Em ano eleitoral, Chainless aposta em “soberania patrimonial” para ampliar controle do investidor sobre os ativos
Modelo usa autocustódia como infraestrutura para reunir diferentes investimentos; segurança já é a segunda principal razão para investir no Brasil
- Segurança é citada por 26% dos investidores brasileiros como razão para investir, atrás apenas da busca por retorno, com 37%.
- Chainless reúne ativos digitais, stablecoins e produtos tokenizados em uma arquitetura na qual, segundo a empresa, os ativos permanecem sob a chave do usuário.
Em ano eleitoral, a Chainless quer levar a autocustódia além do universo cripto e apresentá-la como uma forma de o investidor acessar diferentes ativos sem abrir mão do controle sobre o próprio patrimônio. A plataforma brasileira da Notus Labs chama essa proposta de “soberania patrimonial”.
Na prática, a diferença está em quem controla os ativos. Segundo a Chainless, eles permanecem registrados em blockchain sob a chave do próprio usuário. A empresa afirma não custodiar ativos virtuais nem possuir acesso às chaves privadas dos clientes.
A proposta aparece num momento em que segurança já ocupa espaço relevante entre as razões para investir no Brasil. Segundo os dados citados no material da empresa, 26% dos investidores apontam esse fator, atrás apenas da busca por retorno, com 37%.
Para a Chainless, blockchain e autocustódia são meios técnicos dessa arquitetura, e não o centro da experiência do investidor.
“Durante décadas, o acesso a diferentes classes de ativos foi construído sobre estruturas separadas e diferentes intermediários. O que buscamos é permitir que o investidor acesse essas oportunidades sem abrir mão do controle sobre o próprio patrimônio. Blockchain e autocustódia são meios para entregar essa experiência, não atributos técnicos que o cliente deveria precisar dominar. No fim, o que importa é ampliar as possibilidades de investimento preservando ao investidor o controle sobre seus próprios ativos”, afirma Kevin Voigt, cofundador e CEO da Chainless.
Segurança ganha peso na decisão de investir
Outro levantamento mostra diferenças na confiança depositada nos bancos entre as gerações. O Índice de Confiança Social 2025, da Ipsos-Ipec, atribui 56 pontos às instituições bancárias em uma escala de zero a 100.
Entre brasileiros de 45 a 59 anos, são 50 pontos, o menor resultado entre as faixas etárias pesquisadas. O índice chega a 62 pontos entre pessoas de 16 a 24 anos, 59 entre 25 e 34, 53 entre 35 e 44 e 57 entre aqueles com 60 anos ou mais.
Os números, porém, não permitem concluir que menor confiança nos bancos esteja levando investidores para a autocustódia. O levantamento mede confiança institucional e não estabelece relação entre idade, comportamento de investimento e adoção de alternativas onchain.
O dado ajuda a dimensionar outra questão: controle e segurança convivem com retorno entre as preocupações do investidor, justamente o território em que a Chainless tenta posicionar sua proposta.
Controle dos ativos muda a arquitetura
Na Chainless, a autocustódia significa que a plataforma fornece a infraestrutura de acesso, enquanto as chaves que controlam os ativos permanecem com o usuário.
Segundo a empresa, sua arquitetura utiliza biometria obrigatória, isolamento no hardware, fragmentação criptográfica e mecanismos integrados de recuperação de acesso. Sobre essa infraestrutura são disponibilizados diferentes tipos de ativos e serviços financeiros.
Isso cria uma distinção em relação a estruturas nas quais o intermediário mantém a custódia dos ativos em nome do cliente. A existência de autocustódia, entretanto, não elimina riscos de investimento nem torna os produtos acessados pela plataforma equivalentes entre si.
Determinados serviços são oferecidos por empresas parceiras e possuem regras próprias. A própria Chainless informa, por exemplo, que produtos que oferecem exposição econômica a ações e ETFs americanos representados por tokens são restritos a investidores qualificados.
É nesse desenho que a expressão “soberania patrimonial” precisa ser entendida: não como uma nova classe de ativos, mas como a denominação adotada pela Chainless para uma arquitetura em que o investidor mantém o controle dos ativos enquanto acessa diferentes produtos financeiros.
Blockchain como infraestrutura da experiência
Essa mudança também altera o papel atribuído à blockchain. Em vez de ser o produto que o usuário procura, ela passa a funcionar como infraestrutura sobre a qual os ativos são mantidos e as operações realizadas.
“Durante muitos anos, blockchain foi apresentada como uma nova categoria de investimento. Nós acreditamos que ela tende a se tornar algo diferente: uma camada tecnológica do sistema financeiro, assim como a internet se tornou a infraestrutura da economia digital. O investidor não deveria precisar escolher entre TradFi e DeFi, nem entender como uma operação é liquidada para acessar uma oportunidade de investimento. Se a tecnologia cumprir o seu papel, ela desaparece da experiência. O que permanece é uma forma mais simples de acessar ativos globais, manter o controle sobre o próprio patrimônio e utilizar diferentes serviços financeiros sem precisar se preocupar com a tecnologia que torna essa experiência possível”, afirma Hamilton Haskel, cofundador e CMO da Chainless.
A Chainless tem aproximadamente 40 mil clientes e processou R$ 336,5 milhões entre janeiro e julho deste ano, segundo dados fornecidos pela empresa.
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O que muda para o investidor
A discussão sobre autocustódia deixa de estar restrita à pergunta sobre onde guardar Bitcoin ou outros criptoativos. No modelo defendido pela Chainless, ela passa a fazer parte da própria infraestrutura usada para acessar diferentes investimentos.
Isso não significa substituir bancos, corretoras ou o mercado financeiro tradicional. Significa testar outra divisão de responsabilidades: serviços e produtos podem continuar sendo oferecidos por diferentes instituições, enquanto o controle dos ativos permanece com o investidor.
É essa arquitetura, mais do que o termo “soberania patrimonial”, que representa a mudança proposta pela Chainless. Blockchain deixa de ser apresentada como investimento e passa a ocupar os bastidores da experiência; a autocustódia, por sua vez, deixa de ser apenas uma característica das carteiras cripto e passa a integrar o acesso a diferentes mercados.
Nesse modelo, a diferença não está necessariamente nos ativos acessados, mas em quem mantém o controle sobre eles.