O conta.vc, aplicativo brasileiro de pagamentos via Pix baseado em carteira autocustodial, é um dos 10 projetos selecionados para a quarta edição do Base Batches, acelerador oficial da Base, rede de camada 2 do Ethereum criada e incubada pela Coinbase. Segundo publicação da Base no X em 1º de outubro, o processo seletivo recebeu mais de 750 inscrições e foi o mais concorrido da história do programa.
No conta.vc, o usuário recebe, envia e faz pagamentos via Pix, a partir de uma carteira cujas chaves apenas ele controla. Em entrevista exclusiva ao WB3News, Don, fundador do conta.vc, explica que a inspiração para a criação do produto foi o alto nível de endividamento da população brasileira:
"O mercado brasileiro vive um problema enorme que é muito difícil para as entidades de hoje quererem resolver: o endividamento do consumidor. 82% das famílias endividadas, 80 milhões de brasileiros com dívida em atraso, 30% da renda indo pra pagar juros. Isso é um problema enorme, e grande parte dele mora em dívidas em que o colateral é o débito automático na conta dos clientes."
Cada equipe selecionada para o Base Batches recebe uma oferta de investimento de US$ 100 mil do Base Ecosystem Fund, sujeita à diligência. O programa virtual dura oito semanas, de 29 de setembro a 15 de novembro, e termina com o Demo Day em Nova York, em 17 de novembro, quando os projetos são apresentados a investidores.
Lançado em 2025, o acelerador seleciona duas turmas por ano de equipes em estágio inicial que ainda não captaram recursos em uma rodada seed formal e usam a Base como rede principal. A edição 004 buscou projetos de negociação, pagamentos, agentes e financiamento, segundo o comunicado oficial.
"O conta.vc se destacou pela combinação de uma categoria que acreditamos ter um potencial significativo, uma tração orgânica clara e uma equipe com forte capacidade de execução", afirma a Coinbase em depoimento enviado com exclusividade ao WB3News.
Usar a Base como rede principal é um dos requisitos do programa, e o conta.vc já operava na rede antes da seleção.
"A Base é o ecossistema perfeito pra gente desenvolver, são focados em founders e builders que querem resolver problemas reais utilizando a tecnologia blockchain", diz o fundador. "Estamos felizes e sentimos que estamos no ambiente correto pra atacar um problema tão grande."
No Brasil, o banco pode debitar os valores que entram na conta dos clientes para cobrir dívidas com a própria instituição, segundo Don. A autorização consta do contrato da conta, e o débito ocorre antes de o cliente escolher o que pagar: o salário entra, e parte dele ou o valor inteiro vai para a fatura do cartão de crédito, o cheque especial ou encargos por atraso.
Em agosto, 83,9 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, maior número da série histórica, após 20 meses consecutivos de alta, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa.
As famílias comprometeram 28,7% da renda mensal com o pagamento de dívidas em julho, segundo as estatísticas monetárias e de crédito divulgadas pelo Banco Central (BC) em 29 de setembro. Em agosto, a taxa média de juros do crédito livre às pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano, e a do rotativo do cartão de crédito, a 444,9% ao ano.
Quem está endividado não tem autonomia para gerir o próprio dinheiro, porque o banco pode reter os valores, e por isso milhões de brasileiros recebem o salário na conta de um parente ou de um amigo, afirma Don. Sem saldo acumulado, o devedor também não consegue guardar dinheiro para renegociar a dívida em condições melhores, explica o fundador:
"A gente quis olhar pra isso e equilibrar o poder de barganha de consumidor e grandes instituições, utilizar blockchain como tecnologia pra conseguir dar autocustódia, mas de uma forma que os usuários não precisem entender de cripto."
Segundo o conta.vc, nenhum terceiro consegue debitar ou congelar o saldo depositado no aplicativo, o que inclui bancos, credores e a própria empresa. Um salário que cai no conta.vc permanece lá até que o usuário decida para onde ele vai, escreveu Don em uma postagem publicada no X em 1º de outubro.
O Pix, sistema de pagamentos instantâneos do BC, era usado por 148 milhões de pessoas e 12,8 milhões de empresas no fim de 2025, segundo o Relatório de Gestão do Pix. O conta.vc opera sobre esse sistema: o aplicativo recebe Pix de qualquer chave, envia Pix para qualquer chave e pode efetuar pagamentos com QR code. O aplicativo também viabiliza transações com as stablecoins USDC e USDT, que podem ser convertidas de e para reais.
As transferências via Pix levam cerca de 12 segundos em média, segundo Don. A abertura de conta é feita apenas com a biometria facial ou a impressão digital do usuário, por meio de chaves de acesso (passkeys), e a interface reproduz o design dos aplicativos bancários com os quais os brasileiros já estão acostumados.
Ainda segundo o fundador, o saldo é mantido em uma stablecoin atrelada ao real, numa carteira inteligente (smart wallet) autocustodial criada no primeiro acesso com a chave. A abstração de contas permite que o usuário não pague taxas de gas nem precise selecionar redes e tokens ao utilizar o aplicativo.
Qualquer token enviado de redes compatíveis com a Ethereum Virtual Machine (EVM) para o endereço do usuário no conta.vc pode ser convertido com um clique em saldo em reais, sem ponte entre redes ou intermediários, como corretoras descentralizadas (DEX).
O aplicativo foi desenvolvido para quem não usa cripto. A abstração de contas permite que a tecnologia subjacente de contratos inteligentes seja ocultada do usuário final, e a palavra cripto não aparece em lugar algum visível ao usuário, segundo Don:
"É tecnologia autocustodial nas mãos de uma dona de casa comum, de um encanador, de uma mãe solo, de um motorista de Uber, de um empreendedor, de qualquer pessoa."
O conta.vc divulga publicamente suas métricas em ir.conta.vc. No balanço semanal publicado no X em 4 de outubro, Don informou que o volume movimentado no aplicativo desde o lançamento chegou a US$ 655,8 mil, após alta de 30% em relação à semana anterior. Setembro fechou com volume de US$ 374 mil, o dobro dos US$ 183 mil registrados em agosto.
No mesmo relato, o fundador informou que o aplicativo registrou o recorde de 218 usuários ativos semanais e 1.983 carteiras criadas. O lucro bruto acumulado soma US$ 4.007,48, dos quais 70% foram obtidos nos últimos 30 dias. A última semana também teve o menor número de tentativas de fraude desde o lançamento.
Nas respostas ao WB3News, a Coinbase afirma acompanhar o conta.vc há vários meses e destaca o "crescimento consistente" do produto, "semana após semana e mês após mês, tanto no número de usuários quanto no volume de transações".
"Somos um produto já ativo, com quase 2.000 clientes, volume e receita. Temos lançado features novas com frequência, tentando fazer um produto extremamente adaptado à realidade do brasileiro", afirma Don.
Uma das novidades é a Reserva, produto de poupança em cofres (vaults) lançado na semana em que o projeto foi selecionado para o Base Batches, que atingiu US$ 5 mil em valor total bloqueado (TVL) nos primeiros sete dias. Segundo Don, a Reserva permite aos usuários guardar dinheiro sem atrito e pode ajudá-los a quitar as dívidas. Trata-se do primeiro produto de um conjunto planejado para atender o perfil dos clientes do conta.vc.
Na mesma semana, o aplicativo passou a aceitar mais de uma chave de acesso por conta. A equipe também começou a construir e testar contas para microempreendedores individuais (MEIs), com recebimento de pagamentos de clientes, aceitação de cartão de crédito pelo celular, em parceria com o Saturday Bank, e separação entre as finanças do empreendimento e as pessoais.
A Coinbase acredita que o conta.vc tem potencial para competir com serviços financeiros tradicionais de pagamentos e poupança, com uma alternativa eficiente em termos de flexibilidade, funcionalidades e experiência do usuário.
No conta.vc, o usuário não paga pelos Pix que envia ou recebe. A empresa arca com o custo fixo das transações via Pix e cobra taxa de 2,5% nas operações em dólar, tanto na entrada quanto na saída. Quando a receita dessas taxas supera o custo dos Pix, a operação tem lucro bruto, o que ocorreu em todos os dias dos últimos 30, segundo o fundador do projeto.
"O conta.vc não oferece crédito e não cobra juros. Nenhum produto do conta.vc ganha mais quando o usuário deve", escreveu Don.
Base Batches marca passagem para a fase pré-seed, diz fundador
Com o Base Batches, o conta.vc deixa o estágio de produto mínimo viável (MVP) e passa à fase pré-seed, afirma Don:
"A chegada no Base Batches nos ajuda com mentorias que nos permitem deixar o produto mais robusto em tecnologia e segurança, além de dar exposição ao nosso trabalho e nos ajudar a distribuir através de novos canais de comunicação."
A seleção no programa coincide com o início da execução da estratégia de entrada do produto no mercado, estruturada em círculos concêntricos, segundo Don. O círculo interno reúne um segmento em que a empresa já tem canais e contatos, com pessoas que entendem o problema a ser solucionado e confiam na tecnologia. Cada camada seguinte avança em direção a usuários menos familiarizados com cripto. A ideia é que os usuários mais ativos ajudem a distribuir o aplicativo para a camada seguinte.
"Distribuição e CAC [custo de aquisição de cliente] decidem se esse negócio funciona", escreveu Don.
As metas do conta.vc para os próximos 60 dias são alcançar US$ 500 mil em volume mensal e 300 usuários ativos semanais, ante os 218 registrados no último balanço.
"É uma oportunidade gigante, apostar na redução da dívida, enquanto todo o mercado vive do aumento da dívida", afirma Don.