Nem bancos nem cripto: Apps de crédito são os que mais crescem na América Latina enquanto inadimplência cresce

Aplicativos de crédito lideram downloads na região, enquanto o rotativo do cartão registra 58% de inadimplência no Brasil, segundo relatório da AppsFlyer com Google Ads.

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  • Downloads de BNPL avançaram 58%, empréstimos de curtíssimo prazo 43% e crédito em geral 24% na região.
  • Apps de cripto registraram pico entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, na alta do bitcoin, e perderam força desde então.

 As categorias de aplicativo financeiro que mais crescem na América Latina não são banco digital nem corretora de criptoativos, e sim crédito: os downloads de apps "buy now, pay later" (BNPL, ou "compre agora, pague depois") subiram 58%, os de empréstimo de curtíssimo prazo atrelado ao salário (payday loans) avançaram 43% e os de crédito em geral, 24%.

Em paralelo, os níveis de inadimplência no rotativo do cartão atingiram 58% no Brasil. Na Argentina, são de 31,5% nas fintechs, contra 15% nos empréstimos pessoais bancários e 12,5% nos cartões. Os dados são da edição latino-americana do relatório The State of Finance for Marketers, publicada pela AppsFlyer em parceria com a Sensor Tower e o Google Ads.

O mesmo levantamento revela que a demanda por aplicativos de criptoativos está em queda: em mercados de regulação mais rígida, como o brasileiro, o desempenho da categoria espelha o ciclo global de preço. Os downloads subiram entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, quando o bitcoin rompeu os US$ 100 mil pela primeira vez, e caíram de forma acentuada ao longo de 2025, à medida que o preço se estabilizou em patamares elevados.

Segundo o relatório, os aplicativos de serviços financeiros somaram 1,3 bilhão de downloads na América Latina em 2025, alta de 8% sobre o ano anterior e segunda categoria mais baixada da região, atrás apenas dos utilitários. Em média, o usuário latino-americano de smartphones acessa hoje quase três aplicativos financeiros por mês, contra 1,7 em 2021.

A região abriga mais de 3.000 fintechs, número que cresceu 340% entre 2017 e 2023, segundo o relatório. Brasil, México e Colômbia respondem por mais da metade desse mercado.

Crédito cresce onde bancos não chegam

A expansão das categorias de crédito se deve à lacuna entre a necessidade de crédito por parte dos consumidores e o acesso restrito ao sistema bancário tradicional. Em uma região em que a inflação e o custo de vida geram demanda por liquidez de curto prazo, empresas que facilitam o processamento de empréstimos ocupam esse vácuo, segundo Jonathan Briskman, diretor de Insights de Mercado da Sensor Tower:

"As instituições tradicionais muitas vezes deixam grandes parcelas da população sem atendimento adequado. Assim, credores com soluções desenvolvidas prioritariamente para o mobile entram em cena." 

Já o BNPL — modalidade em que a loja parcela a compra no próprio checkout e um terceiro assume o crédito — oferece uma opção simples de finalização de compra, com alta taxa de conversão, acrescenta Briskman.

Cripto: downloads acompanham o preço

Os avanços na regulação dos criptoativos na região, com regras de conformidade mais rigorosas, elevaram a barreira de entrada da categoria, aponta o relatório. "Os downloads na região atingiram o pico entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025, impulsionados pela forte alta do bitcoin no mercado global", diz Briskman.

No entanto, depois que o bitcoin superou a marca de US$ 100 mil pela primeira vez, o interesse pelos aplicativos de cripto diminuiu. "Sem a perspectiva de ganhos especulativos rápidos, a demanda dos consumidores esfriou", explica o pesquisador.

Em 2025, no Brasil, os aplicativos de criptoativos registraram uma queda de 38% no total de downloads na comparação com o ano anterior.

A exceção à regra foi a Bolívia. Depois que o Banco Central do país suspendeu, em junho de 2024, a proibição à negociação de criptoativos que vigorava havia uma década, a demanda disparou, e os downloads se mantinham próximos da máxima histórica em junho de 2026.

Segundo Briskman, a tendência é que, com maior clareza regulatória, os criptoativos se tornem "soluções financeiras de uso cotidiano" na região.

Fragmentação é a principal característica do mercado

O relatório apresenta um cenário fragmentado na região. O Nubank, maior banco digital da América Latina, liderou o total de downloads de julho de 2025 a junho de 2026, totalizando 45,8 milhões. Ainda assim, esse número representa apenas 13% do mercado de aplicativos bancários. Os cinco maiores aplicativos somaram menos da metade do total.

Mais de 2/3 dos downloads do Nubank foram feitos no Brasil, onde o banco lidera o segmento de apps bancários por larga margem – 32,9 milhões, contra 21,7 milhões da Caixa. O banco digital também vem crescendo na Colômbia, onde ocupou a vice-liderança, e no México, em que está em terceiro lugar.

O relatório destaca que "os bancos ficaram em primeiro lugar no Brasil, no México e na Colômbia, enquanto as carteiras digitais e os pagamentos P2P lideraram na Argentina e no Chile."

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Segundo o relatório, a disputa não termina na instalação:

"Os consumidores raramente dependem de um único aplicativo financeiro. Eles utilizam bancos, carteiras, instituições de crédito e plataformas de investimento simultaneamente. O objetivo não é apenas garantir uma instalação, mas tornar-se o app que os usuários priorizam e confiam."

Em países como Peru e Chile, os principais aplicativos atingem cerca de 25% dos downloads ao oferecer soluções desenhadas para o celular a populações antes excluídas do sistema bancário. Em mercados consolidados, como o brasileiro, o crescimento depende menos de conquistar novos usuários e mais de ampliar a oferta sobre a base existente, até que o aplicativo se torne a conta financeira principal do cliente.

Em um mercado fragmentado, ganham vantagem em retenção e em valor ao longo da vida do cliente aqueles que concentram pagamento cotidiano, crédito e gestão de patrimônio no mesmo lugar, afirma Ezequiel Vannucchi, especialista em finanças da AppsFlyer na América Latina:

"À medida que os usuários passam a utilizar diversos aplicativos conforme suas necessidades, conquistar a preferência deixa de ser o objetivo final e se torna uma disputa constante. Cada produto compete pela preferência dos usuários em uma área específica da sua vida financeira e cada interação é uma oportunidade de fortalecer esse vínculo."

Vinicius Trein, gerente executivo de Growth do PicPay, vai além e diz que "ter milhões de contas, por si só, não é mais um indicador de sucesso". "O que importa é a retenção de clientes qualificados, a eficiência em cross-selling e a capacidade dos clientes em construir relacionamentos com múltiplos produtos ao longo do tempo", acrescenta.

Pix e OpenFinance tornam o Brasil um caso único

O Brasil é o caso mais avançado da região na combinação de uma infraestrutura pública de pagamento, o Pix, com outra de compartilhamento de dados, o Open Finance. Com isso, segundo o relatório, os pagamentos digitais deixam de ser uma ferramenta de transação e passam a ser uma infraestrutura comercial. As oportunidades de crescimento se dão menos pela abertura de novas contas e mais pela profundidade da relação com quem já é cliente: se transferir dinheiro e levar o próprio histórico de um aplicativo a outro deixa de ter custo para o usuário, a instalação isolada perde valor como métrica.

Entre março de 2025 e março de 2026, os pagamentos via Pix de pessoa física para empresa (CPF para CNPJ) cresceram 32% e os pagamentos entre empresas avançaram 53%, enquanto as transações entre pessoas físicas subiram 8%. O ritmo desigual indica o deslocamento de um sistema que nasceu como ferramenta de transferência entre indivíduos para o uso comercial, destaca o relatório:

"O Pix [...] está criando uma estrutura de uso recorrente que permite às marcas atender seus clientes, gerenciar relacionamentos com lojistas e agregar valor financeiro às transações cotidianas."

No OpenFinance, o país registrava 128 milhões de consentimentos ativos em janeiro de 2026, segundo o mesmo levantamento — cada consentimento é uma autorização do cliente para que seu histórico financeiro seja compartilhado entre instituições.

A combinação do Pix com o OpenFinace oferece uma oportunidade única de transformar "a frequência de pagamento em relacionamentos financeiros mais profundos", segundo o relatório.

O sucesso do Pix explica por que o Brasil é o único país em que apps de finanças superam o segmento de varejo. "Em todos os outros países, o varejo continua na liderança", diz o relatório. "A diferença aumenta consistentemente na Argentina, passando pelo México, até o Chile, onde é mais ampla."

Nesse contexto, aplicativos como Mercado Pago, PicPay e o próprio Nubank, que reúnem serviços bancários, transferências, crédito e investimentos na mesma plataforma, têm vantagem sobre instituições financeiras tradicionais. O Mercado Pago é o líder no segmento de carteiras digitais na América Latina.

IA como canal de entrada

Briskman aponta a adoção de soluções de inteligência artificial (IA) para o usuário final como a principal tendência do mercado latino-americano no futuro próximo. Ele diz que a tecnologia está deixando de ser uma ferramenta de uso interno para ganhos de eficiência e produtividade para se tornar mecanismo de descoberta de produto, à medida que cada vez mais o consumidor recorre a plataformas de IA para aprender sobre finanças, pesquisar produtos e pedir recomendações. 

Os líderes regionais Nubank e Mercado Pago já oferecem soluções de IA para seus clientes, destaca o pesquisador:

"O Mercado Pago adicionou um assistente que ajuda os clientes com suas necessidades financeiras pessoais, enquanto o Nubank fechou uma parceria com o ChatGPT."

Os dados do relatório foram consolidados com base na análise de 750 aplicativos financeiros com no mínimo 1.000 conversões em mídia própria e 1,9 bilhão de instalações não orgânicas, em um total de 3,1 bilhões de instalações registradas entre o terceiro trimestre de 2024 e o segundo trimestre de 2026.

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