Mercado – e não a regulação – vai definir quem "fica de pé" no ecossistema cripto no Brasil, diz CertiK
Em entrevista exclusiva ao WB3News, Jason Jiang, diretor de negócios da CertiK, afirma que a regulação é um sinal de que cripto tem utilidade real e a sociedade já aceita a tecnologia.
- Só resistem à seleção natural do mercado empresas e projetos que realmente beneficiam o consumidor, diz Jason Jiang.
- Prestadoras de serviços de ativos digitais (PSAVs) têm até 30 de outubro para encaminhar pedido de autorização ao Banco Central.
O próprio mercado descarta aquilo que não traz benefícios ao usuário final — e não a regulação, afirma Jason Jiang — , diretor de negócios da CertiK. Para o executivo, isso é a prova de que a tecnologia funciona e vem ganhando aceitação da sociedade. "A tecnologia blockchain é bem mais avançada do que as instituições ou sistemas financeiros existentes", disse Jiang em entrevista exclusiva ao Web3News, concedida durante o Blockchain.RIO 2026.
Um relatório divulgado pela própria CertiK durante o evento reforça essa leitura com números: o Brasil é o quinto maior mercado do mundo em adoção de criptoativos, com US$ 318,8 bilhões movimentados em 12 meses, mesmo com a construção de um dos desenhos regulatórios mais rigorosos do mundo. O país é uma das únicas jurisdições que exige das empresas provas de capacidade técnica já no pedido de autorização, e não apenas ao longo da supervisão.
Jiang tem participado ativamente do processo de readequação jurídica do ecossistema cripto brasileiro, pois a CertiK presta serviços de auditoria e certificação para empresas que buscam a autorização do Banco Central para operar no Brasil sob o novo regime regulatório.
Regulação não deve ser encarada como obstáculoO executivo avalia que a abordagem regulatória brasileira é, de forma geral, positiva:
"Ajuda na adoção em massa e mostra que a sociedade em geral está aceitando essas ideias. Mas, ao mesmo tempo, também é inegável que aumenta a barreira de entrada. Novos entrantes precisam construir uma infraestrutura que seja aceitável pela regulação."
Jiang reconhece que as normas editadas pelo BC vão provocar uma reconfiguração do mercado em benefício de instituições financeiras estabelecidas, limitando o espaço de startups criptonativas:
"Do nosso ponto de vista, há uma tendência dominante, agora, de adoção institucional de ativos digitais. E, como as grandes instituições têm diversas ferramentas e um alcance maior no varejo, a gente acredita que elas vão ficar com uma fatia maior do mercado. Inevitavelmente, os players menores vão ter que procurar outras alternativas. Mas, ao mesmo tempo, a blockchain sempre premia as inovações. Então, quando uma nova ideia aparece, ela ainda pode criar maravilhas.
Apesar dessa ponderação, o executivo evitou comparar a regulação brasileira à de outros mercados de forma negativa. Ao contrário, destaca que o país está entre os líderes do movimento de integração do ecossistema de ativos digitais ao sistema financeiro:
"Até agora, o Banco Central do Brasil está buscando uma espécie de meio-termo entre a abordagem americana e a europeia, implementando alguns dos controles mais atualizados para essa indústria. Cada região tem ênfases diferentes: nos EUA, o GENIUS Act criou uma forma eficaz de controlar o mercado de stablecoins. Já o MiCA [Markets in Crypto-Assets] é muito mais focado na proteção ao consumidor. Cada região tem suas próprias nuances e o Banco Central do Brasil tem ângulos bem complexos para equilibrar. Isso é sempre desafiador. Não sei se é a regulação mais avançada, mas certamente está entre as cinco mais completas do mundo."
As prestadoras de serviços de ativos digitais (PSAVs) — uma nova categoria criada pela Resolução BCB 520 — precisam protocolar pedido de autorização ao Banco Central até 30 de outubro, com capital mínimo entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, dependendo da categoria. O documento estima que, hoje, cerca de 120 empresas prestam serviços de ativos digitais no país, a maioria sem licença formal.
Em maio, o BC determinou que o pedido de autorização precisa vir acompanhado de uma certificação de auditoria independente, emitida por uma empresa registrada na Comissão de Valores Mobiliários. A CertiK criou um termo novo para caracterizar essa exigência: "Proof Shift". Na prática, a prova de capacidade técnica deixou de ser recomendação de boa prática para virar requisito documental da própria solicitação.
Esse ponto específico preocupa Jiang: o mercado brasileiro enfrenta escassez de auditores qualificados para emitir esses relatórios em tempo hábil. Segundo ele, o Banco Central já sinalizou, em conversas com a indústria, que avalia algum tipo de prorrogação, mas até agora manteve o cronograma inalterado:
"Isso demonstra a disposição do Banco Central em ouvir as opiniões da indústria. Mas, por outro lado, prazos são prazos, e as empresas simplesmente precisam acelerar."
Para o advogado Marcos Rocha, do escritório Veirano Advogados, o erro mais comum entre as empresas é subestimar a complexidade do processo: quem espera a aprovação da primeira fase para só então preparar a documentação da segunda tem apenas 60 dias para entregá-la, sem garantia de que o Banco Central vá agir rápido. "Nossa recomendação, portanto, é abordar o processo de autorização como um projeto único e integrado desde o início", afirmou.
Relatório mapeia zonas cinzentas da regulaçãoApesar dos elogios de Jiang ao BC pela condução do processo, nem tudo no novo arcabouço regulatório está definido com clareza. O relatório dedica um capítulo a cinco zonas cinzentas que, segundo a CertiK, concentram as decisões mais importantes nesse momento. A primeira é a linha entre carteira não-custodial e custódia de fato — arranjos de recuperação assistida ou computação multipartidária ficam num meio-termo que ainda não tem resposta fechada.
A segunda envolve fintechs e empresas de pagamento que oferecem exposição a cripto via parceiros, sem que fique claro quem assume as responsabilidades determinadas pelas novas regras.
A terceira é a fronteira entre a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central. Segundo o relatório, a CVM já reafirmou publicamente que uma ação tokenizada continua sendo uma ação, e que a autorização como PSAV não dá a uma plataforma o direito de oferecer valores mobiliários, derivativos ou futuros tokenizados — isso segue regido pelo Parecer de Orientação nº 40 da própria CVM.
As outras duas zonas cinzentas listadas pela CertiK são os tokens de jogos com mercado secundário líquido, que começam a se parecer com ativos virtuais mesmo sem essa intenção original, e as interfaces brasileiras que dão acesso a protocolos DeFi — que, segundo o relatório, chegam perto da intermediação ao cobrar taxas e rotear ordens, mesmo que o protocolo por trás seja genuinamente descentralizado e tecnicamente escape de qualquer obrigação de licenciamento.
Brasil: "nação das stablecoins"O relatório da CertiK aponta ainda para um segmento do mercado cada vez mais relevante no ecossistema brasileiro. Em uma seção intitulada "A Nação das Stablecoins", a CertiK aponta que dos aproximadamente R$ 1,58 trilhão em criptoativos declarados à Receita Federal entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, R$ 1,13 trilhão foi em stablecoins.
A participação de mercado dessa classe de ativos saltou de 3,5% do volume declarado à Receita Federal em 2019 para acima de 80% desde 2023, com pico mensal de 94,3% em julho daquele ano e recorde de R$ 39,7 bilhões movimentados em novembro de 2025.
O USDT, da Tether, sozinho responde por 88,7% do volume declarado em stablecoins, segundo os dados da CertiK; o USDC, emitido pela Circle, vem em seguida, com 7,1%, e o BRZ, stablecoin pareada ao real emitida pela Transfero, com 3,4%.
Jiang concorda que o Brasil ocupa uma posição única nesse mercado:
"No geral, as stablecoins servem para viabilizar liquidações mais baratas, mas Brasil está na vanguarda nos casos de uso de stablecoins. As pessoas encontraram casos de uso particulares."
Para o executivo da CertiK, aplicativos de pagamento em stablecoin não vão substituir os meios tradicionais, mas atuarão "como um complemento", mas afirma que a adoção de stablecoins para liquidação de pagamentos transfronteiriços tende a crescer no país. Segundo ele, empresas de pagamento baseadas em Singapura e Hong Kong têm buscado oportunidades de negócio no Brasil visando esse nicho do mercado.
O relatório reafirma essa tendência, afirmando que 71% das instituições latino-americanas já usam stablecoins para pagamentos internacionais — a maior taxa de adoção do mundo.
Ao comentar a Resolução BCB 584, que determina a retenção de transferências de ativos virtuais acima de US$ 10 mil por 24 horas para fins de prevenção a fraudes e lavagem de dinheiro, Jiang disse que a regra "não tem precedentes em outras regiões" e talvez ainda possa ser revista:
"Acho que a poeira ainda não baixou. Essa é uma regra nova, entrará em vigor somente no ano que vem. Ainda há pelo menos cinco meses para debatê-la [...] Na minha opinião, é melhor o próprio mercado determinar isso."
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Para Jiang, o grande mérito da regulação brasileira é não tratar os ativos digitais e as finanças tradicionais como mundos à parte. "O que importa, no fim das contas, é resolver a dor do consumidor — seja para movimentar dinheiro, gerar rendimento, ou para outras finalidades financeiras", disse.
O executivo considera que tecnologias como blockchain e DeFi são "facilitadoras", não um fim em si. Por isso, ele também não vê motivo para se apegar a uma aplicação ou criar novas leis só porque ela nasceu dentro do ecossistema cripto:
"Se olharmos para os 15 anos de história de cripto, tivemos uma bull run de NFTs, tivemos uma bull run de memecoins, e, eventualmente, esse tipo de ativo desapareceu. Quando uma coisa desaparece é porque o mercado a descartou. O que fica é o que realmente se adequa ao mercado."
O relatório da CertiK aponta que as vulnerabilidades de segurança do setor reforçam a necessidade de maior clareza regulatória. A empresa registrou US$ 1,32 bilhão perdidos em hacks e explorações só no primeiro semestre de 2026, distribuídos em 344 incidentes.
O vetor de ataque mais explorado pelos criminosos foi o comprometimento de carteiras, responsável por US$ 444,5 milhões em apenas 33 casos. Para a CertiK, é justamente esse tipo de risco que empurra o mercado da fase em que segurança era diferencial de marketing para a fase em que ela vira infraestrutura.
Questionado se a institucionalização do mercado testemunhada recentemente significa que cripto, tal como era conhecida até o ano passado, deixou de existir, Jiang discordou. Para ele, é natural que a maior parte das inovações testadas com uma nova tecnologia fracassem. Ainda assim, o que ficou para trás não invalida o conceito como um todo, concluiu.
"Nós temos um conceito muito bom. A tecnologia blockchain é bem mais avançada do que as instituições ou sistemas financeiros existentes. Prova disso é que o Bitcoin ainda está aqui, Ethereum e Solana ainda estão aí. Mas existem outras redes que estão menos ativas hoje do que no passado. Isso ocorre porque o conceito por trás de cada rede não funcionou. Acho que é mais uma questão de evolução, é necessário avançar. O que não se sustenta, cai; o que se sustenta, fica. Não acho que cripto morreu. Acho que cripto realmente veio para ficar, mas só vão sobreviver os bons players e os projetos que realmente fazem sentido."