Consumo de energia do Bitcoin cai 32% desde o pico e não atingirá novo recorde, sugere Saifedean Ammous
Para o economista, o halving e a demanda de data centers de IA tornaram a mineração menos atrativa e recorde de 227 TWh de outubro de 2025 dificilmente voltará a ser batido.
- Ensaio publicado em 15 de setembro de 2026 sustenta que a mineração de Bitcoin deixou de crescer.
- A dificuldade de mineração está 18,3% abaixo de suas máximas há 321 dias – se não superá-la até 28 de outubro, o Bitcoin registrará o período mais longo de sua história sem um novo recorde, superando os 364 dias de 2011-2012.
O economista Saifedean Ammous, autor de "O Padrão Bitcoin", publicou em 15 de setembro de 2026 o ensaio "Bitcoin Electricity Consumption May Have Peaked", no qual sustenta que "o consumo de eletricidade do Bitcoin pode ter atingido o pico, e o Bitcoin pode nunca mais consumir tanta eletricidade quanto consumiu em 2024-2025."
Segundo o índice CBECI, do Centro de Finanças Alternativas de Cambridge (CCAF), o consumo anualizado de eletricidade do Bitcoin está em 155,46 TWh, 31,6% abaixo do recorde de 227,43 TWh, registrado em 18 de outubro de 2025.
Ammous apresenta o argumento como hipótese e aponta os dados de consumo do CCAF como a forma mais direta de confirmá-la ou refutá-la. Os dados públicos de Cambridge, consultados pela reportagem do WB3News, confirmam a queda, mas situam o recorde em outubro, e não em dezembro, como sustenta o ensaio.
A tese do economista baseia-se na mecânica do halving, a redução pela metade do subsídio pago por bloco minerado em períodos de aproximadamente quatro anos. Para a receita em dólar da mineração crescer, o preço do bitcoin precisa mais que dobrar a cada ciclo, explica Ammous:
"O halving significa que a mineração de Bitcoin continuará a crescer enquanto o aumento esperado do valor de mercado do bitcoin superar 100% em quatro anos, ou 18,92% ao ano. [...] Como o número de bitcoins minerados diariamente cai pela metade a cada quatro anos, o valor de mercado da produção da mineração aumentaria se o preço do bitcoin subisse mais que 18,92% ao ano mais a desvalorização do dólar, e diminuiria se o preço subisse a uma taxa menor."
Além do halving, Ammous inclui na conta a desvalorização do dólar e o custo de oportunidade criado pela demanda de data centers de inteligência artificial (IA) por energia e infraestrutura, que elevam essa barreira em alguns pontos percentuais.
O argumento é validado no ensaio pelo preço médio do bitcoin em cada época de mineração. O preço médio da quinta época, de 20 de abril de 2024 a 28 de agosto de 2026, é de US$ 84.099,39, 2,56 vezes maior que o da época anterior (US$ 32.881,81). Com o subsídio reduzido pela metade, a receita média em dólar ficou apenas 1,28 vez acima da quarta época. Nas transições anteriores, os multiplicadores foram de 31,59, 8,43 e 2,86.
"Passados 28 meses desta época, os subsídios são apenas 28% maiores que na época anterior, o que significa que o subsídio não está superando a desvalorização do dólar para quem estima essa desvalorização acima de 7% ao ano, e mal a supera a 6%", escreve o economista.
Recorde foi atingido em 2025Ammous aponta dezembro de 2025, com cerca de 190 TWh anualizados, como o possível recorde de consumo energético do Bitcoin e diz que este é o nível-chave para validação de sua tese:
"Se a estimativa central de Cambridge, numa série comparável, voltar a superar esse nível de forma sustentada, esta afirmação terá sido desmentida."
O dado apresentado por Ammous difere do CBECI (Índice de Consumo de Eletricidade do Bitcoin de Cambridge), um modelo que estima o consumo a partir do hashrate e da eficiência dos equipamentos. Na série histórica do CBECI, o recorde é de 227,43 TWh anualizados, registrado em 18 de outubro de 2025. Em dezembro de 2025, a série oscilou entre 189,56 TWh e 211,75 TWh.
Dificuldade se mantém abaixo do recorde histórico por 321 dias
A queda na dificuldade de mineração do Bitcoin, parâmetro que a rede ajusta a cada 2.016 blocos para manter o intervalo de produção de blocos em cerca de 10 minutos, é outro indicador de que a atividade deixou de crescer, segundo Ammous. A dificuldade oscila em função do poder computacional empregado na rede.
Segundo dados do mempool.space, o indicador atingiu o recorde de 155,97 trilhões no bloco 921.312, em 29 de outubro de 2025. O ajuste de 5 de setembro ficou em 127,45 trilhões, 18,3% abaixo das máximas, e um pouco acima das mínimas recentes, de 125,81 trilhões, registradas em 23 de agosto.
Em 15 de setembro, a dificuldade completa 321 dias sem alcançar um novo recorde. O período mais longo da história em que a dificuldade não atingiu novas máximas foi de 364 dias, entre 1º de agosto de 2011 e 30 de julho de 2012, período no qual o preço do bitcoin chegou a cair de US$ 30 para US$ 2. O terceiro mais longo durou 252 dias, entre maio de 2021 e janeiro de 2022, após a proibição da mineração na China, em 2021.
Se a dificuldade não superar 155,97 trilhões até 28 de outubro de 2026, a marca de 2011-2012 será superada. A diferença é que agora, não houve gatilhos de preço ou regulação semelhantes:
"O que chama a atenção nesta queda da dificuldade é que ela não se seguiu a acontecimentos drásticos, como a primeira e a terceira maiores quedas."
A dificuldade também recua na comparação anual. O ajuste de 5 de setembro de 2026 deixou o indicador 6,3% abaixo dos 136,04 trilhões registrados um ano antes. Essa é apenas a segunda queda anualizada da dificuldade na história da rede. A Luxor, empresa de serviços de mineração, atribui o movimento à queda do preço do bitcoin, à compressão das receitas dos mineradores e ao desvio de capital para infraestrutura de IA e HPC (computação de alto desempenho).
O hashrate, poder computacional total da rede, estava em 915 EH/s (média de sete dias) em 31 de agosto, segundo o Hashrate Index, 20,5% abaixo dos cerca de 1.151 EH/s registrados em outubro de 2025.
O ensaio também sugere que o recorde de recompensa diária do bitcoin ficou no passado. aponta 14 de março de 2024 como o dia de maior valor em subsídio da história. Em 14 de março de 2024, com o bitcoin a US$ 73.800 e o subsídio de 6,25 BTC por bloco minerado, os mineradores acumularam US$ 65 milhões em recompensas.
Para igualar esse valor, com o subsídio atual de 3,125 BTC, seria necessário que o preço do BTC atingisse US$ 147.600, 17% acima da máxima histórica de US$ 126.198,07, registrada em 6 de outubro de 2025. O valor necessário dobrará após os próximos halvings, aponta Ammous: : US$ 295.200 na sexta época, US$ 590.400 na sétima e US$ 1.180.800 na oitava.
Mineradoras trocam hashrate por contratos de IAO terceiro vetor da tese é a migração das mineradoras da produção de bitcoin para o processamento de dados de IA. Segundo Ammous, a expansão dos data centers nos últimos quatro anos deu às mineradoras uma fonte alternativa de receita. A mineração deixou de ser a única forma de rentabilizar energia barata e isolada, gerada em locais sem demanda real ou sem acesso à rede elétrica. O economista aponta que os próprios investimentos da mineração tornaram esses locais atraentes para a IA:
"Muitas das fontes de energia isoladas usadas na mineração de bitcoin estão hoje mais desenvolvidas e mais bem conectadas à internet, depois de anos de investimento em infraestrutura de mineração, o que as torna mais adequadas para data centers de IA."
Para Ammous, a diferença entre as duas atividades está no ajuste de dificuldade do Bitcoin. Na mineração, a entrada de máquinas novas e mais poderosas eleva a dificuldade e divide entre mais entidades uma recompensa que diminui pela metade a cada quatro anos. Com isso, apenas os mineradores mais eficientes conseguem manter operações lucrativas. Os ganhos de produtividade da IA permitem que os usuários gastem cada vez mais poder computacional, gerando uma demanda crescente por energia, segundo o economista:
"Um minerador de bitcoin enfrenta agora retornos esperados decrescentes com os halvings, ao lado de retornos potencialmente crescentes de forma exponencial com os ganhos de produtividade da IA."
Os balanços das mineradoras listadas na bolsa americana evidenciam esse movimento. Segundo levantamento da BlocksBridge Consulting publicado na Miner Weekly, o hashrate dessas empresas caiu de 368,3 EH/s no quarto trimestre de 2025 para 319,0 EH/s no segundo trimestre de 2026. A queda chega a 21,2% sem a Bitdeer, que ampliou a operação.
No segundo trimestre, a Core Scientific registrou US$ 136,7 milhões em receita de colocation, contra US$ 27,5 milhões em mineração. A IREN reduziu a capacidade de mineração de cerca de 50 EH/s para 23,2 EH/s e prevê concluir até o fim de 2026 a migração de sua capacidade energética para serviços de nuvem de IA. Em relatório de março de 2026, a CoinShares contabilizou mais de US$ 70 bilhões em contratos de IA e HPC anunciados por mineradoras públicas.
Ammous admite que os investimentos elevados em IA podem resultar numa bolha. Modelos chineses de código aberto já obtêm resultados semelhantes aos dos modelos americanos com apenas uma fração da energia e do processamento, segundo o economista. Em um cenário considerado improvável, as mineradoras poderiam voltar a direcionar a energia para o Bitcoin. Ainda que isso ocorra, ele acha improvável que a energia empregada na mineração atinja um novo recorde no futuro.
Ressalvas à própria teseApesar de reiterar a convicção em sua tese, Ammous reconhece que ela tem limitações, especialmente no que diz respeito à atividade na rede. "Se as taxas de transação subirem de forma significativa, a análise pode ser invalidada", afirma.
No entanto, até hoje, as taxas representaram uma parcela pequena da receita dos mineradores.
O economista também deixa clara uma distinção entre o consumo de energia e a dificuldade. Segundo o ensaio, a dificuldade "vai se recuperar e provavelmente continuar a subir à medida que a eficiência dos equipamentos de mineração melhorar". A tese trata de capital investido e de eletricidade consumida, não do poder computacional da rede.
Mesmo que o consumo energético volte a subir e supere o recorde atual, há um limite para a alta, conclui Ammous:
Leia Também"Se o pico da mineração de bitcoin já aconteceu ou não é uma questão que só o tempo vai resolver, mas o ponto mais forte é que esse pico é inevitável em algum momento."