Corrida bancária agêntica: IAs autônomas são novo vetor de risco para o sistema financeiro?

Economista-chefe da Apollo afirma que agentes pessoais podem assumir a gestão do caixa das famílias e transferir os recursos para aplicações mais rentáveis, drenando os depósitos dos bancos.

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  • A nota de Torsten Slok compara contas remuneradas que pagam de 3,3% a 5,0% ao ano com a média de 0,1% da conta corrente nos Estados Unidos e cita o Muse, agente de IA lançado pela Meta em 8 de setembro.
  • O alerta sai 12 dias depois de o Senado americano rejeitar o CLARITY Act, projeto em que o rendimento de stablecoins foi uma das frentes de oposição dos bancos comunitários.

Agentes de inteligência artificial (IA) capazes de transferir automaticamente o dinheiro das famílias para as contas que pagam mais têm potencial de drenar os depósitos baratos que os bancos usam para conceder crédito, segundo o economista-chefe da Apollo Global Management, Torsten Slok.

Em depoimento exclusivo ao WB3News, Caio Mattos, fundador e CEO da NearX, confirma a tese de que agentes autônomos vão buscar rendimento sem fidelidade a nenhuma instituição, e que stablecoins só serão a alternativa escolhida se oferecerem o melhor retorno.

No Brasil, a movimentação automática de saldo entre contas já está em operação. As transferências inteligentes do Open Finance permitem programar transferências via Pix entre contas do mesmo titular em bancos diferentes, e desde 22 de junho de 2026 o cliente pode autorizar também o compartilhamento de dados de saldo e limite nessas movimentações. A oferta do serviço é opcional, mas o banco em que está a conta é obrigado a cumprir a ordem de transferência, segundo o Banco Central (BC).

Publicada no Daily Spark, boletim diário da Apollo, a nota de Slok afirma que o Muse, agente de IA pessoal lançado pela Meta em 8 de setembro, e assistentes semelhantes poderão em breve promover a migração do dinheiro das famílias para contas que pagam de 3,3% a 5,0% ao ano, em vez da média nacional de 0,1% das contas correntes nos Estados Unidos.

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O gráfico que acompanha o texto compara as taxas de fintechs e bancos digitais, como Revolut, SoFi, Varo Bank, LendingClub e Wealthfront, com a média do setor bancário. A taxa nacional da conta corrente remunerada calculada pela FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation, agência federal de garantia de depósitos dos EUA) estava em 0,07% em setembro, mesmo patamar de janeiro.

A receita líquida de juros, diferença entre o que os bancos pagam aos depositantes e o que ganham com seus investimentos, responde por cerca de 30% dos lucros do setor no mundo e tende a se reduzir se a adoção de agentes de IA se generalizar, segundo a consultoria McKinsey. Slok, sócio e economista-chefe da Apollo, afirma:

“Se todas as famílias usassem agentes de IA para otimizar o retorno de seus saldos em caixa, os bancos poderiam perder uma grande parcela dos depósitos baratos dos quais dependem para conceder empréstimos, o que seria um problema para todo o sistema financeiro.”

A integração financeira do Muse, por enquanto, é restrita à leitura de dados. Segundo a Plaid, empresa que conecta o agente a mais de 12 mil instituições financeiras e aplicativos nos Estados Unidos, os usuários podem compartilhar com o Muse saldos, transações, investimentos e informações de financiamento imobiliário. O anúncio da Plaid, de 8 de setembro, não menciona transferências entre contas.

Bancos temem perder depósitos para stablecoins e para a IA, mostra pesquisa

O alerta de Slok foi publicado 12 dias depois de o Senado dos Estados Unidos rejeitar, por 49 votos a 50, a moção de encerramento de debate sobre o Digital Asset Market Clarity Act (CLARITY Act), projeto que criaria o primeiro marco regulatório abrangente para o mercado de ativos digitais no país, conforme noticiou o WB3News.

O rendimento pago por stablecoins foi uma das principais travas ao avanço da legislação. O lobby dos bancos argumentou que o pagamento de rendimento aos detentores reduziria os depósitos usados para concessão de crédito.

A conta corrente, alvo da nota de Slok, entra na categoria dos depósitos transacionais, a mesma que o TBAC (Treasury Borrowing Advisory Committee), comitê de executivos do setor privado que assessora o Tesouro americano no mercado de dívida pública, classificou como “em risco” de migrar para stablecoins em apresentação ao Tesouro em abril de 2025.

De acordo com o documento, os depósitos transacionais somavam US$ 6,6 trilhões no quarto trimestre de 2024: US$ 5,7 trilhões em depósitos à vista e US$ 0,9 trilhão em outras contas de movimento. Segundo o TBAC, o crescimento das stablecoins tende a elevar a demanda por títulos do Tesouro americano à custa de depósitos bancários, com demanda adicional estimada em cerca de US$ 900 bilhões.

Os bancos americanos apontam as stablecoins e a IA como vetores de risco. Em pesquisa da IntraFi com 402 executivos de bancos, divulgada pela S&P Global Market Intelligence, 44% dos entrevistados consideraram algo provável e 19% muito provável perder um volume relevante de depósitos em dois anos se as stablecoins forem autorizadas a oferecer rendimentos ao portador.

Na mesma pesquisa, 52% apontaram as relações de depósito e pagamento como as mais ameaçadas caso o cliente passe a priorizar a consultoria de sistemas de IA em detrimento dos bancos em busca de orientação financeira.

Agente de IA vai atrás do rendimento, diz CEO da NearX

Na economia agêntica, nada garante que as stablecoins tenham preferência em relação às aplicações bancárias, segundo Caio Mattos, fundador e CEO da NearX, plataforma de educação e desenvolvimento de projetos em blockchain, tokenização e inteligência artificial:

“A ideia é que esses agentes busquem por melhores oportunidades de rendimento sem nenhum tipo de fidelidade, ou seja, se o melhor rendimento está em stablecoin, esse será o caminho escolhido, se não, ele tenderá a outro caminho.”

No mercado brasileiro, a stablecoin disputa espaço com o CDB (Certificado de Depósito Bancário) e com o Pix, segundo Mattos:

“No contexto Brasil já temos rendimentos excelentes em CDB e método de pagamento com liquidação instantânea. Onde a stablecoin traz valor é na exposição simplificada ao mercado internacional. Além disso, eu acredito que o acesso a ativos tokenizados trará ainda mais dinâmica para esse mercado. Imagina esse mesmo agente que busca por rendimentos ter acesso a ativos tokenizados de incorporadoras, FIDCs mais agressivos e tudo isso em escala global?”

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos do BC, é usado por 148 milhões de pessoas e 12,8 milhões de empresas. No Brasil, o acesso às stablecoins passa pelo Pix, explica Mattos:

“Para se ter acesso às stablecoins é necessário ter acesso ao que chamamos de ramp, que é o processo de transformar um ativo do mundo real em uma stablecoin. No nosso caso, o caminho lógico para os acessos aos ramps é: de Pix para stablecoin e de stablecoin para Pix.”

Agentes precisam de procuração para agir, propõe especialista da AGI Inc.

Ler dados e agir em nome do usuário vão exigir permissões diferentes, afirma John Park, especialista em IA e engenheiro de software da AGI Inc. Em depoimento compartilhado com o WB3News, Park defende o desenvolvimento de um “Pix para a IA”: uma base comum para reconhecer os agentes escolhidos por pessoas e empresas, com um “CPF para agentes”, que identificaria quem age e quem está por trás do programa, e uma procuração que especificaria o que o agente pode fazer.

A Receita Federal já permite a concessão de acesso a serviços por meio de procuração digital, e a proposta estende essa lógica a mais agentes, segundo Park:

“A procuração especificaria o que ele pode fazer. Ler documentos não dá direito a pedir um empréstimo. Fazer uma declaração não é o mesmo que enviá-la. O usuário definiria o prazo e os limites. E poderia voltar atrás.”

No sistema financeiro brasileiro, o consentimento dado no Open Finance pode ser cancelado a qualquer tempo, segundo o Banco Central, e a iniciação de pagamentos é feita por instituições autorizadas pelo BC como iniciadoras de transação de pagamento (ITPs), que não podem administrar contas nem ficar com os recursos transferidos.

Park cita Singapura como exemplo de cooperação entre Estado e empresas. A Autoridade Monetária de Singapura (MAS) publicou em julho um conjunto de salvaguardas para a adoção de agentes autônomos no setor financeiro. O documento desenvolvido com o auxílio de bancos e fintechs propõe execução limitada por políticas, validação em tempo real, auditoria completa e interoperabilidade entre sistemas.

Na proposta de Park, o governo reuniria órgãos e empresas para testar regras comuns, e os primeiros serviços a aceitar agentes seriam os mais utilizados, sem a troca simultânea de todos os sistemas do país. No entanto, a adoção tem custos e riscos, pondera Park:

“Os ganhos não são certos. Taxas altas podem deixar os pequenos de fora. Saber quem é um agente não prova que ele seja capaz. O projeto teria de proteger dados, definir quem é responsável por erros e manter serviços para quem não usa IA.”