Kast pretende adotar stablecoin de real antecipando regulação do BC sobre moedas estrangeiras

Em entrevista ao WB3News, CEO do neobanco cripto Kast, Raagulan Pathy, afirmou que "há uma forte demanda" por stablecoins atreladas ao real.

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  • Juros altos no Brasil e demanda por operações em real dão à Kast um argumento a mais para considerar uma stablecoin na moeda local, diz Pathy.
  • A fintech mantém equipes de desenvolvimento e marketing dedicadas ao Brasil e diz ter iniciado o processo de licenciamento no país antes mesmo da publicação das novas normas do Banco Central.

Raagulan Pathy, CEO do neobanco cripto Kast, afirmou em entrevista ao WB3News que o Brasil é um dos principais vetores de crescimento do negócio e o aperto regulatório do Banco Central (BC) não altera a estratégia de crescimento da empresa no país.

Pathy espera que a empresa esteja devidamente licenciada para operar no país assim que as novas regras entrarem em vigor, uma vez que o processo para obtenção de licença teve início antes mesmo de o BC divulgar os compromissos e obrigações que as prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) precisarão obedecer para seguirem atuando no país.

O executivo revelou também que a Kast  deve adotar uma stablecoin lastreada em real como parte da estratégia de adaptação do produto ao mercado brasileiro. As declarações foram dadas ao WB3News durante o Blockchain.RIO 2026.

Fundada em 2024 pelo próprio Pathy, ex-executivo da Circle, a Kast oferece cartões e contas bancárias sobre trilhos de stablecoins. Em março de 2026, a empresa levantou US$ 80 milhões em uma rodada Série A coliderada pela QED Investors e pela Left Lane Capital, que avaliou o negócio em US$ 600 milhões.

O mercado de cartões cripto está em expansão: o volume mensal movimentado chegou a US$ 759 milhões em julho de 2026 — alta de cerca de 2,5 vezes sobre os US$ 306 milhões de julho de 2025 —, somando quase 9 milhões de transações no mês, segundo dados da a16z.

O mesmo levantamento mostra que o gasto por cartão cripto hoje é majoritariamente em dólar: o USDC responde por 58% do volume global, o USDT por 26%, enquanto o EURe, pareada ao euro, que já teve uma participação de 88% em 2024, caiu para cerca de 2%.

Embora os cartões cripto tenham sido o produto inicial da Kast, esse segmento específico já deixou de ser o centro do negócio : "hoje, o volume de moeda fiduciária movimentado é maior que o de nossos cartões", disse Pathy ao WB3News. “Essa virada ocorreu há pouco tempo, mesmo tendo começado a funcionar muito depois. As oportunidades nesses trilhos são enormes."

No Brasil, os planos de expansão da Kast enfrentam um cenário regulatório ainda indefinido que inevitavelmente vai exigir adaptações do modelo de negócios da empresa.

A Resolução BCB nº 561/2026, que entra em vigor em 1º de outubro, veda expressamente o uso de ativos virtuais na liquidação do eFX, o serviço de pagamento e transferência internacional. A norma determina que  o pagamento entre prestador e contraparte no exterior deve ocorrer exclusivamente por operação de câmbio tradicional ou por conta de não residente.

Prestadoras hoje não autorizadas têm até 31 de maio de 2027 para pedir autorização ao BC como instituição de pagamento, sob pena de cessar operações em 30 dias. 

Já a Resolução BCB nº 584/2026, publicada em 7 de agosto e com vigência a partir de 1º de janeiro de 2027, criou uma retenção cautelar de até 24 horas para transferências de ativos virtuais — inclusive, segundo o texto, "ativos virtuais referenciados em moeda fiduciária (stablecoins)" — acima de US$ 10 mil por operação ou por dia, destinadas a carteiras de autocustódia ou a entidades no exterior que atuem no mercado de ativos virtuais.

Segundo Gilneu Vivan, diretor de Regulação do Banco Central, a medida busca "reduzir oportunidades para que recursos obtidos em fraudes sejam rapidamente convertidos em ativos virtuais" e movidos para ambientes que dificultem a recuperação.

Em paralelo às normas regulatórias editadas pelo BC, tramita no Congresso o PL 4.308/2024 — o chamado "PL das stablecoins" —, que pode limitar o uso de stablecoins atreladas a moedas estrangeiras como meio de pagamento.

Pathy afirmou que a abordagem dos reguladores não apenas no Brasil, mas no mundo todo, demonstra que a adoção dos criptoativos já não pode ser mais ignorada.  

A seguir, os principais trechos da entrevista.

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A tese por trás do neobanco cripto

WB3News: Você trabalhou na Circle antes de fundar a Kast. Por que não tentou desenvolver essa ideia dentro da própria Circle, em vez de fundar uma empresa nova?
Raagulan Pathy, CEO da Kast: É muito difícil construir algo novo dentro de uma empresa grande. Além disso, a Kast é um negócio completamente diferente. A Circle é uma empresa de infraestrutura, enquanto a Kast é uma startup voltada para o consumidor.

WB3News: E essa ideia de criar um banco baseado em cripto, de onde surgiu?
Pathy: Neobancos são uma tese na qual eu sempre acreditei. Cada estado tem a sua camada econômica. A União Europeia e os países que a compõem formam uma camada econômica sobre a qual foram construídas fintechs como a Revolut, por exemplo. E agora nós temos um novo bloco em torno das stablecoins que permite que dólares se movimentem por todo o mundo. Existe uma oportunidade de construir algo em cima dessa infraestrutura à medida que as stablecoins se tornam cada vez mais populares. Essa é a minha tese.

WB3News: O Brasil tem um sistema financeiro avançado e competitivo, com diversas fintechs e bancos digitais. Por que um neobanco cripto seria mais atrativo para o usuário final?
Pathy: Ainda existe uma demanda grande por contas em dólar. Além disso, existe um grande contingente de brasileiros viajando pelo mundo. Ontem mesmo eu conheci uma brasileira que está morando na Europa com seu companheiro há cinco ou seis meses e ainda não conseguiu abrir uma conta bancária devido a exigências burocráticas. Eles precisavam de uma outra solução. Isso é muito comum.

WB3News: É um produto voltado para economias em desenvolvimento?
Pathy: Não necessariamente: 34% dos nossos usuários é dos Estados Unidos. O Oriente Médio também tem uma grande participação e a América Latina também.

WB3News: Qual a razão para tamanha demanda mesmo em países com acesso facilitado ao dólar?
Pathy: Hoje, as pessoas estão operando em uma economia digital. Eles precisam movimentar o dinheiro entre fronteiras porque eles são freelancers, empreendedores individuais. Essas pessoas precisam de um novo tipo de banco, estejam elas em Bali ou no Brasil ou qualquer outro lugar. A base disso é ter uma infraestrutura estável.

Meio de pagamento ou reserva de valor: a resposta a Campos Neto

WB3News: Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, escreveu em uma coluna recente na Folha de S.Paulo que as stablecoins não cumpriram seu papel como meio de pagamento. Ele cita um artigo do Banco de Compensações Internacionais (BIS) que argumenta que o custo de transferências financeiras não cai com stablecoins. Para ele, o caso de uso que realmente emplacou foi o de reserva de valor, especialmente em países de moeda fraca como o Brasil. Você concorda?
Pathy: Não necessariamente. Eu acho que a vantagem das stablecoins são justamente a usabilidade. Stablecoins têm diversos casos de uso. E você precisa ter produtos que exploram essa característica. Isso é super importante. Ele não está errado sobre a reserva de valor, mas à medida que os aplicativos vão se tornando mais amigáveis para o usuário, permitindo que, ao escanear um QRCode, você envie dinheiro para qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, o apelo se torna inevitável. Eu acho inclusive que o Brasil tem uma vantagem nesse sentido, pois o Pix funciona muito bem.

WB3News: E como a Kast pode competir com o Pix, já que o sistema de pagamentos instantâneos do Brasil já resolve isso?
Pathy: O principal é poder movimentar dinheiro quando você viaja. Além disso, você pode gerar rendimento através de nossa conta bancária. Isso é um grande benefício para o usuário.

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Regulação, stablecoin em real e os planos da Kast no Brasil

WB3News: Como as normas regulatórias do Banco Central impactam as operações e o crescimento da Kast no Brasil?
Pathy: A regulação é um sinal positivo para o mercado. Se estão regulando o mercado é porque as pessoas estão de fato usando a tecnologia. É um país muito grande, com 200 milhões de pessoas e muitas oportunidades.

WB3News: Como você avalia esse movimento do Banco Central regulando especificamente stablecoins, com a regra que bloqueia preventivamente transações acima de US$ 10 mil por 24 horas? Há também uma lacuna sobre a própria definição legal de stablecoin, que segue em debate no Congresso.
Pathy: Acho que não apenas aqui no Brasil, mas em outras jurisdições também, muitos governos estão fazendo experimentos através da legislação. Pode ser que eles não acertem de primeira. É uma evolução, né? É ir tentando. Eu mesmo já vi isso em outros países. A própria União Europeia parece estar disposta a revisar algumas disposições, descartando coisas que não funcionam. Não estou dizendo que essa medida do Banco Central está errada. Me parece que é o ponto de partida de uma série de demandas regulatórias que ainda vão evoluir.

WB3News: É uma das abordagens regulatórias mais rígidas do mundo, não?
Pathy: Parece que sim nesse momento.

WB3News: Há espaço para maior flexibilização?
Pathy: Não consigo antecipar o que Banco Central do Brasil vai fazer, mas é engraçado. Se você aperta demais, as pessoas encontram um jeito de contornar as regras. As pessoas ainda podem usar carteiras de autocustódia. Quando a Binance não obteve uma licença para operar na UE, 70% das transferências dos usuários foram direcionadas para carteiras de autocustódia – e não para uma entidade regulada.

WB3News: Um regime regulatório muito estrito pode afastar os usuários de cripto? Aqui no Brasil, alguns representantes do setor já disseram que as regras propostas podem "matar" os pagamentos com stablecoins, por exemplo.
Pathy: Ainda acho que o caso de uso [das stablecoins] vai além de só pagamentos. Nesse caso específico, acho que as pessoas ainda usarão stablecoins, mas definitivamente pode ter algum impacto.

WB3News: Isso afeta os planos da Kast para o Brasil?
Pathy: Nós temos um equipe de desenvolvedores aqui, uma equipe de marketing. Nós estamos trabalhando para adaptar o produto às necessidades locais. Não só no Brasil mas na América Latina como um todo. Nós estamos em processo de garantir as licenças necessárias para operar no Brasil, investimos bastante para isso e estamos no caminho. Na verdade, nós iniciamos esse processo antes mesmo de o Banco Central divulgar as normas.

WB3News: Nesse contexto, vocês consideram adotar stablecoins lastreadas em real?
Pathy: Sim, estamos examinando essa possibilidade, porque há muita demanda. As pessoas ainda usam o real. Há também um aspecto interessante que são os juros, que aqui são muito altos e podem gerar rendimento para os usuários.

WB3News: Muita gente aqui no Brasil, do setor, diz que a regulação é um passo atrás; outras dizem que é um sinal de maturidade do mercado. Qual é a sua percepção?
Pathy: Um pouco das duas coisas. Com certeza é um sinal de maturidade. Se não houvesse demanda, o governo não criaria leis para o setor. Acho que sempre existe esse ciclo: se você está fazendo barulho o suficiente, em algum momento vira legislação. Mas as coisas vêm com atrito, não é um passo tranquilo. Acredito que haverá uma flexibilização depois. Se você aperta demais a legislação, as pessoas encontram um jeito de contornar.

WB3News: O mercado cripto que existia até um ou dois anos atrás morreu? Entramos em uma nova fase institucional em que ativos reais tokenizados suprimem a demanda por criptoativos?
Pathy: Com certeza a nova fase será menos especulativa. Haverá mais demanda por ativos tokenizados, como ações. O crescimento da Hyperliquid demonstra isso. Por outro lado, o próprio fato de você ter feito essa pergunta indica que cripto está perto de voltar. Acredito que o bear market vai se encerrar em torno dos níveis de preço atuais e em breve o bitcoin estará de volta aos US$ 100 mil e além.


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