Integração entre liquidez de criptomoedas e RWA no Brasil esbarra na circulação restrita dos ativos tokenizados
Tokens RWA atraíram US$ 16 bilhões em doze meses e despontam como principal canal de liquidez para alta do mercado cripto, segundo a Wintermute.
- Os ativos tokenizados emitidos na rede da XDC Network no Brasil estão em blockchain pública, mas o investidor não consegue transferi-los para uma carteira própria nem usá-los como colateral.
- * Os certificados de recebíveis da Atlas Inc. não constam das listas usuais de colateral de bancos e câmaras, e a empresa ainda não fez operações utilizando-os como garantia.
Depois das ICOs, das stablecoins e dos ETFs, os ativos do mundo real tokenizados (RWAs) são o segmento com maior potencial para trazer dinheiro novo ao mercado cripto no próximo ciclo de alta, segundo análise da Wintermute, uma das maiores formadoras de mercado (market makers) do setor. Especialistas ouvidos com exclusividade pelo WB3News avaliam que a tese faz sentido, com uma ressalva para o mercado brasileiro: aqui, os ativos tokenizados ainda não circulam livremente entre plataformas, carteiras e protocolos.
Na prática, o investidor que compra um RWA emitido na rede pública da XDC Network no Brasil não consegue retirar o ativo da plataforma, transferi-lo para uma carteira própria, usá-lo como garantia em um protocolo de finanças descentralizadas (DeFi) nem negociá-lo livremente em mercados on-chain, segundo Diego Consimo, head da XDC Network na América Latina. Essa circulação é o mecanismo que, na análise da Wintermute, transforma a tokenização em canal de liquidez.
Publicado em 2 de setembro, o artigo "RWAs: The next liquidity channel" (RWAs: o próximo canal de liquidez), tem como ponto de partida a alta que encerrou um longo período de lateralização do mercado cripto. Em agosto, o bitcoin saiu da faixa dos US$ 63 mil para atingir máximas de US$ 79.306 – uma alta de 23% em 7 dias. No mesmo período, os ETFs voltaram a registrar saldo líquido positivo, e a oferta de stablecoins, que vinha na maior contração desde o colapso da Terra, parou de cair.
A volta desses fluxos pode sustentar uma recuperação, mas um ciclo completo de alta depende de capital novo entrando no mercado, capaz de trazer a liquidez represada, afirma a Wintermute:
“Todos os mercados de alta anteriores foram impulsionados por um novo canal de capital que escalou junto com a alta dos preços.”
Em 2017 e 2018, o capital de fundos de venture capital e as ofertas iniciais de moedas (ICOs) adicionaram liquidez ao mercado em escala institucional. Em 2020 e 2021, as stablecoins somaram mais de US$ 120 bilhões em emissão líquida em um único ano e formaram a base de capital on-chain que irrigou as finanças descentralizadas e impulsionou o ciclo das altcoins. Em 2024 e 2025, os ETFs registraram US$ 63 bilhões em fluxos líquidos, e as tesourarias corporativas de ativos digitais (DATs) acumularam mais de US$ 115 bilhões.
Em comum nos ciclos de alta anteriores, esses canais cresceram, atingiram o pico e se normalizaram, passando a incorporar a infraestrutura cotidiana do mercado cripto, que retira liquidez com a mesma facilidade com que a traz, segundo a Wointermute. O fluxo agregado de todos os canais chegou a 12% da capitalização do mercado cripto em 2021 e a 10% em 2025. No nível mais baixo recente, caiu para 2,4%: os fluxos de ETFs ficaram negativos, boa parte das DATs passou a ser negociada perto ou abaixo do valor patrimonial líquido, e a oferta de stablecoins teve a maior contração desde o colapso da Terra.
Nos ciclos anteriores, um novo canal de liquidez ganhava escala enquanto o anterior perdia força. “Desta vez, o canal em formação ainda é uma ordem de grandeza menor do que o necessário para sustentar o mercado, e a capacidade de chegar lá vai decidir o ciclo", afirma a Wintermute.
A capitalização de mercado dos tokens RWA praticamente triplicou em um ano, para a casa dos US$ 30 bilhões, e continuou crescendo enquanto a base de stablecoins encolhia, segundo a análise. Nos últimos doze meses, os RWA atraíram cerca de US$ 16 bilhões, em torno de um décimo do que ETFs e DATs somaram nos seus melhores doze meses no ciclo passado.
A Wintermute contabiliza em 18 meses o ciclo de vida dos tokens RWA. Considerando que as entradas nos últimos doze meses representam 0,9% da capitalização do mercado, o segmento fica à frente das DATs no mesmo período e logo atrás dos ETFs. Ambos atingiram o pico de entradas entre 20 e 60 meses depois de lançados: 20 meses no caso dos ETFs, 33 no das stablecoins e 54 no de venture capital e ICOs. "Cedo, não fracassando", afirma o texto.
A diferença em relação aos ciclos anteriores está na forma como o capital é canalizado, segundo a Wintermute. Nos casos do passado, havia sempre um comprador para um ativo específico: o capital de ICOs comprou tokens novos, as stablecoins financiaram DeFi e altcoins, e ETFs e DATs geraram demanda por bitcoin, ether e algumas outras altcoins de grande capitalização.
"A tokenização é diferente. O dinheiro compra Apple, ou um fundo de Treasuries, não um criptoativo. Mas agora ele está on-chain e, como resultado, mover esse capital para BTC ou altcoins se torna significativamente mais fácil", afirma a Wintermute.
A maior parte dos tokens RWA em circulação hoje está vinculada a produtos de gestão de caixa, como títulos do Tesouro americano e fundos de mercado monetário, mantidos em estruturas de acesso restrito. A infraestrutura que conecta esses produtos ao restante do sistema só foi ativada recentemente, segundo a análise. Os catalisadores apontados pela Wintermute são regulatórios, com leis de estrutura de mercado que ampliam quem pode deter valores mobiliários tokenizados e determinam como eles são transferidos, e mecânicos, com títulos e fundos tokenizados aceitos como colateral em protocolos DeFi.
A demanda por ativos tokenizados é maior entre o capital institucional, e menor por parte dos traders de criptomoedas, o que torna provável que um ciclo impulsionado por RWA seja "mais frio e mais longo", segundo a Wintermute:
No Brasil, tokens RWA enfrentam gargalos de liquidez"Estamos acompanhando de perto se o capital tokenizado dessas instituições começa a sair das estruturas fechadas, a aparecer mais como colateral e a continuar entrando em DeFi, gerando fluxos além da gestão de caixa, para validar nossa tese à medida que o ciclo se reinicia e entramos no próximo mercado de alta.”
No Brasil, as restrições à circulação do capital tokenizado são ainda maiores, segundo Consimo, da XDC Network, rede que liderava em fevereiro o ranking de blockchains usadas para emitir tokens RWA no país, segundo o RWA Monitor:
"Sim, a tese faz bastante sentido, mas com uma ressalva importante: não é simplesmente o crescimento da tokenização que necessariamente vai gerar um novo ciclo de liquidez no mercado cripto. O ponto mais interessante da tese da Wintermute é entender de onde vem esse capital e o que acontece com ele depois que o ativo é colocado on-chain."
No caso dos ETFs, o capital entra no mercado de ativos digitais, mas permanece dentro de uma estrutura financeira relativamente fechada, segundo o executivo. O investidor ganha exposição a bitcoin ou ether sem que esse capital passe, necessariamente, a circular on-chain.
Apenas o fato de títulos de crédito, fundos, recebíveis e ações estarem representados em blockchain, dentro de uma infraestrutura programável, não gera ganhos automáticos de liquidez, explica o executivo da XDC Network:
"O verdadeiro salto acontece quando esse ativo tokenizado consegue também ser utilizado como garantia, negociado, integrado a stablecoins, utilizado para obtenção de liquidez ou conectado a outros protocolos financeiros."
A XDC Network lidera o ranking de blockchains do RWA Monitor para ativos tokenizados no Brasil, com R$ 7,89 bilhões emitidos e captados. Liqi e Vera Capital concentram a maior parte das emissões, de acordo com Consimo, mas a circulação e os casos de uso ainda são limitados.
"Os RWAs da Liqi e da Vert Capital foram emitidos na rede pública da XDC, mas permanecem em ambientes controlados pelas próprias plataformas responsáveis pela emissão, distribuição e gestão dessas operações", afirma Consimo.
Segundo o executivo, a XDC Network resolveu a primeira camada do processo, que é colocar ativos reais em blockchain pública em escala institucional. A segunda camada, que transforma esses ativos em capital líquido, transferível e componível, ainda precisa ser desenvolvida plenamente, explica Consimo:
Atlas Inc.: Investidores de RWA e cripto não são os mesmos"Em outras palavras, o capital está on-chain do ponto de vista de emissão e registro, mas ainda não está necessariamente circulando on-chain. É justamente quando essa segunda etapa acontecer que a tese da Wintermute pode começar a produzir um efeito muito maior sobre a liquidez do mercado."
Alexandre Reda, fundador e co-CEO da Atlas Inc., empresa que estrutura certificados de recebíveis com registro e controle de titularidade em infraestrutura autorizada, vê uma interseção entre o investidor de RWA e o de criptomoedas, sem que os dois formem ainda o mesmo público:
"O investidor de criptomoedas normalmente parte de uma tese sobre um ativo digital, sua escassez, seu ecossistema ou seu potencial de valorização. Já o investidor de um RWA tende a partir do fundamento econômico: quem é o devedor, qual é o fluxo de caixa, o prazo, as garantias e a relação entre risco e retorno. Para ele, blockchain é infraestrutura, não necessariamente a tese de investimento."
Não se trata de transformar investidores tradicionais em traders de cripto. O maior potencial está em trazer para o ambiente on-chain um capital que hoje nem sequer participa desse mercado, afirma Reda:
"Na Atlas, estamos trabalhando exatamente nessa convergência. Fomos selecionados pelo programa de grants do XRP Ledger e estamos desenvolvendo uma infraestrutura para emissão, gestão e negociação de ativos tokenizados. Mas o principal desafio não é apenas tecnológico. É conectar tecnologia a enquadramento jurídico, custódia, distribuição, formação de preço e liquidez."
Na primeira emissão tokenizada da Atlas Inc., dezenas de investidores tiveram a posição espelhada em uma rede pública, e a maioria nunca havia usado uma carteira digital. A infraestrutura foi fornecida pela plataforma, e o investidor não precisou administrar chaves nem pagar taxas de rede.
"Para ele, a experiência foi a de comprar renda fixa; a blockchain funcionou como uma camada adicional de registro e verificabilidade", afirma Reda.
O Brasil já reúne ofertas de ativos tokenizados, blockchain pública, stablecoins, custódia, plataformas de negociação e prestadores de serviços de ativos virtuais, segundo Reda, sem ainda ter o constituído um circuito completamente integrado. Um token emitido em rede pública continua submetido às regras de cadastro, elegibilidade do investidor, suitability, custódia, transferência e liquidação aplicáveis ao direito ou valor mobiliário que ele representa.
"A blockchain muda a infraestrutura, mas não elimina o perímetro regulatório", afirma o executivo da Atlas Inc..
O processo de liquidação também precisa amadurecer, segundo a empresa. As stablecoins referenciadas ao real ainda não têm a profundidade, a liquidez e a distribuição institucional das stablecoins de dólar, e o Drex, com a segunda fase do piloto encerrada, ainda não funciona como trilho amplamente disponível ao mercado.
"Ainda não temos, em escala, uma experiência contínua em que o investidor mantém um RWA na mesma carteira, utiliza esse ativo como colateral e realoca o capital instantaneamente para outros ativos on-chain”, afirma Reda. "Então, a tese da Wintermute se aplica ao Brasil, mas provavelmente por um caminho diferente. Aqui, essa convergência deve começar de forma mais institucional e regulada, aproximando o mercado de capitais do ambiente on-chain, antes de chegar a uma integração mais ampla com DeFi", conclui.
Certificados de recebíveis da Atlas Inc. ainda não são usados como garantiaUm ativo da Atlas Inc. pode, em tese, ser oferecido como garantia pelo investidor a um banco, fundo ou outro credor em uma operação bilateral de crédito, desde que o credor aceite e saiba avaliar o ativo, segundo Reda. Os papéis da empresa, no entanto, não fazem parte das listas usuais de colateral de bancos e câmaras, e a Atlas Inc. ainda não realizou uma operação desse tipo.
Quando isso ocorrer, o mercado de RWA ganhará uma nova dimensão. Preço de referência, segurança na execução e aceitação pelas instituições são os três pontos em que o mercado ainda precisa avançar, segundo o executivo:
"Mas tokenizar não transforma automaticamente um ativo ilíquido em colateral líquido, nem melhora o crédito que está por baixo."
A principal ressalva de Reda à tese da Wintermute recai sobre a origem da liquidez:
Brasil tokenizou o ativo mas a infraestrutura de mercado ainda não"Tokenização não fabrica, necessariamente, liquidez. Liquidez exige um ativo de qualidade, distribuição, demanda secundária, formação de preço, custódia e segurança jurídica. A tecnologia reduz muito a fricção entre essas etapas, mas não substitui completamente todas elas."
O mercado brasileiro de tokenização somou R$ 4,84 bilhões em emissões no primeiro semestre de 2026, alta de 122% sobre os R$ 2,17 bilhões do mesmo período de 2025, segundo levantamento do RWA Monitor.
O país construiu um mercado relevante em originação e emissão de ativos financeiros reais em blockchain, principalmente em crédito privado, recebíveis, securitização e instrumentos de renda fixa. Alguns mercados internacionais estão mais avançados no que a Wintermute chama de canal de liquidez, com estruturas em que ativos tokenizados podem ser utilizados em operações de empréstimo, colateralização e liquidação em stablecoins.
No Brasil, a blockchain é usada principalmente como infraestrutura de emissão e registro, enquanto distribuição, custódia, negociação e relacionamento com o investidor continuam em ambientes controlados. "O Brasil avançou muito na tokenização do ativo. O próximo passo é avançar na tokenização da própria infraestrutura de mercado", afirma Consimo.
Emissão, negociação, liquidação, custódia, transferência e, eventualmente, colateralização precisam ocorrer de maneira integrada on-chain para esse próximo passo se completar, diz o executivo da XDC Network:
Leia Também"Quando um RWA puder circular, servir como garantia, gerar liquidez, interagir com stablecoins e participar de outros mercados on-chain, ele deixa de ser apenas um ativo tradicional registrado em blockchain. Ele passa efetivamente a fazer parte da economia blockchain. E é nesse momento que RWA pode deixar de ser apenas uma vertical de tokenização e se transformar em um verdadeiro canal de liquidez entre o mercado financeiro tradicional e o mercado de ativos digitais."