A Associação Brasileira de Tokenização e Ativos Digitais (ABToken) pediu publicamente ao Banco Central mais prazo e "diálogo conciliador" para a adequação das empresas de criptoativos às novas regras do setor, horas depois de a Coinext, corretora associada à entidade, anunciar o encerramento de suas operações em 3 de setembro de 2026. O apelo foi feito por Regina Pedroso, diretora executiva da ABToken, em publicação no LinkedIn:
"BC, isso não é um ataque a sua autoridade, mas um pedido sincero de atenção e escuta ativa. Estamos do mesmo lado", escreveu Pedroso. "Ontem recebi ligações preocupadas com o prazo. Não dá. Pois não falta tempo para executar corretamente o que foi solicitado. Estamos fazendo o possível e o impossível. A Associação pede tempo às autoridades e muito diálogo conciliador."
Pedroso destacou que a Coinext sempre buscou atender os padrões de regulação e conformidade, e que o caso é emblemático por ocorrer "às vésperas do licenciamento". Pedroso ressaltou que não se trata de um caso único.
Em 3 de setembro, a Coinext anunciou o encerramento de suas atividades como exchange de varejo. A corretora, fundada em 2017, tinha mais de 420 mil usuários cadastrados. Novos cadastros e depósitos em reais ou em criptoativos foram suspensos imediatamente; a negociação segue disponível até 15 de outubro e os saques de criptoativos até 20 de outubro de 2026. A empresa recomendou aos clientes o saque ou a venda dos criptoativos mantidos na plataforma até 15 de outubro e indicou o Mercado Bitcoin e a OKX como plataformas alternativas.
Em uma publicação no LinkedIn, José Artur Ribeiro, CEO e cofundador da Coinext, atribuiu a decisão diretamente à regulação:
"A nova realidade regulatória passou a exigir uma estrutura de capital e operação diferente daquela sobre a qual construímos a empresa. Nos últimos meses, buscamos intensamente alternativas para a continuidade do negócio. Infelizmente, nenhuma delas se mostrou viável dentro do tempo que tínhamos."
Ribeiro afirmou que a empresa "continuará existindo para administrar o legado dessa operação" e que trabalhará "pelo tempo que for necessário para que cada cliente tenha acesso aos seus recursos, informações e suporte". O grupo manterá as operações da Coinext Asset, sua gestora de recursos, que não será afetada pelo encerramento. "Esta não é uma despedida da Coinext. É o encerramento de um capítulo", escreveu o executivo.
As regras que a Coinext cita foram publicadas pelo Banco Central em 10 de novembro de 2025, nas Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, que regulamentam a Lei nº 14.478/2022 (Marco Legal dos Ativos Virtuais). Com a entrada em vigor da nova regulação, a prestação de serviços de ativos virtuais passa a depender de autorização prévia do BC, com a criação da figura da sociedade prestadora de serviços de ativos virtuais (SPSAV).
As empresas que já operavam em 2 de fevereiro de 2026 têm 270 dias para protocolar o pedido de autorização — o prazo termina em 30 de outubro de 2026. Enquanto o pedido é analisado, a empresa pode continuar operando, desde que não altere a natureza de suas atividades. Quem não protocolar o pedido de atuorização até a referida data terá de encerrar suas operações em até 30 dias.
O capital mínimo exigido varia de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, conforme o escopo de atividades da prestadora — intermediação, custódia ou ambas. O pacote também impõe segregação patrimonial entre recursos de clientes e da empresa, controles de prevenção à lavagem de dinheiro, requisitos de segurança cibernética e governança, além da realização periódica de auditorias independentes.
A exigência de capital ainda vai subir de patamar. A Resolução BCB nº 580, de 1º de julho de 2026, enquadrou as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais como instituições do "tipo 3" — a mesma categoria das corretoras e distribuidoras de títulos e valores mobiliários e das corretoras de câmbio.
A partir de 1º de janeiro de 2027, as prestadoras passam a seguir as regras prudenciais desse grupo: gerenciamento de riscos, requerimento de capital compatível com os riscos da operação (Patrimônio de Referência) e divulgação de informações. A norma veda às prestadoras o segmento S5, com regime simplificado de capital, e as mantém no segmento S4 até 30 de junho de 2028, independentemente do porte.
Pedroso vem sustentando desde agosto que o custo de adequação surpreendeu o mercado. Na Febraban Tech 2026, em 25 de agosto, a executiva afirmou que "muitas empresas dormiram startups e acordaram bancos no setor de criptoativos".
No texto publicado após o anúncio da Coinext, a diretora da ABToken rebateu o enquadramento do setor como ilícito, em referência indireta à ata de reunião do Comef (Comitê de Estabilidade Financeira) divulgada em 2 de setembro:
"Horrível ler que o setor é ilícito e envolvido com crimes. Não somos! Somos infraestrutura para fazer melhor e mais rápido no mercado financeiro. Crimes estão em todas as partes e setores. Não é exclusividade. A regulação vai resolver muito do que estava em aberto. Mas isso não pode ser argumento e enviesamento."
Pedroso também cobrou uma revisão de regras sobre estruturas que, segundo ela, ainda não têm encaixe na regulação:
"Horrível não conseguir entendimento sobre estruturas necessárias para um novo formato. Estruturas novas. Provedores de liquidez e intermediários ainda pedem por ajustes regulatórios."
A executiva também defendeu que "a regulação ainda está se desenvolvendo e é natural a necessidade de acomodação e tempo" e que "estabilidade é importante para quem empreende e investe muito em atender melhor o mercado". Sobre o ônus do fechamento de uma empresa, questionou: "Quem assume tudo isso? Todo o ônus de uma decisão de parar as atividades?"
A Coinext é a terceira exchange brasileira a anunciar o fim de suas operações de varejo em 2026, antes do prazo de 30 de outubro.
Em 8 de junho de 2026, a NovaDAX, então quinta maior corretora do país em volume negociado segundo o Cointrader Monitor, anunciou a saída do mercado brasileiro. Na ocasião, o CEO Edward Zhang atribuiu a decisão a "uma análise cuidadosa de nossas prioridades". Fundada em 2018 e controlada por uma holding chinesa, a empresa suspendeu novos cadastros e ordens de compra imediatamente, encerrou depósitos em 12 de junho e ordens de venda em 30 de junho. Os saques de criptoativos foram permitidos até 30 de agosto, enquanto sua base de clientes foi absorvida pela Foxbit.
Em 20 de agosto de 2026, a Digitra.com anunciou que não protocolaria pedido de autorização no BC e encerraria as atividades de negociação e custódia para o varejo. A empresa anunciou 8 de setembro como data limite para negociação dos ativos mantidos na plataforma. Os saques deverão ser efetuados até 21 de setembro. Os ativos que não forem sacados serão convertidos automaticamente em reais (ou USDT, para clientes estrangeiros). A empresa recomendou a migração dos usuários para a Foxbit, com condições exclusivas.
Enquanto empresas nacionais deixam o mercado, corretoras globais buscam se adequar à regulação: o CEO da Bybit, Ben Zhou, disse à Exame em 2 de setembro que a empresa está "totalmente pronta" para protocolar o pedido de licença até 30 de outubro, após abrir escritório em São Paulo e aportar cerca de US$ 8 milhões em capital, com a meta de obter também licenças de corretora e de banco no Brasil.
Para Pedroso, o resultado esperado da regulação deveria ser outro. "Quero ver notícias positivas sobre como estamos crescendo e prosperando como mercado com regras claras, estáveis e colocando o Brasil num cenário competitivo e inovador", escreveu. "Precisamos pensar em como incentivar e garantir segurança ao mesmo tempo, e não sufocar", concluiu.