"Adoção na queda": Brasil assume liderança global em cripto mesmo com recuo na atividade, aponta Chainalysis

Enquanto a atividade cripto total do país recuou de US$ 257 bilhões para US$ 252,5 bilhões, adoção de stablecoins cresceu 495% em 12 meses, segundo relatório.

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  • O Brasil lidera o Índice Global de Adoção de Criptomoedas 2026 da Chainalysis entre 117 países, sem ficar em primeiro lugar em nenhum dos quatro critérios avaliados.
  • A atividade cripto brasileira recuou 1,6%, para US$ 252,5 bilhões, o mesmo percentual de queda da atividade global, enquanto a economia de stablecoins do país cresceu 495%.
  • O número de carteiras brasileiras com pelo menos US$ 10 mil em stablecoins cresceu 347% desde julho de 2024, à frente de México (91%), Argentina (82%) e Chile (47%).

O Brasil assumiu a liderança global em adoção de criptomoedas mesmo com um recuo de 1,6% na atividade cripto do país, que somou US$ 252,5 bilhões nos 12 meses encerrados em 30 de junho de 2026, segundo relatório da Chainalysis, empresa de análise de dados on-chain.

Publicado em 23 de setembro, o Índice Global de Adoção de Criptomoedas 2026 abre o relatório anual Geography of Cryptocurrency e classifica 117 países. Estados Unidos, Nigéria, Japão e Coreia do Sul completam as cinco primeiras posições. Na edição de 2025, calculada por outra metodologia, o Brasil ocupava o quinto lugar, atrás de Índia, Estados Unidos, Paquistão e Vietnã.

Brasil chega ao topo sem liderar nenhum critério

A sétima edição do índice inaugura uma nova metodologia baseada em quatro fatores: entradas em serviços, como corretoras e protocolos DeFi (finanças descentralizadas); transferências diretas entre carteiras autocustodiais dentro do país (P2P); fluxos internacionais; e saldos on-chain. Os valores são ponderados pela paridade do poder de compra de cada país, e a nota final é a média geométrica dos quatro fatores, cálculo que, segundo a Chainalysis, impede que a liderança em uma única categoria se sobreponha às demais.

A atividade cripto de cada país, que chega a US$ 252,5 bilhões no caso do Brasil, é uma métrica à parte do ranking. Ela soma apenas os fluxos, sem os saldos, e conta cada transferência uma única vez, no destino. A Chainalysis trata o resultado como uma estimativa mínima.

O Brasil ficou em segundo lugar em fluxos internacionais, em terceiro nas entradas em serviços e na economia P2P e em quarto nos saldos on-chain. Os Estados Unidos, segundos colocados, lideraram entradas em serviços e saldos, mas ficaram em 20º na economia P2P e em 11º nos fluxos internacionais, os dois critérios em que a Nigéria ficou em primeiro.

"Em um ano em que os mercados de baixa travaram o crescimento global, [o Brasil] apresentou de forma contínua um desempenho forte em relação ao seu tamanho, superando mercados mais estabelecidos, como os Estados Unidos", afirma a Chainalysis.

Queda de 1,6% no Brasil acompanha atividade global

A retração da atividade cripto no Brasil acompanhou a tendência global. Segundo a Chainalysis, a atividade cripto global caiu 1,6%, de US$ 9,5 trilhões para US$ 9,4 trilhões. A queda foi relativamente pequena, considerando-se que a capitalização total do mercado caiu cerca de 50% no período, o equivalente a US$ 2,1 trilhões.

Na contramão, a atividade na América Latina cresceu 9,8%, somando US$ 593,8 bilhões, mesmo com a retração no Brasil, maior mercado da região. Segundo o relatório, o crescimento foi puxado por altas de 25,5% no México, 15,3% na Argentina, 13,8% na Colômbia e 107,2% na Venezuela.

"Aqui na América Latina, toda essa adoção vem da necessidade. Não é adoção simplesmente pela adoção", afirma Carlos Peralta, especialista sênior em políticas públicas da Bitso.

A fatia brasileira no valor cripto recebido pela América Latina passou de 31,6%, no período de 2022, para 43,7%, e a atividade cripto do país acumula expansão de 179,4% desde o período de referência de 2024, segundo o relatório dedicado exclusivamente à América Latina:

"A retração não indica que os brasileiros tenham perdido de repente o apetite por cripto."

A atividade no país também passou a se concentrar em plataformas locais. As corretoras domésticas ou sediadas no Brasil registraram um salto de 1,5% para 12,5% das entradas, enquanto nos demais países da região as plataformas domésticas perderam participação para concorrentes estrangeiras.

Economia de stablecoins do Brasil cresce 495%

No mundo todo, as transferências P2P, hoje compostas em 96% por stablecoins, cresceram 302,9%, de US$ 56,8 bilhões para US$ 228,7 bilhões, enquanto as entradas em corretoras, protocolos DeFi e outros serviços caíram 4,3%, de US$ 9,30 trilhões para US$ 8,90 trilhões.

"O mercado de baixa atingiu a metade da cripto sensível a preço e deixou intacta a metade dos pagamentos", afirma a Chainalysis.

As transferências internacionais de stablecoins cresceram 77,5% no mundo, de US$ 124,2 bilhões para US$ 220,3 bilhões, em pagamentos com valor médio de cerca de US$ 3 mil, segundo a Chainalysis.

"A atividade se tornou constante, passando pelas carteiras num ritmo estável, e não em picos. Essa é a assinatura de atividade comercial e empresarial, não de especulação", afirma Philip Gradwell, vice-presidente de economia da Tether, emissora da stablecoin USDT.

No Brasil, o valor da economia de stablecoins cresceu 495%, mais de cinco vezes a expansão de 89,4% registrada no restante da América Latina. Gestão de liquidez e transferências internacionais estão entre os usos que movimentam esse mercado, segundo Julia Rosin, presidente da ABCripto (Associação Brasileira de Criptoeconomia) e chefe de políticas públicas da Coinbase para a América Latina:

"A visão do próprio mercado é que as stablecoins são, antes de tudo, para empresas, à frente das instituições financeiras e dos consumidores."

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central (BC) usado por 91% dos brasileiros, limita a participação das stablecoins nos pagamentos cotidianos de consumidores, segundo o relatório. A leitura é compartilhada por Ben Reid, chefe global de stablecoins da Bitso:

"No Brasil, as stablecoins têm sido mais B2B."

O avanço das stablecoins no país, porém, está refletido em todas as faixas de valor. As transferências P2P domésticas entre US$ 100 e US$ 1.000 cresceram 666%, ante 252% no restante da região, e as de US$ 10 mil a US$ 100 mil subiram 562%, contra 209%.

O número de carteiras brasileiras com pelo menos US$ 10 mil em stablecoins aumentou 347% desde julho de 2024, à frente de México (91%), Argentina (82%) e Chile (47%). A diferença se acentua a partir de meados de 2025, o que indica, segundo a Chainalysis, que a adoção de stablecoins no Brasil passou a reunir um grupo crescente de detentores de valores mais altos, paralelamente ao aumento acelerado das transações.

O Banco Central instituiu em novembro de 2025 um conjunto de regras para prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) que operam no mercado cripto brasileiro. Em vigor desde fevereiro de 2026, o arcabouço regulatório impôs novos requisitos de governança, gestão de riscos, segurança, conformidade e capital mínimo. Regras mais claras dão a bancos, empresas, fintechs e outras instituições financeiras mais confiança para operar com contrapartes cripto e têm potencial de ampliar a demanda B2B, segundo a Chainalysis.

"Quando as regras chegam, a confiança vem junto", afirma Rosin, que classifica a transição como "maturação institucional".


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