Exclusivo: Laqus e Bitshopp concluem testes de debêntures tokenizadas no piloto da ANBIMA com emissão em 4 segundos
Testes cobriram desde a inclusão de participantes à distribuição dos tokens aos investidores finais.
- A criação de cada token levou quatro segundos por chamada de API, sem programação manual de contratos inteligentes.
- Os quatro segundos correspondem à criação do token, sem programação manual de contratos inteligentes; escritura, registro e validações jurídicas seguem fora desse fluxo.
A Laqus, depositária central de valores mobiliários autorizada pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários), e a Bitshopp, plataforma de tokenização de ativos do mundo real (RWAs), concluíram os testes previstos no projeto-piloto de tokenização da ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
As empresas emitiram duas debêntures tokenizadas e percorreram todas as etapas da operação com sucesso, afirmou com exclusividade ao WB3News Rodrigo Amato, CEO da Laqus:
"Os testes previstos no piloto da ANBIMA já foram concluídos, cobrindo toda a jornada de emissão de debêntures tokenizadas. Foram emitidas 2 debêntures e os testes cobriram desde a inclusão de participantes até a distribuição dos tokens para os investidores finais."
O projeto-piloto da ANBIMA selecionou 20 propostas entre as 39 inscritas por mais de 50 instituições. As propostas estão divididas em três casos de uso: dez testam debêntures e fundos na mesma infraestrutura, sete testam a emissão, a gestão e a liquidação de debêntures nativamente digitais, e três testam fundos operados por contratos inteligentes. O consórcio formado pela Laqus e a Bitshopp integra o grupo de sete propostas de debêntures, ao lado de B3, BTG Pactual e dos consórcios formados por Mercado Bitcoin e Capitare, Banco Santander e Evertec, Banco BV, Banco Inter e Kaleido, e BZLog, Finchain, Finventures e Dojo.
Os testes correm em ambiente controlado, sem movimentação de recursos reais e sem a participação de investidores, e a fase prática começou em julho de 2026, com duração prevista de cerca de seis meses. Cada grupo produzirá um relatório com suas conclusões ao fim do processo, disse Amato.
Emissão do token em quatro segundosOs quatro segundos para emissão correspondem à criação do token na rede, e não ao conjunto da operação, explicou Amato:
"Os quatro segundos correspondem à criação do token na rede blockchain, ou seja, o momento em que ele é configurado e registrado com suas regras operacionais por meio de uma chamada de API. O diferencial está na eliminação da programação manual de smart contracts e das auditorias, que tornam o processo lento e custoso, justamente a parte que hoje trava o mercado."
As demais etapas seguem o rito atual. "Escritura de emissão, registro regulatório e validações jurídicas ocorrem fora desse fluxo, seguindo os processos estabelecidos pela CVM", afirmou o executivo.
Pela proposta apresentada pelas empresas, a solução registra a debênture em blockchain e automatiza o pagamento de juros, a amortização, a liquidação financeira e o registro das movimentações. A Laqus entra com a infraestrutura regulada e a governança dos ativos, e a Bitshopp, com a infraestrutura de tokenização e o desenvolvimento em blockchain.
As debêntures concentram o maior volume de ofertas do mercado de capitais brasileiro, e a solução desenvolvida pelo consórcio pretende tornar mais eficiente o ciclo de vida desses títulos. "O mercado de debêntures movimenta quase R$ 1 trilhão por ano e ainda opera com processos que não acompanham essa escala", disse Amato.
As ofertas de debêntures somaram R$ 492,8 bilhões em 2025, e o valor negociado no mercado secundário chegou a R$ 947,4 bilhões no mesmo período, segundo a ANBIMA. O mercado de capitais brasileiro como um todo registrou R$ 838,8 bilhões em ofertas no ano, o maior volume da série histórica iniciada em 2012.
Amato explicou ainda que a solução "roda na rede e na plataforma da ANBIMA, ou seja, todos os tokens, smart contracts, wallets e afins rodam a partir dessa solução".
A infraestrutura usa a tecnologia Besu, rede blockchain permissionada mantida pela Linux Foundation e adotada nas duas primeiras fases do piloto do Drex. Os gargalos de privacidade que travaram o Drex, projeto de moeda digital brasileira conduzido pelo Banco Central, são endereçados por permissionamento, afirmou o CEO da Laqus:
Piloto de tokenização da CVM"A privacidade é tratada a partir de nós na rede com permissionamentos específicos onde somente os participantes habilitados em cada oferta podem interagir com o token".
"A parceria entre Bitshopp e Laqus é exclusivamente para o projeto ANBIMA" e não será testada no piloto da Comissão de Valores Mobiliários, disse Amato. A Laqus não integra diretamente o GTT (Grupo de Trabalho de Tokenização) da CVM, criado pela Portaria CVM/PTE 177, de julho de 2026, e responsável pela minuta do Programa Piloto DLT CVM entregue ao Colegiado da autarquia em 15 de setembro.
A minuta entregue ao Colegiado prevê operações simuladas de emissão, oferta, distribuição, negociação, escrituração, custódia, depósito centralizado e liquidação de ações, debêntures, certificados de recebíveis e cotas de fundos em redes de DLT (tecnologia de registro distribuído). Os testes duram 60 dias, prorrogáveis por mais 30, e a CVM terá acesso de leitura em tempo real dos registros. Pelo texto, podem gerir as redes de teste os membros externos do GTT que sejam associações representativas de entidades autorizadas pela autarquia e entidades autorreguladoras do mercado de valores mobiliários.
A Laqus participa do GTT por meio da APIIMF (Associação Para Interoperabilidade das Infraestruturas de Mercado Financeiro), afirmou Amato, que preside o Conselho CVM da associação:
"Os trabalhos do GTT têm relação intrínseca com o papel das infraestruturas e, para que o uso destas novas tecnologias tenha rápida adoção e entregue o benefício de supervisão que o regulador espera, as infraestruturas terão papel fundamental, por isso sua admissão no grupo e participação."
Otto Lobo, presidente da CVM, afirmou no Digital Assets Conference, em 16 de setembro, que a autarquia será agnóstica em relação à tecnologia e que caberá ao mercado definir quais estruturas prevalecerão. Para Amato, o modelo previsto na minuta é o mais apropriado, e o critério de gestão das redes exige uma separação clara de papéis:
"O tema central passa a ser a interoperabilidade entre as redes e entre as infraestruturas que as operam. Os autorreguladores não são operadores de redes ou mesmo seus idealizadores ou hospedeiros, eles são consumidores de informações como qualquer outro participante e é importante que se faça essa distinção. Autorregulador não é infraestrutura de mercado, são papéis cujas responsabilidades e alcance são bem diferentes."
Em entrevista ao WB3News publicada em 17 de setembro, a advogada Jéssica Mota, especialista em estruturação de operações financeiras com uso de tecnologia, defendeu um caminho oposto: um padrão único definido pela CVM, nos moldes do que o Banco Central fez com o SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro) e o SPI (Sistema de Pagamentos Instantâneos).
Na avaliação do CEO da Laqus, a opção por um padrão único embute os riscos de frear a inovação e isolar o mercado brasileiro:
Transição para ecossistema 100% on-chain"Sobre o padrão único, há um risco inerente nisso que é o do congelamento da tecnologia, que evolui cada vez mais rápido, bem como a eventual alienação de padrões globais distintos, que podem ser adotados em outras jurisdições à medida que a tecnologia avance. O regulador deve ser principiológico, de forma a definir em regra aquilo que se espera dos operadores de redes e suas responsabilidades, deixado a critério do mercado escolher ou evoluir a tecnologia mais eficiente e que permita o seu desenvolvimento."
Entre os três modelos de tokenização avaliados pela CVM, a Laqus tem predileção por aquele em que o valor mobiliário nasce e circula inteiramente em redes de registro distribuído (DLTs), do registro à liquidação. No entanto, Amato admite que a migração dos participantes do mercado para um ecossistema totalmente on-chain ainda é um entrave:
"A solução preferida seria a arquitetura criptonativa considerando todo o lifecycle dos valores mobiliários em DLT, mas os desafios para migrar todos os demais participantes para uma estrutura 100% on-chain tende a ser uma barreira de curto/médio prazo."
A estratégia da empresa para atravessar esse período de transição envolve a incorporação da Estar.Finance, plataforma de negociação de ativos tokenizados que opera no sandbox regulatório da CVM, na qual já são negociados tokens de dívida. A Laqus concluiu a compra da plataforma em maio de 2026 e protocolou em agosto o pedido de autorização definitiva, que ainda está sob análise da autarquia.
"A Laqus tem planos de estabelecer uma estrutura híbrida junto à Estar.Finance para entregar a flexibilidade que o mercado demandar até que os demais participantes consigam adaptar suas soluções e processos para este tipo de oferta", afirmou Amato.