Cofundador da Nomad lança plataforma que usa IA para converter "capital intelectual" em renda
Usuário vai definir o preço do acesso ao seu acervo pessoal, por consulta ou assinatura, e quem consulta recebe respostas, sem acesso aos documentos originais.
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Marcos Nader, cofundador da Nomad, lançou em fase beta o MyBrain.ai, que reúne o conhecimento do usuário num acervo privado. O dono do acervo vai definir o preço do acesso, por consulta ou assinatura, e quem consulta recebe respostas de um chat, sem ver os documentos, disse Nader ao WB3News.
- PL da IA em tramitação no Congresso não protege a forma como uma pessoa pensa, afirma Marcos Nader, fundador do MyBrain.ai.
- O MyBrain.ai também vai construir réplicas digitais, a partir do acervo do usuário, diz Nader.
Uma plataforma brasileira lançada em fase beta promete transformar o conhecimento individual em um ativo monetizável com agentes de inteligência artificial (IA). Idealizada por Marcos Nader, cofundador da Nomad e da Comprova, o MyBrain.ai reúne o serviço reúne arquivos, notas, memórias de chats de IA e entrevistas por voz em acervos privados de usuários individuais.
O licenciamento desses acervos, que vai permitir a terceiros e a modelos de IA consultá-los mediante pagamento, está no centro do roadmap da empresa, afirmou Nader em entrevista exclusiva ao WB3News:
Soberania intelectual"Cada usuário vai definir quando e como licenciar o seu conhecimento. O preço será definido pelo usuário e poderá ser por acesso ou assinatura. O consumo desse conhecimento será feito por uma ferramenta de chat compartilhada pelo usuário, sem acesso direto aos documentos armazenados. É uma IA pessoal monetizável."
O MyBrain.ai se baseia no conceito de "soberania intelectual". Em um mundo cada vez mais digital e automatizado, é fundamental que os indivíduos mantenham o controle total sobre a propriedade e a privacidade de seu próprio acervo cognitivo e patrimônio de conhecimento, defende o executivo.
Na prática, a plataforma funciona como um cofre privado, onde cada pessoa guarda o que sabe e a sua forma de pensar, sem que os dados sejam expostos ou recolhidos por modelos de terceiros sem consentimento, explica Nader:
"Esse conceito ganha centralidade com a aceleração da inteligência artificial porque os grandes modelos de mercado frequentemente se apropriam de conteúdos e raciocínios humanos para treinamento sem pedir autorização ou oferecer remuneração aos autores. O MyBrain.ai surge justamente para garantir que o conhecimento humano continue tendo autoria reconhecida e que qualquer uso por terceiros ou IAs ocorra dentro de um ambiente seguro e controlado pelo próprio usuário."
A possibilidade de rentabilizar esse conhecimento em patrimônio individual é um dos pilares da plataforma. "Estamos todos acostumados a trabalhar, poupar e investir em ativos financeiros e imobiliários, mas o nosso principal patrimônio, nosso conhecimento e inteligência, morre com a gente, mas nós podemos rentabilizá-lo", afirma Nader.
A plataforma também promete organizar a herança digital dos usuários, permitindo que eles determinem em vida o destino do acervo em caso de morte, segundo o executivo.
Agente de IA entrevista usuário "como se ele estivessem num podcast"Todo o processo de captura, processamento e armazenamento do conhecimento já está disponível na versão beta do MyBrain.ai. Para organizar seu acervo pessoal, o usuário pode conectar sua conta na plataforma a serviços como Notion, Google Drive, Dropbox, OneDrive e Obsidian, além de perfis no LinkedIn e no Instagram, links da web e arquivos locais. A plataforma também capta artigos, matérias e entrevistas em texto, áudio e vídeo a partir de links da web e importa materiais gerados pelo uso de chats de IA como ChatGPT, Claude, Gemini, Perplexity e Grok.
Ideias e conceitos que ainda não estão registrados em documentos podem ser adicionados ao acervo por meio da Maia, agente de IA capacitado para fazer entrevistas e atuar como ghost writer digital. O agente conduz as conversas por voz ou por texto, no ritmo e no estilo configurados pelo usuário, e entrevista o usuário "como se ele estivesse num podcast", afirma Nader.
Ao fim de cada sessão, os algoritmos da plataforma extraem novos conceitos e refinam o Grafo de Conhecimento (knowledge graph) do usuário, que registra o conhecimento explícito, o raciocínio, os critérios de decisão e a linguagem de cada pessoa. O acervo pode ser explorado por meio de um chat, nos moldes das plataformas de IA, e por uma página Wiki pessoal que organiza todas as informações, de acordo com Nader.
A fase de convites começou em outubro para mais de 500 inscritos no Brasil e nos Estados Unidos, e a abertura geral está prevista para novembro. O acesso é gratuito durante a fase beta. Depois dela, os planos Pro e Max vão custar R$ 139 e R$ 499 por mês, informou Nader. A versão gratuita fica limitada a 50 fontes de conhecimento.
O modo privado é o padrão de processamento de informações durante o beta, segundo a página de segurança da plataforma. "No modo privado, o conteúdo privado do usuário é processado por modelos abertos que rodam na nossa própria infraestrutura", afirma Nader. O acervo não é usado para treinar modelos externos e pode ser baixado ou excluído a qualquer momento, acrescenta o executivo.
A página de segurança, atualizada em setembro, lista três fluxos que ainda usam um provedor externo, a OpenAI, no modo privado. São a leitura do perfil público do usuário no LinkedIn durante o cadastro, um resumo dos cinco temas principais do usuário, usado na mensagem de boas-vindas, e a pergunta enviada quando a plataforma faz buscas na web. No modo Qualidade, opcional, o conteúdo vai a provedores externos de IA para gerar respostas melhores. Nos dois modos, os provedores são proibidos por contrato de treinar modelos com os dados, de acordo com a empresa.
Réplica digital vem como consequência do acervo, diz Nader sobre concorrentesA Twin1, startup de San Mateo, na Califórnia, levantou US$ 20 milhões em rodada seed para construir gêmeos digitais de profissionais. Os sistemas replicam o conhecimento, o julgamento e o estilo de comunicação de cada funcionário, e a rodada teve participação da Aramco Ventures. A Delphi, que cria réplicas digitais de especialistas e criadores de conteúdo, inclui a monetização entre os recursos do plano voltado a celebridades e personalidades públicas.
Na Twin1 e na Delphi, a réplica digital do especialista é o próprio produto. Nader aponta a privacidade do processamento e o que entra no acervo, com a entrevista da Maia e a importação de memórias de outros chats, como duas das três frentes que diferenciam o MyBrain.ai das concorrentes:
"Réplica digital é um caminho natural para esse mercado, inclusive para nós. A diferença está no ponto de partida. O produto do MyBrain é o conhecimento da pessoa, tratado como um ativo que pertence a ela. A réplica vem como consequência disso."
A terceira frente trata do licenciamento, que ainda está em desenvolvimento, acrescenta Nader:
PL da IA deixa de fora a forma como a pessoa pensa, afirma Nader"Quando a pessoa quiser abrir esse conhecimento para outros, inclusive cobrando, é ela quem decide quem consulta, para quê e por quanto tempo. E quem consulta recebe respostas, não o acervo."
Os planos da empresa incluem o licenciamento de conteúdo para as plataformas de IA. Nesses casos, a empresa atuaria como intermediária em acordos para que modelos de IA remunerem criadores e especialistas sempre que seu conhecimento for usado para treinar algoritmos.
O Projeto de Lei 2338/2023, que regula o uso da IA no Brasil, prevê remuneração pelo uso de obras protegidas por direito autoral. Aprovado pelo Senado em 10 de dezembro de 2024, o texto permite ao titular proibir o uso de suas obras no desenvolvimento de sistemas de IA e garante remuneração quando elas forem usadas em sistemas comerciais. A remuneração pode ser negociada de forma direta ou coletiva, segundo o texto aprovado.
Na Câmara dos Deputados, o projeto aguarda o parecer do relator, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), na Comissão Especial sobre Inteligência Artificial. Em 24 de agosto, Ribeiro afirmou que a votação ficaria para depois das eleições de outubro, segundo o Monitor Legislativo e Regulatório de IA.
Nader afirma que o projeto aprovado no Senado protege a obra, ou seja, a expressão, como o texto, a música e a imagem. No acervo de uma pessoa, obras como artigos, livros ou palestras estão protegidas pelo projeto, mas a Lei de Direitos Autorais exclui as ideias, os sistemas e os métodos, destaca o executivo:
"O que não está protegido é justamente o mais valioso: a forma como ela pensa, conecta informações e decide. Duas pessoas com a mesma formação raciocinam de jeitos diferentes, por causa da experiência, dos interesses e até do esporte que praticam. Quando uma IA aprende com isso, está consumindo a capacidade de pensar de alguém. Esse conhecimento fica fora tanto da remuneração quanto do direito de oposição que o PL prevê para os autores."
Ainda que não haja previsão em lei, esse conhecimento disperso pode ser protegido, com contratos de licença de acesso e pelo sigilo, já que o acervo nunca sai da plataforma, afirma o executivo:
"A nossa leitura é que essa proteção não vai vir só da lei. Ela depende de a pessoa ter o controle do próprio acervo: saber onde ele está, quem acessa e para quê. Hoje as plataformas de IA cobram pelo acesso a uma inteligência genérica. O caminho que enxergamos é o contrário: quem tem uma inteligência especializada, pessoal e singular decide se ela vai ser usada, por quem e em que condições, e pode cobrar por isso."
Antes do MyBrain.ai, Nader fundou a Comprova, empresa de certificação digital e assinatura eletrônica vendida à DocuSign em 2014, e, em 2019, a Nomad, fintech de serviços financeiros que oferece conta em dólar para brasileiros, com Patrick Sigrist e Eduardo Haber.
Para justificar o modelo proposto pela nova empresa, Nader compara a transformação do conhecimento em produto monetizável ao da música na era digital:
Leia Também"O Napster provou que havia demanda por música digital antes de existir um meio legítimo de monetização, e o Spotify criou a infraestrutura técnica e contratual necessária para resolver o problema."