Itaú, Banco do Brasil e BTG Pactual apontam próximos passos da tokenização no Brasil
Num mercado ainda dominado por dívida privada, grandes bancos apontam garantias, imóveis e liquidação via stablecoin como principais casos de uso da tokenização.
- Guto Antunes, do Itaú, apontou a tokenização de garantias como o caso de uso que mais deve crescer nos próximos dois anos.
- Julierme de Souza, do Banco do Brasil, citou o desenvolvimento de uma solução para tokenização de imóveis a ser lançada em 2027.
Em um mercado de R$ 12,13 bilhões ainda dominado por emissões de crédito privado, executivos do Itaú, Banco do Brasil e BTG Pactual apontam garantias digitais, imóveis digitais e liquidação via stablecoins em real como os principais casos de uso para diversificar e expandir a tokenização de ativos reais no Brasil. A tecnologia emergente no mercado de capitais brasileiro foi tema central de painéis na Febraban Tech 2026.
Guto Antunes, head de ativos digitais do Itaú, afirmou que a tokenização de garantias, via registro e transferência de colateral em blockchain é o caso de uso interno que mais deve crescer nos próximos dois anos. Já Julierme de Souza, chefe de Desenvolvimento de Soluções Digitais do Banco do Brasil, revelou que a instituição está desenvolvendo uma solução de compra e venda de imóveis atrelados a ativos digitais. Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto da Mercado Bitcoin, argumentou que a liquidação de operações de ativos tokenizados gera demanda por uma stablecoin lastreada em real.
Itaú: gargalo é a padronizaçãoAntunes disse que a tokenização de ativos reais já ultrapassou a barreira inicial de provar que a tecnologia funciona, mas o mercado ainda não se alinhou para definir padrões capazes de sustentar os volumes movimentados nos mercados de capitais:
"O principal ponto aqui é padronização e escalabilidade."
Atualmente, o banco realiza testes que buscam fixar padrões de rede e de governança que permitam aos projetos deixarem a fase de piloto e entrarem em produção. Segundo Antunes, ainda há dúvidas se funções hoje desempenhadas por escrituradores e repositórios poderiam operar numa estrutura baseada em contratos inteligentes.
Nesse contexto, o caso de uso mais urgente e evidente para o Itaú é a tokenização de garantias. Segundo Antunes, o instrumento eliminaria os horários de corte que hoje impedem a movimentação de colateral fora do expediente bancário. "Transferência de garantias é uma dor que o mercado tem", resumiu Antunes.
O executivo acrescentou ainda que, como referência, o Itaú acompanha o piloto que a DTCC (Depository Trust & Clearing Corporation) desenvolve nos Estados Unidos, utilizando a infraestrutura das redes Canton e Stellar, e planeja levar essa experiência à Rede Open Capital Markets, iniciativa da Anbima para criar uma infraestrutura de tokenização comum a todo o mercado brasileiro.
Banco do Brasil: do Drex aos imóveis tokenizadosNo Banco do Brasil, a experiência com o piloto do Drex, a moeda digital de banco central brasileira, levou a instituição a montar uma estrutura permanente dedicada a ativos digitais. Dividida em três frentes — plataforma tecnológica, unidade de negócios e uma governança integrada que também acompanha questões regulatórias, jurídicas e de risco —, a estrutura seguiu funcionando depois que o Banco Central (BC) decidiu rever o projeto do Drex.
Um dos projetos em desenvolvimento interno é uma solução digital para compra e venda de imóveis, com produção prevista a partir de 2027, revelou Julierme de Souza. Segundo o executivo, o principal desafio do mercado não é mais transformar ativos reais em tokens digitais, mas sim usar a tecnologia para repensar toda a jornada de um produto e entregar ganho concreto aos clientes.
Mercado depende de stablecoin atrelada ao realEm outro painel, Raphael Palacio Soares, head de TI de Ativos Digitais do BTG Pactual, discutiu o papel das stablecoins na expansão da tokenização ao lado de Larissa Moreira, gerente de Produtos de Ativos Digitais do Itaú, e Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto da Mercado Bitcoin. Tota defendeu que a liquidação de ativos tokenizados depende de uma stablecoin lastreada em reais, enquanto Moreira afirmou que a convivência entre ativos tradicionais e digitais é algo natural em um período de transição tecnológica.
Mercado é dominado por crédito privadoPor enquanto, garantias, imóveis e stablecoins são apenas apostas de expansão. Atualmente, o mercado brasileiro de ativos reais tokenizados (RWA) é praticamente dominado por um único caso de uso: dívida privada. Segundo dados da plataforma RWA Monitor, o Brasil soma R$ 13,80 bilhões em emissões tokenizadas e R$ 12,13 bilhões efetivamente captados, distribuídos por 5.734 ativos de 14 emissoras.
Do total captado, debêntures respondem por 28,9% (R$ 3,50 bilhões) e notas comerciais por 26,8% (R$ 3,25 bilhões) — as duas maiores fatias. O restante é composto por Cédulas de Crédito Bancário (CCB), com 11,9% (R$ 1,44 bilhão), contratos de recebíveis, com 11,1% (R$ 1,35 bilhão), Cédulas de Produto Rural (CPR), com 9,7% (R$ 1,18 bilhão), duplicatas, com 5,3% (R$ 637,48 milhões), e recebíveis de cartão, com 3,1% (R$ 381,08 milhões).
Juntas, essas sete categorias — todas modalidades de dívida ou crédito privado — somam 96,8% do total captado. O restante está pulverizado entre CRI, bonds internacionais, direitos creditórios e ativos judiciais.
- 86% das transações globais de cripto escapa do fisco, revela Chainalysis — DeFi é ponto cego no Brasil
- Base integra ações tokenizadas a DeFi em mercado que já soma US$ 2,8 bilhões
Com o futuro do Drex em questão, a Anbima assumiu a linha de frente na padronização da tokenização no Brasil. Desde fevereiro a associação lidera um piloto que reúne mais de 50 organizações do mercado financeiro e de capitais brasileiro para desenvolver, em conjunto, o ciclo de vida completo de debêntures e fundos de investimento em redes de registro distribuído (DLT).
A fase de testes do piloto segue até outubro, quando a Anbima deve divulgar os resultados e anunciar quais propostas avançam para produção. No âmbito do piloto, o Itaú anunciou recentemente uma parceria com a OpenAssets, empresa de infraestrutura para ativos tokenizados, para desenvolver provas de conceito técnicas e avaliar padrões de tokenização e frameworks operacionais e de compliance para debêntures e fundos de investimento, conforme noticiado pelo WB3News.