Cripto pode decidir a eleição? Usuários de autocustódia somam 3 vezes diferença entre Flávio e Lula

Candidatos à presidência não têm posição sobre o tema: comunidade "ainda é muito ignorada pelos políticos brasileiros", afirma Marina Fuzeti Fagali, diretora do Juntos por Cripto.

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  • Os 6,75 milhões de usuários de autocustódia também superam os 5,98 milhões de votos brancos e nulos do 1º turno, segundo Fagali.
  • Entre os 84 eleitos da Bancada do Livre Mercado para o Congresso estão os autores dos projetos que protegem a autocustódia e permitem pagamento de salário em cripto.

Os 6,75 milhões de brasileiros que já usaram carteira de autocustódia equivalem a três vezes a diferença de votos entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial, destaca Marina Fuzeti Fagali, diretora do Juntos por Cripto. Braço brasileiro do Stand With Crypto, o Juntos por Cripto é um movimento de advocacy sem fins lucrativos que busca mobilizar a comunidade cripto em torno das agendas políticas e regulatórias do setor.

Flávio teve 56.104.503 votos (47,03% dos válidos) em 4 de outubro, e Lula, 53.879.538 (45,16%), uma diferença de 2.224.965 votos, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Os números sobre os usuários de autocustódia são da 2ª Pesquisa Nacional das Criptomoedas, realizada pela Paradigma com o Datafolha e publicada em agosto. A cifra equivale a 4% dos brasileiros, quase o dobro dos 2,2% registrados em 2025.

Em análise compartilhada com o WB3News, Fagali afirma que a comunidade cripto tem peso para decidir a eleição, mesmo considerando apenas um perfil específico dentro dos 29 milhões de brasileiros que já investiram em cripto:

"Isso já mostra o tamanho da relevância [...] que a comunidade cripto pode ter na hora de decidir uma eleição. Acho que pode ser muito decisiva. Isso fazendo um recorte de autocustódia, ou seja, quem usa autocustódia em cripto é uma parcela que já está um pouco mais involucrada no que é DeFi e no que é cripto."

Entre quem faz autocustódia, 89,6% consideram importante votar em um deputado ou senador comprometido em proteger os direitos de quem tem cripto, a maior proporção entre os grupos da pesquisa. O índice é de 85% entre quem usa corretoras de cripto e de 65,8% entre quem tem ou já teve cripto.

Autocustódia também supera votos brancos e nulos

Os votos brancos (2.300.798) e nulos (3.674.249) somaram 5.975.047 na eleição presidencial, e a abstenção chegou a 21,08% do eleitorado, ou 33,5 milhões de pessoas, segundo o TSE. Se esses eleitores estão sendo considerados decisivos na escolha do próximo presidente, os usuários de carteiras de autocustódia também podem ser, argumenta a diretora do Juntos por Cripto:

"Nessa disputa do segundo turno, a gente está vendo muito uma conversa sobre o foco, para quem está querendo, enfim, virar votos ou conquistar mais votos, ser principalmente em abstenções e brancos e nulos. [...] Mas, se você analisar os números, brancos e nulos foram 6 milhões. A autocustódia tem 6.750.000. Então, de novo, a gente mostra que um recorte muito específico da comunidade já tem maior relevância do que os votos brancos e nulos numa eleição tão polarizada quanto essa."

No site do Juntos por Cripto, que classifica políticos pela atuação legislativa e pelo discurso público sobre cripto, Lula e Flávio aparecem "sem posição", sem nenhuma declaração registrada sobre o tema, na consulta feita pelo WB3News em 16 de outubro. A postura de ambos os candidatos não é anormal, mas sim um reflexo do posicionamento da classe política brasileira em torno do tema, ainda que o país tenha atingido a liderança no Índice Global de Adoção de Criptomoedas da Chainalysis, diz Fagali:

"Isso reforça a importância que a comunidade tem no processo eleitoral, mas que ainda é muito ignorada pelos políticos brasileiros, infelizmente. E é por isso que a gente tem trabalhado cada vez mais forte para mudar esse cenário e para colocar a cripto num lugar de relevância política tal qual já é a relevância econômica, visto que o Brasil é o principal, o maior país em adoção cripto do mundo."

No primeiro semestre de 2026, as operações com criptoativos declaradas à Receita Federal somaram R$ 283,1 bilhões, segundo os dados abertos do órgão. As corretoras com sede no Brasil responderam por R$ 177,6 bilhões desse total.

Às vésperas do segundo turno, o Juntos por Cripto lançou a segunda fase de sua campanha de pressão política, agora voltada aos candidatos à Presidência. Pelo site da campanha, a comunidade pode enviar mensagens diretamente aos dois candidatos cobrando um compromisso público com uma plataforma pró-cripto, em temas como regulação, proteção ao investidor, inovação, autocustódia e segurança jurídica.

"Queremos garantir que uma comunidade formada por milhões de brasileiros tenha voz na construção das políticas que afetam diretamente esse mercado, sem pedir tratamento especial para cripto", afirma Fagali. "Quanto maior a participação, maior também a responsabilidade dos candidatos de apresentar posições claras sobre o tema."

Na primeira fase, direcionada a deputados e senadores, foram enviados cerca de 1,7 mil e-mails aos parlamentares, atingindo uma média de 100 mensagens por dia nos 17 dias que antecederam o primeiro turno, de acordo com o Juntos por Cripto. O movimento também se compromete a promover novas ações após o segundo turno, marcado para 25 de outubro.

Bancada do Livre Mercado chega ao Congresso com 87 parlamentares e defesa da autocustódia no histórico

A eleição de 4 de outubro renovou todas as 513 cadeiras da Câmara e 54 das 81 do Senado. Entre os eleitos, 114 assinaram o compromisso proposto aos candidatos pelo Instituto Livre Mercado (ILM) durante a campanha: 79 deputados federais, 5 senadores e 30 deputados estaduais e distritais. Com três senadores signatários que têm mandato até 2031, a Bancada do Livre Mercado terá 87 das 594 cadeiras do Congresso a partir de 2027, com parlamentares de dez partidos.

O compromisso prevê oposição à criação ou ao aumento de impostos e o combate a regulações excessiva, que limitem investimento, inovação e empreendedorismo no país. A meta do ILM é colocar o Brasil entre os 50 primeiros colocados do Índice de Liberdade Econômica até 2031; o país ocupa hoje a 134ª posição entre 176.

"A Bancada do Livre Mercado nasceu como um compromisso público e chega ao Congresso Nacional com uma representação concreta", afirmou Rodrigo Saraiva Marinho, CEO do ILM, em comunicado à imprensa.

Marinho também foi secretário da Frente Parlamentar pelo Livre Mercado (FPLM), que atuou em defesa de pautas do setor cripto. Em fevereiro de 2025, a frente se manifestou contra possíveis restrições do Banco Central à autocustódia, na consulta pública que antecedeu as regras para as prestadoras de serviços de ativos virtuais. Dias antes, a deputada Julia Zanatta (PL-SC), integrante da frente, havia apresentado o PL 311/2025, que propõe a garantia do direito à autocustódia de ativos virtuais no Brasil.

Em março de 2025, o presidente da frente, Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), apresentou no Congresso o PL 957/2025, que permite ao trabalhador receber até 50% do salário em criptoativos.

O Partido Liberal (PL) reúne 49 dos 79 deputados federais signatários do compromisso e terá, a partir de fevereiro de 2027, 121 deputados e 28 senadores, dos quais 19 eleitos em 4 de outubro.

Na Câmara, o número de representantes da Bancada do Livre Mercado cai de 89, na legislatura atual, para 79, enquanto no Senado sobe de cinco para oito, segundo o Mapa do Congresso do ILM.

A redução no número de integrantes não altera as diretrizes do instituto, afirma Marinho:

Agora começa a parte prática desse compromisso. O ILM vai acompanhar os projetos em tramitação, identificar propostas que aumentem impostos ou criem novas barreiras para quem empreende e produzir análises para subsidiar a atuação dos parlamentares. A ideia é dar aos integrantes da bancada informação e suporte técnico para que possam se posicionar ativamente sobre essas matérias.”

Novo Congresso oferece "prognóstico positivo" à pauta cripto, avalia diretora

O crescimento do PL no Congresso dá à pauta cripto, que ainda é "bastante liberal", um "prognóstico positivo", segundo Fagali. "A gente tem alguns candidatos mais à esquerda, mas que têm um certo alinhamento com a pauta, também reeleitos", acrescenta.

Dos 84 signatários do compromisso do ILM eleitos para o Congresso, 10 têm posição a favor do setor no Juntos por Cripto, segundo levantamento do WB3News. Oito são "fortemente a favor", entre eles Zanatta e Orleans e Bragança, e dois, Capitão Alden (PL-BA) e José Medeiros (PL-MT), "parcialmente a favor". Outros 47 são neutros, 13 não têm posição, e 14 estreiam no Congresso e ainda não constam da base. Nenhum signatário eleito é classificado como contrário a cripto.

Fagali destaca também que três deputados federais pró-cripto foram eleitos para o Senado. Na base do Juntos por Cripto, os deputados eleitos senadores em 4 de outubro com posição a favor do setor são Gustavo Gayer (PL-GO), José Medeiros (PL-MT) e Marcel van Hattem (Novo-RS). Os três figuram na plataforma com nota B, que corresponde a "apoia cripto parcialmente".

Gayer é autor do PDL 320/2025, que susta os efeitos da MP 1.303/2025, que alterava a tributação de aplicações financeiras e de ativos virtuais. Van Hattem assina com outros quatro deputados do Novo, entre eles Gilson Marques (SC) e Luiz Lima (RJ), o PDL 1012/2025, que susta os trechos da Resolução BCB nº 521 que incluíram no mercado de câmbio as transferências de ou para carteiras autocustodiais. Medeiros é autor do PL 3744/2026, que cria o Marco Legal do Mercado Descentralizado de Energia Elétrica e trata dos "ativos energéticos digitais".

Entre os cinco senadores eleitos da Bancada do Livre Mercado, Medeiros é o único com posição a favor de cripto. Carlos Jordy (PL-RJ), Fernando Máximo (PL-RO) e Domingos Sávio (PL-MG) são neutros, e Guilherme Derrite (PP-SP) não tem posição. Gayer e van Hattem não assinaram o compromisso.

Com o senador reeleito Rogério Carvalho (PT-SE), também ‘parcialmente a favor’, e Wilder Morais (PL-GO), cujo mandato vai até 2031, o Senado terá a partir de 2027 cinco nomes classificados como favoráveis ao setor no Juntos por Cripto, nenhum deles "fortemente a favor".

Dez das 17 matérias que a cartilha parlamentar da ABToken trata como estratégicas para o setor tramitam no Senado, e nenhuma foi aprovada em definitivo, conforme noticiado pelo WB3News. Fagali espera avanços nessas pautas na próxima legislatura:

"A gente tem três deputados federais pró-cripto que agora sobem para o Senado Federal, somando alguns outros senadores que se reelegeram, formando uma bancada (não gosto da palavra bancada, na verdade), mas um conglomerado de apoiadores da pauta maior. E isso favorece demais o avanço do debate, principalmente dos projetos que estão parados no Senado Federal já há bastante tempo, com destaque para o PL 4932, que é sobre segregação patrimonial, que é um dos projetos mais urgentes e mais determinantes hoje de proteção para a comunidade, de proteção ao consumidor, aos clientes."

O PL 4932/2023 obriga as prestadoras de serviços de ativos virtuais a movimentar os recursos dos clientes em contas individualizadas e a separar o patrimônio próprio do patrimônio dos clientes. O projeto nasceu na CPI das Pirâmides Financeiras, da Câmara dos Deputados, e está no Senado desde novembro de 2024.

Pronto para ser debatido na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o projeto foi retirado de pauta em 7 de abril de 2026 e até agora não foi remarcado. O relator, Irajá (PSD-TO), não disputou a reeleição e deixa o Senado em janeiro. A separação entre os bens das plataformas e os dos clientes é fundamental para garantir a proteção dos investidores, destaca Fagali:

"[É] o que divide o que é o bem do operador, seja da exchange, do custodiante ou do intermediário, do que é o bem do investidor. E com isso evita grandes quebras, como foi o caso da FTX há anos, ou mesmo algumas exposições de segurança, como foi um caso recente que a gente viu [...] da Bybit."

Com a troca de cadeiras, o Juntos por Cripto vai voltar a Brasília para retomar o trabalho de apresentação do setor e seus números aos novos parlamentares. Entre os estreantes, que tomam posse em 1º de fevereiro de 2027, Fagali considera "difícil cravar" um aumento substancial de congressistas que apoiem a causa. Por outro lado, de forma geral, a nova legislatura contará com mais parlamentares alinhados ao setor, conclui a diretora:

"Então eu vejo que a gente tem um ano de muito trabalho, mas bastante positivo no prognóstico. E o principal elemento que eu traria é especialmente um aumento de cadeiras pró-cripto já mapeadas no Congresso, afora os novos candidatos, que a gente ainda está fazendo uma apuração e uma análise de posicionamento."

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