Vítimas foram mantidas reféns em 81% dos ataques físicos contra donos de cripto no Brasil, aponta pesquisa

Sequestros respondem por 46% dos casos registrados no país desde 2017, ante 25% no mundo, segundo base que registra 754 ataques em 73 países.

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  • Em números absolutos, o Brasil é o 5º país com mais ataques físicos contra detentores de criptomoedas, com 37 casos, atrás de França (87), Estados Unidos (76), Taiwan (66) e Rússia (40).
  • Nos últimos três anos, 29% dos ataques no país deixaram vítimas feridas, ante 53% no mundo; ajustado pela população, o Brasil fica em 15º lugar entre 22 países.

Vítimas foram mantidas reféns em 81% dos ataques físicos contra detentores de criptomoedas registrados no Brasil desde 2017, 30 de 37 casos, acima da proporção mundial de 61%, segundo levantamento do pesquisador que se identifica como Pizza Bitcoiner no X.

Os chamados ataques de chave inglesa (wrench attack) ocorrem quando criminosos usam violência ou ameaças de agressão física contra detentores de cripto ou seus familiares para obrigá-los a transferir seus ativos ou entregar as chaves de uma carteira. 

Criada pelo pesquisador, cuja identidade não é pública, a base Physical attacks on crypto-asset holders (Ataques físicos contra detentores de criptoativos, em tradução livre) inclui sequestros, cárcere privado, invasões de domicílio e roubos em negociações presenciais. Atualizada semanalmente, ela registra 754 ataques em 73 países entre janeiro de 2014 e outubro de 2026:

"Em 462 dos 754 casos, a vítima foi mantida contra a sua vontade — três em cada cinco. Houve violência física em 478 casos. Uma arma de fogo estava presente em 192 casos, aproximadamente um em cada quatro."

As vítimas saíram fisicamente ilesas em 356 casos, ficaram feridas em 335 e houve mortes em 33. Em outros 30, o desfecho não é conhecido.

Em 16 de outubro, Jameson Lopp, cofundador e diretor de segurança da Casa, empresa de carteiras de autocustódia de bitcoin, incorporou 347 casos do levantamento à lista pública de ataques físicos que mantém no GitHub. Na lista de Lopp, o Brasil passou de 12 para 36 casos.

Em números absolutos, o Brasil é o quinto país com mais casos, com 37 registros, atrás de França (87), Estados Unidos (76), Taiwan (66) e Rússia (40).

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O ano de 2025 tem o maior número de casos brasileiros da série, com oito ataques, entre eles os de um casal em Campo Limpo Paulista, da mãe de um gestor de criptoativos em Recife, de um empresário espanhol em São Paulo e de dois turistas britânicos no Rio de Janeiro. Em 2026, três casos foram registrados até 15 de outubro. O estado de São Paulo concentra 15 dos 37 casos registrados no país. No mundo, os registros passaram de 69 em 2023 para 165 em 2025, e 2026 somava 134 até 15 de outubro.

O levantamento partiu da lista de Lopp e ampliou a busca para a imprensa local em cerca de 30 idiomas, registros de tribunais e comunicados policiais. Dos 754 casos, 408 foram encontrados fora da lista de referência, a maioria em Taiwan, Rússia, Brasil, Índia, Estados Unidos, França e Holanda.

A base só inclui ataques relatados por ao menos uma fonte identificável, com cada fonte aberta e lida antes do registro:

"A cobertura da imprensa local determina em grande medida o que pode ser visto, e o registro é um piso em todos os lugares, não uma contagem."

Os anos de 2014 a 2019, acrescentados em 18 de outubro, são menos completos que os seguintes e não são comparáveis a eles, segundo a metodologia da base. Os percentuais e rankings por país que não aparecem no site da base foram calculados pelo WB3News a partir do arquivo de dados disponível para download.

Sequestros são 46% dos casos no Brasil

Os sequestros respondem por 17 dos 37 ataques registrados no Brasil, o equivalente a 46% do total. No mundo, são 192 dos 754 casos, ou 25%. Entre os 30 casos brasileiros com vítima mantida refém constam ainda sete invasões de domicílio ou situações de cativeiro dentro de casa e dois casos de tortura em cárcere privado.

Entre os 15 países com pelo menos 15 casos na base, apenas a Tailândia registra proporção maior de vítimas mantidas reféns, com 83%. Nos últimos três anos, a proporção no Brasil sobe para 86%, 12 de 14 casos.

Em 11 dos 37 casos brasileiros, os criminosos usaram ou exibiram arma de fogo, e em 15 a arma não foi especificada. A mediana do valor roubado nos 26 casos do país com montante informado é de US$ 93 mil, próxima da mediana mundial de US$ 97 mil, segundo o levantamento.

Nos últimos três anos, 4 dos 14 ataques registrados no Brasil deixaram vítimas feridas, o equivalente a 29%. A proporção mundial no mesmo período é de 53%. Na França, chega a 48%; nos Estados Unidos, a 42%; em Taiwan, a 67%. O cálculo considera os ataques contra patrimônio pessoal entre 16 de outubro de 2023 e 15 de outubro de 2026 e exclui os casos sem desfecho conhecido.

Os quatro casos brasileiros com vítima ferida no período ocorreram em Campo Limpo Paulista (SP) e Goiânia, em 2025, e em São Sebastião (SP) e Vitória, em 2026. Na série completa, o país soma nove casos com vítima ferida ou morta entre 37 registros.

A comparação entre frequência e gravidade inclui apenas países com pelo menos cinco casos nos últimos três anos, segundo a base:

"Um país pode ficar em posição baixa em frequência e alta em danos. No Irã e na Indonésia, todos os casos registrados terminaram com vítima ferida ou morta; no Brasil, 29%."

Brasil é 15º no ajuste pela população

Ajustado pela população com 15 anos ou mais, o Brasil registra 0,027 ataque por milhão de habitantes por ano nos últimos três anos e ocupa o 15º lugar entre 22 países com pelo menos cinco casos no período. Em números absolutos, na mesma janela, o país é o 6º, com 14 casos. Taiwan (0,549) e França (0,472) lideram a lista. Os Estados Unidos registram 0,038, e a Argentina, único outro país latino-americano do ranking, 0,047.

Ataques a fazendas de mineração, caixas eletrônicos de criptomoedas e tesourarias de empresas, que somam 80 dos 754 casos, ficam fora do cálculo, restrito aos ataques contra patrimônio pessoal.

"A contagem absoluta diz pouco sobre o risco", afirma o pesquisador. "Medido em relação à população, o quadro muda: os países com mais casos não são os países onde um indivíduo está mais exposto."

Falsos policiais, redes sociais e informantes

Em 3 de julho de 2026, dois homens que se passaram por policiais civis entraram em um hotel em Ribeirão Preto (SP), algemaram um influenciador digital de 18 anos, o colocaram no porta-malas de um carro e o levaram até Cravinhos (SP), onde ele foi obrigado a transferir quase R$ 800 mil em criptomoedas, segundo reportagem do G1.

De acordo com a investigação da Polícia Civil, os criminosos acompanhavam a vítima pelas redes sociais e sabiam que ela estava hospedada no hotel. Um dos suspeitos foi preso no mesmo dia, e o outro seguia foragido até a publicação da reportagem.

Em 11 de junho de 2026, um investidor e influenciador de criptomoedas foi retirado à força do próprio Porsche em Jardim Camburi, em Vitória, e conseguiu fugir dos sequestradores horas depois, na Serra (ES). A Polícia Civil afirma que a vítima era monitorada havia cerca de um ano. Os criminosos exigiram até R$ 5 milhões, mas obtiveram uma transferência de cerca de R$ 20 mil, o equivalente a 3,7 mil USDT, segundo a Tribuna Online. A polícia rastreou a transação na rede Tron e prendeu sete dos nove suspeitos identificados.

Em novembro de 2024, em Indaiatuba (SP), uma quadrilha que se passou por equipe de manutenção invadiu o escritório de uma investidora e a obrigou a transferir cerca de R$ 300 mil em bitcoins. A vítima virou alvo depois de comentar com funcionários contratados para uma reforma que investia em criptomoedas, segundo a Polícia Civil. A operação que prendeu oito suspeitos, em dezembro de 2025, rastreou as transferências até contas ligadas a uma corretora, segundo o G1.

Em maio de 2022, em Ribeirão Preto, uma amiga que frequentava a casa de um casal informou uma quadrilha sobre cerca de R$ 2,5 milhões em criptomoedas guardadas pelas vítimas, segundo o G1. Na Operação Kirvem, a polícia rastreou as transferências feitas para 120 endereços. Até novembro de 2022, 14 dos 15 bitcoins roubados haviam sido devolvidos ao casal, segundo estimativa citada pelo G1.

Em fevereiro de 2022, em Alto Paraíso de Goiás (GO), policiais civis viraram réus por extorquir quase R$ 1 milhão em criptomoedas de um empresário, também segundo o G1.

Projeto de lei prevê porte de arma para detentores de cripto

O PL 5.297/2026, apresentado em 4 de setembro pelo deputado Capitão Alden (PL-BA), altera o Estatuto do Desarmamento para autorizar o porte de arma de fogo a "possuidores de ativos virtuais sob risco de coação física".

O texto exige controle direto e exclusivo de ativos em autocustódia, exposição pública relevante, como manifestações de apoio aos ativos virtuais ou atuação como fundador, sócio ou dirigente de empresa do setor, e que a pessoa seja potencialmente identificável como alvo de coação. O projeto proíbe exigir valores, endereços de carteira ou chaves criptográficas como condição para a concessão do porte.

"O Brasil não está imune. Em 2021, o país registrou seu primeiro sequestro com resgate em criptomoedas [...]. Somente no ano de 2025, cinco ataques semelhantes foram registrados", argumenta o deputado na justificativa do projeto.

O caso brasileiro mais antigo registrado pela base é de 2017, quando a mulher do dono de uma corretora de criptomoedas foi sequestrada em Florianópolis e os criminosos exigiram o resgate em moeda digital, segundo reportagem da Folha de S.Paulo. Em 2025, a base registra oito ataques no país, três a mais que os cinco citados na justificativa.

Até 19 de outubro, a ficha de tramitação do projeto na Câmara dos Deputados registra apenas a apresentação, sem despacho para comissões.

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