'Ações reais': Coinbase aposta em tokens com direitos de acionista para disputar mercado que já quadruplicou em 2026

Em entrevista exclusiva, Guilherme Bettanin afirma que tokens da Coinbase conferem propriedade efetiva de ações, com direito a dividendos e, em breve, a voto.

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  • Ações tokenizadas já estão disponíveis na Base e centenas de novas ações serão listadas nas próximas semanas.
  • A SEC liberou por cinco anos a negociação on-chain de ações tokenizadas, mas excluiu da isenção os tokens que oferecem exposição sintética.
  • A capitalização de mercado das ações tokenizadas cresceu 314% em 2026 e chegou a US$ 4 bilhões, segundo a Binance Research.

A Coinbase vai disponibilizar centenas de novos tokens de ações na Base, rede de camada 2 da empresa, nas próximas semanas, revela Guilherme Bettanin, Growth Marketing da Coinbase Wallet, em entrevista exclusiva ao WB3News.

A expansão da oferta acompanha o reposicionamento de marca da Coinbase Wallet, carteira autocustodial da corretora líder do mercado americano. Em 10 de setembro, o aplicativo foi rebatizado com seu nome original, deixando para trás a marca Base App. A marca, adotada em julho de 2025, foi uma tentativa de engajar os usuários em redes sociais descentralizadas, fomentando a creator economy.

Com retorno ao nome original, o aplicativo assume a função de "test kitchen" (cozinha de testes, em tradução livre) da Coinbase. A ideia é que a Coinbase Wallet permita aos usuários experimentarem novos recursos e ativos antes de uma adoção mais ampla. As ações tokenizadas estão no centro dessa estratégia, afirma Bettanin:

"Estamos diante de uma transformação estrutural: ativos do mundo real e mercados tokenizados são os segmentos que mais crescem no universo cripto. No entanto, grande parte dos investidores ainda não consegue acessar esse movimento e é justamente aí que queremos atuar, ampliando o alcance e democratizando o setor."

A Coinbase Wallet reúne em um único ambiente negociações de perpétuos da Hyperliquid, ações tokenizadas e mercados preditivos em mais de 11 redes, com liquidação rápida e funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana.

"A entrada de organizações tradicionais no mercado de tokenização representa uma mudança concreta, pois traz escala, legitimidade e infraestrutura para um setor que antes era dominado por iniciativas experimentais”, afirma Bettanin. “A presença dessas instituições acelera a adoção da tecnologia blockchain para ativos do mundo real, amplia a liquidez e atrai novos tipos de investidores que anteriormente não tinham acesso ou confiança nesse mercado."

Segundo o executivo, a institucionalização "cria padrões regulatórios mais claros e promove a integração com o sistema financeiro tradicional". Como resultado, "a tokenização está deixando de ser apenas uma promessa tecnológica e se tornando uma prática consolidada".

Apesar do reposicionamento, Bettanin diz que a Coinbase ainda acredita que “as pessoas querem ter experiências sociais associadas à negociação”:

“Por isso, continuamos experimentando recursos de social trading, como rankings, para oferecer aos usuários a melhor experiência possível."

O objetivo "não é necessariamente se referir a mercados nos quais o modelo de exchange com custódia não seria o mais adequado, mas sim oferecer um mecanismo que possa ser valioso para usuários em todo o mundo”, acrescenta o executivo.

O modelo da Coinbase

Ao WB3News, Bettanin detalhou o modelo adotado pela Coinbase na emissão de ações tokenizadas, com lastro integral nos ativos subjacentes:

"Nossas ações tokenizadas são ações reais. Elas conferem propriedade efetiva. Os tokens da Coinbase representam a propriedade de ações reais com lastro integral, e não derivativos, exposição sintética ou um direito baseado exclusivamente na variação do preço da ação."

O executivo explicou que os detentores dos tokens têm direito aos benefícios econômicos e aos direitos associados às ações, "incluindo dividendos, quando aplicável, e direitos de voto em um futuro próximo". Além da negociação e da liquidação ininterruptas, os tokens podem ser usados em DeFi (finanças descentralizadas) como garantia, em empréstimos e em negociação combinada com outros protocolos. Bettanin também citou o uso por agentes de inteligência artificial (IA):

"Optamos por esse modelo porque acreditamos que o lastro direto nos ativos e a possibilidade de utilizá-los como blocos de construção programáveis para agentes autônomos de IA terão maior utilidade no longo prazo para o futuro das finanças."

A Coinbase lançou as ações tokenizadas na Base em agosto, começando com Apple, Nvidia, Meta e Alphabet. Segundo o executivo, as ações tokenizadas já estão disponíveis globalmente na Base, inclusive no Brasil:

"Construímos isso da maneira certa, não da maneira mais rápida. Agora que a base está estabelecida, vamos disponibilizar centenas de novos tickers nas próximas semanas."

A entrada da Coinbase no mercado de ações tokenizadas ocorre em um momento em que o volume mensal de negociação em exchanges descentralizadas (DEXs) passou de US$ 237 milhões em janeiro para US$ 7,9 bilhões em agosto, segundo relatório da Binance Research.

SEC libera negociação on-chain de ações tokenizadas

Em 17 de setembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) aprovou uma isenção temporária que permite a negociação on-chain de ações tokenizadas em plataformas reguladas nos EUA. A isenção permite que ações listadas no National Market System (NMS), o sistema que reúne as bolsas americanas, sejam negociadas on-chain em pools de liquidez permissionados de formadores de mercado automatizados (AMMs). A ordem vale por cinco anos a partir da publicação e pode ser alterada ou revogada antes desse prazo.

A isenção cobre ações tokenizadas pela própria empresa emissora e por terceiros não afiliados. Instrumentos em que um terceiro emite um token que oferece exposição sintética a uma ação ficam de fora. As ações tokenizadas precisam ter os mesmos direitos a dividendos, os mesmos direitos de voto e o mesmo direito sobre o patrimônio residual que a ação original.

A ordem também concede poder de veto às empresas emissoras. Antes de listar uma ação tokenizada de terceiros, a plataforma precisa notificar por escrito a empresa emissora e aguardar pelo menos 30 dias corridos. Uma objeção por escrito apresentada nesse prazo impede a listagem.

A nova regra estabelece limites. Cada plataforma pode listar até 75 ações do Tier 1, que reúne as ações do S&P 500 e do Russell 1000 e alguns fundos de índice (ETFs), com volume de até 0,25% da média diária de negociação do mês anterior. 
O Tier 2 abrange as demais ações do NMS, com limite de 250 ações e 2,5% do volume médio diário. Ultrapassar o teto de volume suspende a negociação da ação por três meses. As plataformas também precisam interromper a negociação do token sempre que a bolsa de origem suspender a ação.

A ordem foi emitida dois dias depois de o Senado americano rejeitar, por 49 votos a 50, o avanço do CLARITY Act, projeto de lei que estabelece um marco regulatório para o mercado cripto nos EUA. Em declaração que acompanhou o anúncio da ordem, o presidente da SEC, Paul Atkins, afirmou:

"O Congresso não conseguiu avançar com o CLARITY Act, apesar dos esforços incansáveis de muitos. Esta medida provisória precisa ser seguida por uma regulamentação duradoura, que garanta que os mercados on-chain continuem sendo um caminho viável."

Volume de negociação de ações tokenizadas em DEX cresceu 33 vezes em 2026

A capitalização de mercado das ações tokenizadas passou de US$ 965 milhões no início de 2026 para cerca de US$ 4 bilhões em 9 de setembro, alta de 314%, segundo o relatório When Stocks Become On-Chain Assets (Quando ações se tornam ativos on-chain, em tradução livre), da Binance Research.

O volume mensal de ações tokenizadas em DEXs cresceu mais de 33 vezes entre janeiro e agosto, de US$ 237 milhões para US$ 7,9 bilhões. Em janeiro, o volume mensal negociado correspondia a 0,23 vez a capitalização de mercado média das ações tokenizadas. Em agosto, chegou a 2,14 vezes, depois de atingir 3,32 vezes em julho, segundo a Binance Research.

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O uso em DeFi também cresceu. O valor total bloqueado (TVL) de ações tokenizadas em protocolos DeFi subiu de US$ 21,6 milhões no início do ano para US$ 289,1 milhões em 9 de setembro, alta de 1.242%. No mesmo período, a participação do TVL passou de 2,2% para 7,2% do valor de mercado ativo. Pools de liquidez concentram 65,4% desse TVL, e protocolos de empréstimo, 28,1%. BNB Chain, Robinhood Chain e Solana somam 90% do TVL.

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As ações tokenizadas já se tornaram par de negociação para memecoins. Entre 26 de julho e 9 de setembro, mercados de memecoins pareados com ações tokenizadas movimentaram US$ 2,49 bilhões na Robinhood Chain e US$ 2,9 bilhões na BNB Chain. Numa amostra da Robinhood Chain analisada pela SQD, US$ 711,2 milhões, ou 32,1% do volume acumulado de tokens de ações em DEXs até 30 de agosto, vieram de negociações contra outros tokens, a maioria memecoins.

Em um mercado bastante competitivo, a Coinbase não descarta a integração de ações tokenizadas e memecoins. “As memecoins são uma expressão bastante típica do universo Web3, que permite aos usuários participar de uma maneira muito mais ativa e proativa”, disse Bettanin. “Nossa missão é ampliar a liberdade econômica. Queremos fazer isso trazendo mais ativos para a blockchain e ampliando o acesso das pessoas a todos os ativos que desejam negociar. Isso inclui as memecoins”, completou o executivo.

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