas novas formas de interação. Segurança, integração, rastreabilidade e capacidade operacional deixam de ser apenas requisitos técnicos e passam a fazer parte da experiência.
Mas a decisão sobre quais produtos oferecer, para qual público e dentro de qual jornada continua sendo uma decisão de negócio.
O que ficou da Febraban Tech 2026?Eventos como a Febraban Tech são fundamentais justamente porque permitem observar essas transformações de forma mais ampla. Não apenas pelas tecnologias apresentadas, mas pelas perguntas que o mercado está fazendo.
A meu ver, uma delas está cada vez mais evidente: se praticamente qualquer empresa pode incorporar serviços financeiros e se agentes inteligentes vão participar cada vez mais dessas jornadas, qual será o papel da infraestrutura para tornar essa experiência realmente relevante, segura e escalável?
A resposta passa por modularidade, integração, segurança, compliance e capacidade operacional. Mas passa também por algo mais básico: entender que serviços financeiros não existem isoladamente e precisam estar conectados a uma necessidade real.
O mercado de embedded finance tende a continuar avançando à medida que empresas percebam que podem oferecer serviços financeiros não como um negócio paralelo, mas como uma extensão natural daquilo que já fazem.
O desafio, daqui para frente, não será simplesmente colocar finanças dentro de mais jornadas. Será fazer isso de maneira que tecnologia, operação e estratégia de negócio estejam olhando para a mesma direção.
Esse é um dos principais pontos que levo desta edição da Febraban Tech 2026: quanto mais inteligentes se tornam as tecnologias que executam, mais importante fica a clareza humana sobre o que deve ser feito, por que deve ser feito e qual valor essa decisão precisa gerar.
Gustavo Siuves é CRO na Azify. Especialista em desenvolvimento de negócios com 16 anos de experiência como vendedor de alto desempenho em grandes corporações de produtos de consumo e serviços financeiros. Na Azify é responsável pelas negociações de grande porte, construção de relacionamentos, desenvolvimento de pessoas e planejamento estratégico do negócio.Leia Também