Tokenização é "bomba atômica" prestes a explodir, diz executivo da Caixa

Em painel que reuniu executivos do Banco do Brasil, da Caixa e do Itaú, o consenso foi que a tecnologia blockchain já é aceita internamente pelos grandes bancos.

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  • Tecnologia blockchain ainda é mal aproveitada no Brasil, segundo superintendente nacional de Operações Imobiliárias da Caixa Econômica Federal.
  • Para a Caixa, que detém 70% do mercado de habitação do país, a tokenização de imóveis emerge como o caso de uso mais imediato dentro do sistema financeiro nacional.


A tokenização de ativos reais ainda é uma "bomba atômica" pronta para explodir, mas ainda está sendo mal explorada" no Brasil, na avaliação de Marlon Machado, superintendente nacional de Operações Imobiliárias da Caixa Econômica Federal. 

"A blockchain é inevitável e o mercado financeiro é o melhor caso de uso para a tecnologia", disse Machado durante painel no Blockchain.RIO 2026. Para justificar seu otimismo, o executivo da Caixa recorreu a uma comparação com o Pix:

"A gente não precisava do Pix para nada. O cheque, o doc e o Ted funcionavam bem. Mas depois que ganhamos o Pix, surgiram coisas novas e agora não tem como voltar ao cheque."

Na leitura de Machado, tokenização e ativos reais seguem o mesmo caminho: "Sem a tecnologia, não é possível avançar nessa que é uma tendência global", afirmou.

Dificuldade de mudar o que já funciona

Para Sthéfano Cordeiro, especialista em ativos digitais do Banco do Brasil, o entusiasmo com uma tecnologia nova não basta:

"Uma tecnologia nova, por mais do que ela seja promissora, só tem utilidade se houver casos de uso relevantes. As soluções têm que facilitar a vida do cliente. O Banco do Brasil tem que atender todo mundo, independente do produto usar blockchain ou não. O cliente não tem que saber o que é uma ZKP [prova de conhecimento zero], mas sim que essa tecnologia é mais rápida e é segura."

Cordeiro reconheceu a tensão entre a funcionalidade do sistema legado e a pressão por inovação: "Hoje, nosso sistema financeiro é um dos melhores do mundo e funciona. Por que eu vou mudar uma coisa que está funcionando?"

Tokenização é solução para o financiamento imobiliário

A tokenização tem potencial para modernizar o financiamento imobiliário, afirmou Cordeiro:

"A Caixa tem 70% do mercado de habitação e a tokenização de imóveis é o caso de uso mais clássico que a gente pode adotar".

Segundo o executivo da Caixa, o financiamento depende dentro de um arcabouço legal que pode ser construído ne blockchain:

"Quando o banco vai fazer um financiamento imobiliário, você só pode passar o dinheiro para o cliente com todas as garantias. Se não foi por isso, a tecnologia deveria ter sido criada para esse fim. Além disso, aqui você não tem a sombra regulatória da tokenização de imóveis."

O obstáculo, segundo o executivo, não é a falta de casos de uso, mas a dificuldade de reunir todos os agentes envolvidos numa transação imobiliária. "A gente está falhando miseravelmente ao tentar agregar todos os atores. Eu preciso saber se o ITBI foi pago, quem é o proprietário segundo o registro de imóveis", disse, citando o imposto sobre transmissão de bens imóveis como exemplo do tipo de informação que hoje não circula de forma integrada entre os players do setor.
 

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No Itaú, o obstáculo foi interno antes de ser regulatório

Anderson Fernandes, líder de Estratégia Regulatória e Produtos de Ativos Digitais do Itaú afirmou que os grandes bancos aguardavam maior clareza regulatória e casos de uso comprovados para adotar a tecnologia:

"Existia demanda, embora não houvesse uma certeza sobre que dor essa tecnologia resolveria. Hoje todos os grandes bancos do Brasil têm departamentos dedicados à tecnologia."

A validação dos ativos digitais como produto e tecnologia envolveu um processo de "educação interna", explicou Fernandes:

"O Itaú é um banco já consolidado com ativos financeiros e valores mobiliários. Quando cripto entrou na agenda, nós tivemos que passar por um processo de educação interno em todos os departamentos".

A experiência acumulada do mercado tradicional, na visão do executivo, funciona como um atalho para não repetir erros:

"O mercado tradicional nos ensina muito com traumas do passado para a gente aprender e evitar cometer os mesmos erros."

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Confiança é a moeda que a tecnologia ainda não resolveu

Cordeiro trouxe a discussão para o terreno conceitual ao afirmar que a descentralização, ao mesmo tempo que é uma propriedade fundamental da tecnologia, cria novas demandas de governança:

"A blockchain foi criada em um ambiente de não confiança. E a principal moeda do sistema financeiro é a confiança."

Para o executivo, esse é um problema que a tecnologia sozinha não resolve:

"O sistema funciona em função de responsabilidades. Numa tecnologia de registro distribuído, não tem responsável."

A saída, segundo ele, passa por deslocar o foco dos ativos para o processo. "A gente sai da tokenização do ativo para a tokenização do processo. Não basta que apenas os bancos integrem o sistema, outros órgãos também têm que participar", afirmou, defendendo a criação de ecossistemas por segmento:

"Precisamos criar padrões e redes comuns, creio que por nicho: imobiliária, duplicata, fundos de investimento."

Machado encerrou com uma leitura sobre o timing da adoção e uma ressalva sobre o próprio discurso do setor. "Tá muito perto de a gente ver a eclosão desse movimento. Quando a Caixa está encampando a adoção da tecnologia, isso significa que isso está muito perto de acontecer", disse. Na visão do executivo, o excesso de foco em criptomoedas atrasou o debate:

"O que atrapalhou a blockchain foi falar demais de cripto. Empresas fora do mercado financeiro são nosso público-alvo."


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