Renan Santos quer tirar Brasil do "caminho arcaico" em cripto com reserva de bitcoin e revisão da regulação
No encerramento do Blockchain.RIO 2026, o candidato do Partido Missão defendeu o bitcoin como aposta geopolítica e acusou bancos de “captura regulatória”.
- Apesar da promessa de rever a regulação de criptoativos do Banco Central, Renan prometeu manter a independência da instituição.
- O candidato defendeu o uso de blockchain para rastrear emendas parlamentares e reduzir o desvio de recursos públicos.
Renan Santos, fundador do MBL e candidato do Partido Missão à Presidência da República, encerrou na quinta-feira, 13, o Blockchain.RIO 2026 com um pacote de promessas à comunidade cripto. Além da criação de uma reserva soberana de bitcoin, cuja proposta consta em seu programa de governo, Renan se comprometeu a revisar a regulação do setor que vem sendo implementada pelo Banco Central, impedir a cobrança de IOF sobre operações com criptoativos e desenvolver um projeto para usar blockchain no rastreamento de emendas parlamentares.
Bitcoin como “aposta geopolítica”Pregando a uma plateia de convertidos que não chegou a lotar o Main Stage do Blockchain.RIO, Renan afirmou que a decisão de constituir ou não uma reserva de bitcoin é, antes de tudo, um imperativo geopolítico.
Segundo o candidato, um mundo cada vez mais multipolar — com a ascensão da China e a formação de blocos regionais — reduz a confiabilidade do dólar como reserva de valor global no longo prazo, e o bitcoin, como um ativo neutro, tende a ganhar espaço nas reservas soberanas de bancos centrais:
“Dois pontos são fundamentais: um, porque é uma crença no nosso corpo político de que [o bitcoin] será uma reserva confiável em um mundo cada vez mais em crise. A ideia do dólar como moeda de reserva de valor global confiável, utilizada em todas as transações, quando você projeta um ponto futuro nas próximas décadas, ela não está tão certeira assim, com a ascensão da China, a formação de blocos regionais, a ideia dos Estados Unidos não mais como potência única.”
Renan associou a criação de uma reserva de bitcoin ao realinhamento da política externa brasileira em um contexto geopolítico fragmentado e multipolar, no qual ele não descarta uma “guerra quente entre China e Estados Unidos" que poderia desestabilizar o sistema financeiro mundial:
“Ora, se eu vou realinhar o comércio global e a diplomacia brasileira para esse contexto, por que que eu não vou realinhar também as reservas baseadas nisso? E é por isso que nós temos que ter uma reserva de bitcoin. Apenas uma questão de lógica: se a nossa política está orientada para essa perspectiva, então eu tenho que investir também nessa perspectiva.”
Assim como no caso de suas políticas de segurança pública, Renan admitiu que a proposta é inspirada no governo de Nayib Bukele em El Salvador. Não pela adoção do bitcoin como moeda de curso legal, mas pela construção da imagem de um país que é amigável a cripto e tecnologias emergentes. Segundo o candidato, o Brasil está no caminho errado:
"A questão toda é se nós seremos amigáveis com a reserva de valor favorita das novas gerações, ou se seremos arcaicos? E o Brasil já escolheu o caminho. Obviamente que o caminho é arcaico, porque a gente sempre gosta de errar."
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Para reverter essa condição e se tornar um país “crypto-friendly", o candidato se comprometeu a rever a regulação do setor implementada pelo Banco Central. Renan rejeitou a cobrança de IOF sobre operações com criptoativos e defendeu, no limite, uma tributação mínima apenas sobre o saque — a conversão de criptomoedas em reais.
Também criticou especificamente as exigências de capital mínimo para as Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) obterem licença operacional. O capital mínimo determinado pela Resolução Conjunta nº 14/2025 e pela Resolução BCB nº 517/2025 varia de R$ 10,8 milhões a R$ 37,2 milhões, a depender das atividades exercidas pelas empresas.
Na sequência, declarou que os grandes bancos brasileiros não lideraram nenhuma inovação relevante do setor na última década, mas agora querem impor uma regulação que os favoreça em detrimento das startups do setor:
Independência do Banco Central"O risco subjacente, como tudo que acontece no Brasil, é uma captura institucional: grandes players afastando os inovadores do setor, fechando o mercado para eles. A institucionalização é boa — os Estados Unidos foram por esse caminho. Dito isso, a inovação não surgiu deles. Falo dos bancões brasileiros: quase nenhuma inovação surge deles. E o que a gente vê nas discussões sobre a regulamentação é muito na linha do lobby dos bancões e do fechamento do espaço pros inovadores."
Apesar das críticas à regulação, Renan garantiu que não pretende limitar a autonomia do Banco Central, pelo menos no que diz respeito à política monetária:
"Eu gosto do Banco Central independente. Nós não vamos alterar, foi um avanço civilizacional que a gente teve. E a minha relação com ele vai ser de uma simplicidade atroz: eu corto o gasto daqui, e você se sente livre para baixar os juros dali."
O compromisso de não tocar na autonomia do BC, no entanto, contradiz a ideia de redesenhar a regulação do mercado cripto. É o Banco Central, sob a Lei 14.478/2022 (Marco Legal dos Criptoativos), quem edita as normas que regulam as prestadoras de serviços de ativos virtuais no país.
Rever essa regulação, como prometeu ao criticar o "lobby dos bancões", significa alterar normas de competência do próprio Banco Central — a menos que a revisão venha por meio de aprovação de uma nova lei para os criptoativos no Congresso Nacional.
Blockchain como antídoto contra a "caixa-preta" das emendas parlamentaresApesar de admitir que não tem conhecimento técnico suficiente sobre as tecnologias de registro distribuído, Renan também mencionou que, em seu governo, a blockchain poderia ser utilizada para rastrear a execução de emendas parlamentares.
"Vocês estão falando com um cara de humanas, leigo em programação. Mas, falando em termos principiológicos, não apenas faz sentido: é uma ferramenta que a gente tem pra pegar na unha aquilo que vai ser a base do novo modelo de administração que eu vejo pro Brasil."
Para o candidato, a rastreabilidade da blockchain ataca uma falha estrutural da administração pública brasileira: casos de corrupção e desvios de verbas, especialmente em municípios dependentes de repasses federais não vinculados a indicadores de desempenho.
“Nessa lógica, com um dinheiro que não é rastreado e com a inexistência do sistema de metas, o que a gente tem é como se fosse um sistema falido de extração de recursos da população produtiva que é enviado para Brasília e redistribuído majoritariamente e preferencialmente para políticos que não tenham nenhum compromisso com o resultado e para uma população que não tá produtiva", afirmou.
“O que a gente precisa é de uma lei de responsabilidade gerencial. Nós vamos estabelecer indicadores de desempenho metrificáveis e aferíveis.”