B3 prevê ações tokenizadas em 2027 no horário do pregão, mas FMI aponta que mais da metade do volume é negociado fora dele

No lançamento, a bolsa manterá a liquidação em D+2; a negociação contínua dependerá de regras a serem estabelecidas pela CVM e o Banco Central.

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  • A B3RL, stablecoin da bolsa atrelada ao real, não será usada para liquidar as primeiras ações tokenizadas.
  • Ações tokenizadas são 1,5 vez mais voláteis que as tradicionais, e as corretoras descentralizadas são os ambientes menos líquidos, segundo o FMI.

A B3 pretende ofertar ações tokenizadas em sua plataforma a partir do primeiro semestre de 2027, com preço e liquidez compartilhados com o mercado tradicional, segundo Humberto Costa, diretor de Produtos de Balcão e Ativos Digitais da bolsa. Em um primeiro momento, a negociação se limitará ao horário do pregão, e a liquidação ocorrerá no prazo atual de D+2, dois dias úteis após a operação.

Nos ambientes em que ações americanas tokenizadas já são negociadas 24 horas por dia, mais da metade do volume ocorre fora do horário regular do mercado, e cerca de 80% das ordens envolvem menos de uma ação, segundo relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI). Os tokens são cerca de 1,5 vez mais voláteis que as ações tradicionais correspondentes, e as corretoras descentralizadas (DEXs) são os ambientes de negociação menos líquidos, de acordo com o Fundo.

Publicado em 8 de outubro, o capítulo 3 do Relatório de Estabilidade Financeira Global (GFSR, na sigla em inglês) do FMI traz uma análise das cinco ações americanas tokenizadas mais líquidas, emitidas pela Ondo Finance e pela Backed Finance (xStocks), com tokens do S&P 500, do Nasdaq 100, da Tesla, do Google e da Nvidia. A amostra abrange 11 ambientes de negociação, entre corretoras centralizadas (CEXs) e descentralizadas, cerca de US$ 345 milhões em valor de mercado, o equivalente a cerca de 15% do mercado de ações tokenizadas, e mais de 2 milhões de observações de preço e volume em intervalos de cinco minutos, ao longo de 365 dias de negociação.

B3 manterá horário do pregão e D+2 no lançamento, segundo diretor

Costa apresentou detalhes sobre o projeto em evento do Grupto de Trabalho de Tokenização (GTT) da Comissão de Valores Mobiliários (CVM na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, em 8 de outubro. A B3 vai começar pela representação digital de ações que já existem no mercado tradicional, sem ações emitidas originalmente em blockchain. Os papéis da primeira fase ainda estão em discussão com participantes do mercado. Posteriormente, a bolsa deve adicionar outros produtos de renda variável, como ETFs e BDRs, à sua oferta de ativos tokenizados.

A B3 chegou a estudar modelos internacionais de negociação de ativos tokenizados 24 horas por dia. O avanço das discussões do GTT da CVM levou a bolsa a optar por uma implementação alinhada ao mercado tradicional, com liquidez compartilhada, de acordo com o Portal do Bitcoin.

A negociação 24/7 e a liquidação atômica ainda dependem de maior clareza regulatória, segundo Costa:

“Como é que você conecta isso com tesourarias que trabalham só em dia útil, com a tecnologia que vai vir em 24×7, que vai vir em outra dinâmica?”

Depois do lançamento, a B3 pretende ampliar o horário para um regime 24/5, com negociação ininterrupta em dias úteis, com liquidação em D+1.

O comportamento de uma geração acostumada a acessar serviços a qualquer hora por meio de dispostivos de digitais demanda a adaptação das estruturas tradicionais do mercado, afirma o diretor da B3:

“Essa nova geração já não consegue mais entender por que não consegue comprar um ativo às 10 da noite, por que não consegue resgatar no sábado para poder usar o dinheiro no mesmo dia.”

A B3 também vai pedir ao Banco Central uma licença abrangente para atuar no mercado de ativos virtuais, com atividades como intermediação e custódia de criptoativos. O prazo para encaminhar o pedido de autorização das prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) que já operam no país termina em 30 de outubro. Costa afirmou que a B3 está preparada para protocolar o pedido em tempo hábil.

Inicialmente, a B3RL, stablecoin da B3 atrelada ao real, não será usada na liquidação de ações tokenizadas, afirmou Costa. A stablecoin foi anunciada em dezembro de 2025, com lançamento previsto para o primeiro semestre de 2026. No entanto, o ativo ainda não está disponível para negociaçao.

Enquanto isso, a moeda a ser utilizada na liquidação de ativos tokenizados segue em aberto no piloto de tokenização da CVM. Segundo os técnicos da autarquia, os testes estão focados sob competência direta da autarquia. O Banco Central acompanha o piloto e deve se envolver mais ativamente na discussão quando a infraestrutura estiver apta a ser integrada ao sistema financeiro tradicional, afirmaram técnicos da CVM durante o evento. Stablecoins, depósitos tokenizados e uma eventual integração com o Drex estão entre as alternativas.

O relatório do FMI publicado no mesmo dia em que ocorreu o evento recomenda a liquidação de ativos tokenizados em moeda de banco central e destaca que as stablecoins emitidas por emissores privados adicionam novos vetores de risco ao sistema financeiro.

Ondo e Backed concentram mais de 70% das ações tokenizadas

As ações tokenizadas somam US$ 2,3 bilhões, uma fração dos US$ 65,1 bilhões do mercado público de ativos do mundo real tokenizados, segundo dados da RWA.xyz compilados pelo FMI no relatório. A emissão está concentrada em duas entidades: Ondo Finance e Backed Finance respondem por mais de 70% da capitalização de mercado, com produtos voltados a investidores residentes fora dos EUA.

O relatório distingue três formatos de ações tokenizadas, de acordo com os direitos que conferem ao detentores. Os tokens nativos são emitidos diretamente on-chain, e o detentor mantém todos os direitos econômicos e de governança, como nos casos das ações da Figure e da Exodus.

Os tokens custodiais representam um direito de beneficiário sobre uma ação mantida em custódia, com repasse de dividendos e eventos corporativos.

Os tokens sintéticos, ou baseados em veículos de propósito específico, representam um direito sobre um veículo estruturado que detém as ações, com exposição econômica sem propriedade jurídica direta. Ondo e xStocks usam modelos sintéticos.

Atualmente, a demanda por ações tokenizadas se concentra no varejo, enquanto títulos e fundos do mercado monetário tokenizados são mercados dominados por investidores institucionais, segundo o FMI. O relatório compilou dados de cerca de 930 mil investidores, contados como endereços on-chain únicos com saldo.

Mais de 50% do volume ocorre fora do pregão americano

A negociação contínua, o fracionamento e a sinalização de preços on-chain já têm suporte empírico inicial entre os benefícios da tokenização, segundo o FMI. Os mercados tradicionais funcionam em horários fixos de pregão, enquanto as ações tokenizadas são negociadas 24 horas por dia, e mais de 50% do volume ocorre fora do horário regular do mercado americano, de acordo com o relatório:

“O volume fora do horário regular sugere que a disponibilidade 24/7 não é apenas uma característica técnica, mas uma fonte de demanda, especialmente entre investidores de regiões que operam fora do horário de negociação dos EUA e aqueles que buscam reagir imediatamente a notícias e movimentos de preço quando os ambientes de negociação convencionais estão fechados.”

Cerca de 80% das negociações envolvem menos de uma ação, o que revela forte demanda por fracionamento e uma base de usuários dominada por pequenos investidores de varejo, segundo o relatório.

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Os preços da ações tokenizadas também carregam informação relevante para o mercado tradicional. O FMI mediu quanto da variação acumulada pelos tokens durante a noite, com o mercado americano fechado, é absorvida pela ação subjacente nos cinco primeiros minutos do pregão. As estimativas vão de 87% a 99%, o que sugere que os mercados tradicional e tokenizado respondem a conjuntos de informações semelhantes.

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Segundo o relatório, o Reino Unido e os EUA planejam ampliar o horário de negociação de alguns produtos no mercado de ações, rumo a um funcionamento quase contínuo, e a Índia introduziu a liquidação opcional no mesmo dia para parte de seu mercado de ações com tecnologia convencional.

Corretoras descentralizadas são as menos líquidas

Nas DEXs, cada operação é liquidada na blockchain, os usuários mantêm a custódia, o acesso exige apenas uma carteira e os detentores são identificados por endereço, não por nome. Nas corretoras centralizadas, os tokens ficam sob custódia da corretora, em nome de clientes identificados, e as operações são liquidadas nos registros da própria corretora. Os tokens também podem circular diretamente entre carteiras, sem passar por nenhum ambiente de negociação.

Pela medida de iliquidez de Amihud, que relaciona a variação de preço em cinco minutos ao volume diário negociado, os mercados tradicionais são os mais líquidos, as corretoras centralizadas são materialmente menos líquidas e as descentralizadas são as menos líquidas, por ampla margem. A ausência de investidores institucionais contribui para a menor liquidez das ações tokenizadas, de acordo com o FMI:

“Esse padrão sugere que um mesmo volume de negociação tem, atualmente, um efeito muito maior sobre os preços nos ambientes tokenizados, o que reflete uma liquidez mais rasa e uma atividade limitada de formação de mercado.”

A volatilidade realizada das ações tokenizadas é cerca de 1,5 vez maior que a das ações tradicionais equivalentes e cresce do mercado tradicional para as corretoras centralizadas, atingindo o maior nível nas descentralizadas. Parte da diferença reflete a menor liquidez e a negociação contínua, já que a volatilidade dos tokens captura movimentos de preço em períodos de menor volume, como madrugadas e fins de semana.

Os preços dos ativos tokenizados acompanham de perto as ações subjacentes durante o pregão americano. Nas corretoras descentralizadas, a distribuição dos desvios é mais achatada e larga, com diferenças maiores e mais frequentes. Plataformas com maior volume de negociação rastreiam melhor os preços do mercado trradicional, enquanto os de baixo volume registram volatilidade substancialmente maior.

FMI recomenda circuit breakers para negociação 24 horas

A infraestrutura tokenizada permite negociação contínua e execução quase instantânea de forma nativa. Sem salvaguardas adequadas, a negociação contínua e as liquidações automáticas e instantâneas podem amplificar a volatilidade de preços e as vendas forçadas em momentos de estresse, alerta o FMI. Segundo o inventário de riscos do relatório, a negociação 24/7 amplifica riscos de liquidez e de alavancagem, e o acesso do varejo, os riscos de liquidez e de contágio.

Por fim, o registro ou a prestação de serviços de ativos tokenizados por meio de jurisdições offshore pode ampliar vulnerabilidades na prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, de acorodo com o FMI, pois escapa à regulação, dificultando a supervisão das autoridades competentes.

Para mitigar os riscos, o relatório recomenda que as autoridades avaliem se circuit breakers, suspensões de negociação, barreiras e taxas de resgate e chamadas de margem contínuas são eficazes em infraestruturas descentralizadas que operam ininterruptamente. O FMI também recomenda que os órgão responsáveis pela supervisão do mercado ampliem o monitoramento a novos ambientes de negociação e classes de ativos.

Costa enfatizou que a supervisão de infraestruturas digitais é um dos principais desafios da tokenização no Brasil, ao lado da liquidação, da interoperabilidade e da segurança, afirma Costa:

“Tem coisa que você consegue evitar, tem coisa que você consegue interromper. Mas o interromper tem que ser rápido, tem que ser no dia seguinte, dois dias, não dois anos.”

Na conclusão, o FMI afirma que o mercado de ações tokenizadas ainda é incipiente e a estrutura e as operações podem avançar significativamente se a tokenização ganhar escala:

“[...] uma série de estruturas de mercado plausíveis pode surgir à medida que a tokenização evolui. Esses diferentes estados finais moldariam o equilíbrio entre os riscos e os benefícios associados à tokenização, o que implica que a dinâmica atual do mercado pode não ser representativa do estado de equilíbrio que o setor vier a alcançar.”

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