BitGo descarta disputa direta com Bradesco por custódia institucional de criptoativos no Brasil

Luis Ayala, diretor da BitGo para a América Latina, diz que entrada do Bradesco no mercado de custódia "valida" adoção institucional e fortalece ecossistema brasileiro.

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  • Regulação “proativa” do Banco Central é catalisador para adoção institucional no Brasil, afirma Ayala.
  • O mercado institucional de custódia de criptoativos deve mais que triplicar até 2031.

Luis Ayala, diretor da BitGo para a América Latina, afirma que a entrada do Bradesco — um dos maiores bancos privados do país — no mercado de custódia de ativos digitais "valida" a adoção institucional, em vez de configurar uma disputa direta com a empresa americana. A colocação do executivo baseia-se em números. A BitGo está inserida em um mercado global que soma hoje entre US$ 700 bilhões e pouco mais de US$ 800 bilhões, a depender de diferentes estimativas — e nenhuma das consultorias que acompanham o setor projeta desaceleração.

Segundo a Mordor Intelligence, o mercado deve saltar de US$ 700 bilhões em 2026 para US$ 2,12 trilhões até 2031, um crescimento anual composto (CAGR) de 24,67%. Já a Grand View Research, estimou o mercado em US$ 803,24 bilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 4,38 trilhões até 2033 — CAGR de 23,6% no período.

Atualmente, a escala dos players que oferecem infraestrutura de custódia varia bastante. A Coinbase encerrou 2025 com US$ 376 bilhões em ativos custodiados — cerca de 13% da capitalização total do mercado cripto na época — e obteve em abril de 2026 aprovação condicional do Escritório do Controlador da Moeda dos Estados Unidos (OCC, na sigla em inglês) para converter sua operação de custódia em um trust bancário de âmbito federal.

Já a Fireblocks — fornecedora de infraestrutura escolhida pelo Bradesco para sua oferta de custódia institucional no Brasil — diz ter movimentado mais de US$ 10 trilhões em ativos digitais e atender mais de 2.200 instituições, incluindo mais de 300 bancos e provedores de pagamento.

Receita da BitGo cresce 80%, apesar de prejuízo líquido

A BitGo estreou na Bolsa de Nova York (NYSE) em 22 de janeiro de 2026, um dia depois de precificar sua oferta pública inicial (IPO) a US$ 18,00 por ação. A operação envolveu 11.821.595 ações, com captação de aproximadamente US$ 212,8 milhões, coordenada por Goldman Sachs e Citigroup, segundo comunicado oficial da companhia.

Sete meses depois, no resultado do segundo trimestre de 2026 divulgado em 12 de agosto, a BitGo reportou receita total de US$ 4.329,4 milhões, alta de 79,6% sobre os US$ 2.410,5 milhões do mesmo período de 2025. A empresa registrou, porém, prejuízo líquido de US$ 19,0 milhões — revertendo o lucro líquido de US$ 38,3 milhões do 2º trimestre de 2025 — e Ebitda ajustado negativo de US$ 4,2 milhões. Os ativos normalizados na plataforma somaram US$ 65,2 bilhões, alta de 31,4% na comparação anual, e a base de clientes cresceu 26,2%, para 5.833, segundo dados divulgados pela própria companhia.

Nesse contexto de expansão, com receita em alta e prejuízo contábil no trimestre, Ayala reafirma em entrevista ao WB3News o protagonismo do Brasil na estratégia global da BitGo e também aborda temas como os riscos emergentes da inteligência artificial (IA) e da computação quântica ao ecossistema cripto, a concorrência no mercado brasileiro e a abordagem do Banco Central do Brasil na regulação de ativos digitais no país.

Agentes de IA e computação quântica: os novos vetores de ataque

WB3News: Em maio, um golpista enganou o agente de IA do robô de trading Bankr enviando instruções em código Morse para o Grok, que as decodificou e as executou sem verificação — resultando na transferência de US$ 175 mil em cripto. O evento foi tratado como "o primeiro exploit de agente de IA" do mercado cripto. Testes controlados já mostraram que LLMs podem ser enganados por prompt injections para autorizar pagamentos em operações fraudulentas. Para a BitGo, o uso malicioso de IA — seja por agentes autônomos comprometidos, seja por humanos usando IA para potencializar ataques como phishing e engenharia social — já é hoje um risco real e mensurável para a custódia institucional, ou ainda é algo limitado ao varejo?
Luis Ayala, diretor da BitGo para a América Latina: As ameaças relacionadas à IA já são uma consideração relevante para a custódia institucional de ativos digitais. À medida que os agentes de IA se tornam cada vez mais capazes de interagir com sistemas financeiros e executar transações, o setor precisa garantir que a autonomia não ocorra em detrimento da segurança, da governança ou da responsabilidade.
A custódia de nível institucional exige múltiplas camadas de controles, incluindo políticas de transação, aprovações, segregação de funções, monitoramento e gestão de riscos. A IA pode aumentar a eficiência, mas deve operar dentro de parâmetros claramente definidos e nunca substituir os controles desenvolvidos para proteger os ativos dos clientes.
Também vemos o phishing e a engenharia social habilitados por IA como uma ameaça cada vez mais relevante. À medida que esses ataques se tornam mais sofisticados, a segurança institucional precisa evoluir de acordo, combinando tecnologia, governança e supervisão humana.

WB3News: Em contrapartida, que oportunidades de negócio a economia agêntica abre para custodiantes institucionais como a BitGo?
Ayala: A economia de agentes pode ampliar significativamente o papel dos custodiantes institucionais. À medida que agentes autônomos começam a gerenciar transações, operações de tesouraria, pagamentos e outras atividades financeiras, eles precisarão de uma infraestrutura segura por meio da qual os ativos possam ser mantidos, movimentados e administrados.
Isso cria uma oportunidade para que os custodiantes forneçam a camada de segurança e controle por trás desses sistemas financeiros autônomos. Isso inclui políticas de transação programáveis, aprovações automatizadas, monitoramento em tempo real, gestão de liquidez e controles de nível institucional.
Acreditamos que a principal oportunidade não está simplesmente em permitir que agentes de IA realizem transações, mas em tornar essas transações seguras, auditáveis e em conformidade com as regulamentações. Essa é uma área em que a infraestrutura de custódia institucional pode desempenhar um papel importante à medida que a economia de agentes se desenvolve.

WB3News: Além do uso malicioso de IA, a outra ameaça emergente que a própria BitGo já transformou em produto é a computação quântica: em julho, a empresa lançou suas primeiras ferramentas comerciais de gestão de risco quântico para carteiras de Bitcoin. Isso significa que a empresa trata a ameaça quântica como um risco real e iminente?
Ayala: Vemos a computação quântica como um risco de longo prazo, mas estrategicamente importante, que o setor de ativos digitais precisa abordar de forma proativa.
A questão relevante para investidores institucionais e custodiantes não é se a computação quântica em larga escala já é capaz de comprometer o Bitcoin atualmente, mas se o setor terá tempo suficiente para migrar para uma infraestrutura resistente à computação quântica quando a tecnologia atingir esse nível de capacidade.
A preparação antecipada permite que as instituições avaliem sua exposição, entendam quais ativos e arquiteturas de carteira podem estar mais vulneráveis e desenvolvam estratégias de migração sem esperar que a ameaça se torne imediata.
Para a BitGo, trata-se fundamentalmente de gestão de riscos e preparação. Instituições que administram portfólios significativos de ativos digitais precisam olhar além do cenário atual de ameaças e garantir que sua infraestrutura possa evoluir à medida que a tecnologia avança.

Grandes bancos validam adoção de cripto no Brasil

WB3News: A BitGo estreou na Bolsa de Nova York em janeiro e, no resultado do 2º trimestre de 2026, reportou receita quase 80% maior na comparação anual, mas também prejuízo líquido de US$ 19 milhões e queda de quase 28% nos ativos sob custódia na base anual. Nesse contexto, qual o papel do mercado latino-americano e, mais especificamente, do brasileiro para a empresa?
Ayala: A América Latina é um mercado estratégico importante para a BitGo porque a região demonstrou forte adoção de ativos digitais, ao mesmo tempo em que registra uma participação institucional crescente.
O Brasil é particularmente relevante devido ao seu sistema financeiro sofisticado, forte ecossistema de fintechs, ampla adoção de pagamentos digitais e estrutura regulatória para ativos digitais cada vez mais madura. Observamos uma demanda crescente por parte de instituições que buscam uma infraestrutura segura, em conformidade com as regulamentações e escalável, à medida que os ativos digitais são cada vez mais integrados aos serviços financeiros tradicionais.
Nosso foco no Brasil, portanto, não está apenas no tamanho atual do mercado, mas também em seu potencial para se tornar um importante hub institucional de ativos digitais na região. À medida que bancos, gestores de ativos, fintechs e outras instituições financeiras ampliam suas estratégias relacionadas a ativos digitais, a custódia e a infraestrutura institucionais se tornarão cada vez mais importantes.

WB3News: O Bradesco anunciou recentemente que passará a oferecer custódia institucional de ativos digitais utilizando infraestrutura da Fireblocks. Como vocês enxergam a concorrência no Brasil: a disputa por clientes é travada diretamente com os grandes bancos locais como o Bradesco ou fornecedores de infraestrutura como a Fireblocks?
Ayala: Vemos o mercado como um ecossistema, e não como uma simples competição entre players individuais.
Bancos, custodiantes, provedores de tecnologia, exchanges e empresas de infraestrutura podem desempenhar papéis diferentes e complementares na cadeia de valor dos ativos digitais. À medida que as instituições financeiras tradicionais entram nesse mercado, isso acaba validando a oportunidade institucional mais ampla para os ativos digitais.
Para a BitGo, nosso foco está em oferecer custódia, segurança, compliance e infraestrutura de nível institucional que possam apoiar as instituições financeiras à medida que entram e expandem sua atuação nesse mercado. Acreditamos que haverá espaço para múltiplos provedores e modelos de negócios à medida que o ecossistema amadurecer.
O fator mais importante, em última instância, será a capacidade de oferecer às instituições a segurança, o alinhamento regulatório, a resiliência operacional e a escalabilidade de que precisam.

Clareza regulatória é catalisador

WB3News: A BitGo abriu subsidiária formal no Brasil em julho de 2025, antes, portanto, da formalização das regras para Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais estabelecidas pelo Banco Central. Como você avalia a regulação brasileira em comparação com o MiCA da UE e as iniciativas dos Estados Unidos via Congresso e agências regulatórias (SEC/CFTC)?
Ayala: O Brasil adotou uma abordagem proativa para estabelecer um marco regulatório para os ativos digitais, e vemos a clareza regulatória como um importante catalisador para a adoção institucional.
Um dos pontos fortes do Brasil é que o país está construindo sobre um ambiente regulatório financeiro já relativamente maduro, ao mesmo tempo em que estabelece requisitos específicos para os prestadores de serviços de ativos virtuais. Isso cria um marco que pode oferecer maior clareza para as instituições que buscam participar desse mercado.
O MiCA também foi um importante avanço ao estabelecer um marco regulatório abrangente em toda a União Europeia. Nos Estados Unidos, o cenário regulatório vem evoluindo tanto por meio de iniciativas legislativas quanto pelo trabalho de órgãos como a SEC e a CFTC.
Cada jurisdição está adotando sua própria abordagem, mas a tendência mais ampla é clara: a clareza regulatória está se tornando cada vez mais importante à medida que os ativos digitais deixam de ser uma tecnologia emergente e passam a ocupar um papel mais consolidado no sistema financeiro global.

WB3News: A Resolução BCB 584 permite reter por até 24 horas transferências de ativos virtuais acima de US$ 10 mil para carteiras de autocustódia ou entidades no exterior, a partir de janeiro de 2027. Para uma exchange, essa é uma discussão sobre saques de usuários finais, mas ela também impacta custodiantes institucionais como a BitGo? Como a BitGo está se preparando operacionalmente para essa regra, e ela muda a forma como vocês desenham fluxos de tesouraria para clientes institucionais no Brasil?
Ayala: Qualquer requisito regulatório que afete a movimentação de ativos digitais precisa ser incorporado aos modelos operacionais e de tesouraria institucionais. Para clientes institucionais, previsibilidade e transparência no processamento de transações são particularmente importantes, porque as operações de tesouraria podem envolver volumes significativos e necessidades de liquidez sensíveis ao tempo.
Nossa abordagem é trabalhar para cumprir os requisitos regulatórios locais, garantindo que os fluxos de transação, os controles de compliance e os processos operacionais estejam alinhados ao marco regulatório aplicável. À medida que a data de implementação se aproxima, continuaremos avaliando como os requisitos podem afetar fluxos de transação específicos e garantindo que nossa infraestrutura esteja preparada para dar suporte a operações em conformidade com as regras.
O objetivo mais amplo é preservar a segurança e a integridade regulatória das transações, mantendo, ao mesmo tempo, a eficiência operacional que os clientes institucionais esperam.

WB3News: As regras brasileiras para PSAVs exigem segregação patrimonial entre os ativos dos clientes e os da própria instituição custodiante. Para uma empresa sediada nos Estados Unidos e com infraestrutura de custódia global como a BitGo, onde ficam fisicamente as chaves dos ativos de clientes brasileiros — dentro do país ou em outra jurisdição? O Banco Central já sinalizou, formal ou informalmente, se pretende exigir que os custodiantes estrangeiros mantenham as chaves de clientes brasileiros em território nacional?
Ayala: A arquitetura de segurança para custódia institucional é desenvolvida com base em múltiplas camadas de proteção, em vez de depender exclusivamente da localização física de um determinado componente da infraestrutura. A BitGo opera uma infraestrutura global de custódia desenvolvida para oferecer aos clientes institucionais altos padrões de segurança, governança, controles operacionais e conformidade regulatória. A arquitetura e a localização específicas da infraestrutura de custódia podem variar de acordo com os requisitos regulatórios aplicáveis, a estrutura do cliente e o produto.
À medida que o marco regulatório brasileiro continua evoluindo, estamos monitorando de perto os requisitos do Banco Central e dialogando com as partes interessadas relevantes para garantir que nossas operações locais permaneçam alinhadas às regras.
Em última análise, nossa prioridade é garantir que os clientes brasileiros se beneficiem dos mesmos padrões de segurança e governança de nível institucional que sustentam a infraestrutura global de custódia da BitGo, ao mesmo tempo em que cumprimos todos os requisitos locais aplicáveis.

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