Como hackers usaram uma ferramenta de IA da própria Binance para roubar US$ 6,34 bilhões
Relatório preliminar da corretora reconstitui o ataque desde junho e informa que 98% dos ativos afetados foram repostos.
- Os hackers passaram pelos computadores de três engenheiros antes de chegar ao serviço interno que assina as transações das carteiras quentes da corretora.
- Cerca de US$ 2,85 bilhões foram congelados ou interceptados, abaixo dos cerca de US$ 3 bilhões informados pela corretora em 30 de outubro.
Uma entrevista de emprego falsa, um instalador adulterado de ferramenta de programação com inteligência artificial (IA) e uma ferramenta interna de IA da própria Binance abriram o caminho para o maior ataque hacker da história do mercado cripto, que resultou em perdas de US$ 6,34 bilhões em ativos digitais, segundo relatório preliminar publicado pela corretora na terça-feira, 3 de novembro.
Publicado no X pelo perfil oficial da Binance, o documento descreve uma campanha sofisticada, em várias etapas, que começou em junho e combinou engenharia social, download de software malicioso, ferramentas internas de IA comprometidas e invasão de computadores de funcionários.
Segundo a Binance, os hackers usaram acesso não autorizado a um serviço interno de assinatura de carteiras para iniciar transações fora do processo normal de saques. A investigação continua, e parte dos detalhes técnicos será mantida em sigilo para não servir de guia para novos ataques, afirma a corretora.
"Não foi um erro ou uma única violação, foi uma campanha de meses", escreveu no X o co-CEO Richard Teng, que atribui a divulgação do relatório ao fato de as lições irem "muito além da Binance".
Ataque começou com instalador adulterado em junho, segundo o relatórioEm junho, o engenheiro A, da equipe de DevOps de carteiras, área que reúne desenvolvimento e operação de sistemas, procurou num buscador uma ferramenta popular de programação com IA e baixou uma instalação adulterada do Homebrew, gerenciador de pacotes de código aberto usado sobretudo em computadores da Apple. A equipe de segurança da Binance detectou a anomalia, trocou o equipamento e renovou as credenciais ligadas a ele. A função do engenheiro e a de colegas da infraestrutura de carteiras, porém, ficaram expostas ao hacker, segundo a investigação.
Em setembro, o engenheiro de software B foi procurado numa plataforma legítima de vagas por alguém que se apresentou como diretor de projetos. O perfil de B na plataforma mencionava experiência prévia na Binance. Na primeira etapa, um suposto representante de recursos humanos fez uma entrevista por vídeo e compartilhou com ele uma conta de rede social com fotos e vídeos pessoais, para ganhar confiança. A Binance classifica a abordagem como mais avançada e enganosa do que as tentativas de engenharia social registradas até então.
A segunda entrevista, num aplicativo de mensagens, foi com uma pessoa que dizia ser CEO de uma empresa fictícia. No fim da conversa, B recebeu a instrução de baixar no computador de trabalho uma "tarefa" com um repositório de código malicioso, que rodou durante a instalação. O malware era de dia zero – logo, ainda desconhecido pelas ferramentas de proteção instaladas nos computadores da empresa. O programa trocou o pyenv, ferramenta que gerencia versões da linguagem Python, por uma versão maliciosa, abriu comunicação com um servidor externo do hacker e apagou rastros da invasão.
Ferramenta interna de IA serviu de trampolim, diz a BinanceEm 20 de outubro, a partir do computador de B, o hacker usou uma ferramenta interna de IA da Binance para chegar ao engenheiro A e a um terceiro funcionário, C, engenheiro de software de carteiras. No computador de A, encontrou um token de permissão para implantar contêineres, ambientes isolados em que rodam partes dos sistemas da corretora.
Em 29 de outubro, antes do início das transferências, o hacker entrou no computador de C, usou as credenciais roubadas de A, implantou um contêiner e acionou o script malicioso que deu início ao ataque.
As primeiras transferências foram registradas entre 17h05 e 17h09, quando cinco carteiras quentes da Binance mandaram 233,46 milhões de XRP a um endereço controlado pelo hacker. Carteiras quentes nas redes Solana e Optimism enviaram cerca de 970,5 mil SOL e 44,2 milhões de OP. A corretora recebeu então um alerta interno sobre transferências de grande volume e começou a investigar a ocorrência. Em seguida, uma carteira quente enviou 18.270 BTC ao hacker.
Na Ethereum, o hacker usou o serviço de assinatura para explorar o EIP-7702, mecanismo que permite a uma conta delegar direitos de execução a um contrato inteligente sem expor a chave privada. Com 50 transações de assinatura para manipular o nonce, o número sequencial das transações da carteira, deu a um contrato sob seu controle direitos parciais de execução sobre uma carteira quente da Binance.
A suspensão dos saques não bastou para conter as transferências. As autorizações maliciosas ficavam registradas na blockchain e funcionavam de forma independente da infraestrutura de saques da corretora. A carteira usava computação multipartidária (MPC, na sigla em inglês), técnica em que a chave é dividida entre participantes e nunca existe inteira num único lugar. Sem uma chave única para revogar as autorizações de imediato, a equipe precisou desenvolver e executar um procedimento específico, o que levou mais tempo, segundo o relatório.
A última transferência não autorizada, de 2.961,9 ETH, foi finalizada às 20h56. Às 21h10, ainda em 29 de outubro, a Binance registrou na carteira Binance 14 uma nova autorização para o endereço nulo da rede, o que apagou o código de delegação do EIP-7702. A corretora afirma que está revisando o processo de reação a incidentes, a cobertura das políticas de assinatura e os controles das carteiras quentes.
FBI atribui o ataque à Coreia do Norte, que negaO relatório cita informações do FBI (Federal Bureau of Investigation, a polícia federal dos EUA) de que hackers da Coreia do Norte são responsáveis pelo incidente. Em alerta publicado no fim de semana, o FBI atribuiu o roubo de mais de US$ 6 bilhões ao TraderTraitor. O FBI divulgou 628 endereços ligados ao caso, 608 deles no Ethereum, e pediu a corretoras e outras prestadoras de serviços de ativos virtuais que bloqueiem transações associadas a eles.
A Binance afirma ter detectado e evitado, ao longo de 2026, 57 casos suspeitos de ataques supostamente relacionados à Coreia do Norte. Entre as técnicas empregadas, a corretora lista entrevistas de emprego fraudulentas, programas maliciosos disfarçados de ferramentas populares de desenvolvimento, pacotes de software e extensões de navegador comprometidos e aplicativos falsos de videoconferência.
Kim Yo Jong, diretora de departamento do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores da Coreia, chamou as acusações de "absurdas" em 2 de novembro e afirmou que elas buscam "prejudicar a imagem internacional" do país.
Binance diz ter reposto 98% dos ativos afetadosA Binance afirma que vai absorver o impacto financeiro do roubo e que já reservou mais de 100% dos recursos necessários para cobrir o prejuízo. Até 31 de outubro, 98% dos tokens afetados tinham sido repostos, com saldo verificável na página de prova de reservas da corretora, segundo o relatório. A Binance informou estar comprando no mercado os ativos restantes, de menor liquidez. "Assumimos total responsabilidade e vamos reparar o dano", escreveu Teng no X.
Cerca de US$ 2,85 bilhões foram congelados ou interceptados, valor sujeito a conciliação e à variação de preços, segundo a Binance. Em 30 de outubro, a corretora falava em cerca de US$ 3 bilhões congelados. Teng afirmou nesta terça que os "saques foram retomados de forma ampla".
Os pontos de entrada usados no ataque foram fechados, e os sistemas infiltrados pelo hacker foram reconstruídos ou substituídos, entre eles o sistema de carteiras afetado e a ferramenta interna de IA, segundo o relatório. A Binance trocou os equipamentos atingidos, desativou credenciais e tokens dos engenheiros envolvidos, reforçou os controles de dispositivos e de risco do serviço de carteiras e ampliou a detecção de comportamento anômalo baseada em IA.
A corretora diz que vai contratar empresas independentes de segurança para investigar o incidente e que trabalha num fundo de pesquisa, com empresas de IA e do setor, voltado à segurança de IA em ambientes de blockchain.
Binance reabre saques de mais 85 ativos em segunda etapaA primeira etapa de reabertura dos saques começou na madrugada de 1º de novembro, com 15 redes, segundo a cofundadora e co-CEO Yi He. A rede Bitcoin foi a primeira a voltar, informou a Binance.
Em atualização publicada na noite de 2 de novembro, a Binance anunciou a segunda etapa, com início em 3 de novembro. A lista reúne 85 ativos em nove redes, num total de 103 combinações de rede e ativo, além de todos os bStocks, ações tokenizadas que a corretora disponibiliza aos usuários desde junho. A Ethereum concentra 38 ativos, a BNB Smart Chain (BSC), 31, e a Solana, 22. Entre os ativos estão as stablecoins USD1, FDUSD, TUSD e RLUSD, em mais de uma rede, e versões de BTC, ETH e XRP na BSC.
Os ativos não voltam todos de uma vez. A ordem segue a demanda dos usuários na última semana, e cada combinação de rede e ativo só é reaberta depois de verificações de segurança. Os depósitos seguem abertos e não foram afetados, e novos ativos entrarão na lista à medida que estiverem prontos.
A Binance orienta os usuários a conferir a disponibilidade na página de saque de cada ativo e rede ou na página de status das redes. O volume de pedidos pode causar atrasos ou processamento mais longo durante a reabertura, e a corretora recomenda tentar de novo depois de algum tempo quando um saque não for concluído.
BBrasil diz que ativos de clientes brasileiros ficam em carteiras friasO relatório não trata da operação brasileira. Em 30 de outubro, a BBrasil SPSAV, entidade da Binance que atende os usuários do país, afirmou em comunicado que os ativos virtuais dos clientes locais ficam em carteiras frias, desconectadas da internet, e que os saques de ativos virtuais estavam suspensos até a conclusão da verificação de segurança.
O relatório da Binance foi divulgado um dia depois do ataque ao Mercado Bitcoin (MB), que esvaziou as carteiras quentes da corretora brasileira na madrugada de 2 de novembro. Pelos valores informados pela própria corretora, o ataque soma cerca de US$ 49 milhões, entre US$ 12,9 milhões bloqueados e US$ 36,3 milhões ainda com o hacker, conforme noticiado pelo WB3News. O MB informou também que a plataforma segue bloqueada, sem data para retomada das operações.
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