"Ficar no Brasil se transformou num risco": Startup cripto migra para o exterior em resposta à regulação do BC

Kevin Voigt, CEO da Notus Labs, revela que a Chainless está transferindo sua estrutura para o exterior, mas manterá o atendimento a brasileiros por meio de parceiros locais.

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  • A mudança de domicílio é a principal adaptação da empresa ao novo ambiente regulatório, segundo o executivo.
  • Voigt defende controles contra fraudes e lavagem de dinheiro, mas prevê concentração e aumento de custos com regulação.

A Chainless, plataforma autocustodial de investimentos desenvolvida pela Notus Labs, está transferindo sua estrutura para fora do Brasil em resposta à insegurança que atribui à regulação do Banco Central (BC). Em entrevista exclusiva ao WB3News, Kevin Voigt, cofundador e CEO da empresa, afirma que a migração já está em andamento e constitui a principal mudança adotada pelo negócio para se adaptar à nova fase do mercado brasileiro de ativos digitais.

A decisão não implica no encerramento das operações no país. Com a nova estrutura operacional, o aplicativo e a base tecnológica da carteira migrarão para o exterior, enquanto as operações que conectam a plataforma a rampas de entrada e saída em reais serão realizadas por um parceiro regulado no país. Os detalhes da nova estrutura jurídica ainda estão sendo finalizados.

Kevin entende que o núcleo da atividade da Notus Labs, como fornecedora de uma carteira de autocustódia, não está sujeito ao mesmo enquadramento das prestadoras de serviços de custódia e intermediação previstos na Resolução BCB 520. Mesmo assim, Voigt diz que os assesores jurídicos da empresa recomendaram a transferência da estrutura do país para o exterior enquanto persistirem dúvidas sobre os limites de atuação de plataformas como a Chainless.

A distinção é central para entender a estratégia. Na autocustódia, o usuário mantém o controle das chaves que permitem movimentar seus ativos. Já a conversão de reais em criptoativos envolve uma conexão com o sistema financeiro que a Chainless pretende manter por meio de terceiros autorizados a operar no Brasil, assim como já ocorre hoje.

A mudança de jurisdição ocorre após um período marcado pelo crescimento da plataforma. Em agosto de 2026, a Chainless informou ter alcançado 40 mil clientes e mais de R$ 500 milhões processados desde o lançamento, conforme noticiado pelo WB3News. Na mesma ocasião, apresentou a integração com a Ondo Global Markets para oferecer exposição a ações e ETFs americanos em formato tokenizado.

O relato de Voigt também expõe uma distinção entre sua crítica à regulação e sua posição sobre os procedimentos de prevenção a crimes. O executivo afirma que a empresa sempre adotou a autorregulação como princípio, identificando a origem de recursos e clientes em transações acima de R$ 50 mil, e reconhece a necessidade de as empresas mecanismos que dificultem o uso de criptomoedas em fraudes. A objeção do executivo diz respeito à forma como o BC vem implementando as regras e às consequências para a livre concorrência.

Na entrevista a seguir, Voigt detalha a decisão de migrar, o papel dos parceiros locais e as mudanças no perfil dos clientes. Também discute privacidade, prevenção a fraudes e as oportunidades que a empresa identifica na interseção entre finanças descentralizadas e investimentos tradicionais.

Migração para o exterior

Caio Jobim, WB3News: A Notus Labs, que responde pela Chainless, é baseada e registrada no Brasil?

Kevin Voigt, CEO da Notus Labs: É isso que está mudando com a regulamentação. Éramos baseados no Brasil e estamos encerrando a operação aqui no Brasil.

De certa forma, isso está relacionado com essa insegurança jurídica. Fomos aconselhados de que é mais prudente, enquanto o regulador — voltando a falar mais de Banco Central — fecha todas as lacunas e esclarece posicionamentos, que a empresa não esteja no Brasil, para evitar dor de cabeça.

Já estamos no processo de migração. Por enquanto, se você entrar no aplicativo, vai ver que ainda há um CNPJ associado. Isso deve acontecer nas próximas semanas, inclusive. E está 100% relacionado à mudança regulatória.

Fomos orientados de que, por mais que a nossa tese — que não é só a nossa — pareça que vai parar de pé, ficar no Brasil se transformou num risco, em vez de um benefício. Então é mais fácil migrar para fora.

WB3News: Essa é uma das adaptações que vocês estão fazendo para se adequar às normas do BC? Há outras relevantes para a operação?

Kevin Voigt: Essa é a principal. De certa forma é uma pena. Tínhamos um CNPJ, pagávamos impostos aqui, tínhamos uma operação cripto no Brasil.

Temos receio de que isso gere algum nível de confusão. É possível que um CNPJ lide com a carteira e outro com a parte do Pix? Pode ser que sim. Mas acabamos decidindo: o que é de relacionamento Brasil com o cliente não vai ficar com a gente, vai ficar com o parceiro regulado. E o que diz respeito às interações com DeFi, ao próprio aplicativo, estará fora.

É uma pena acabar saindo, porque poderíamos ter ficado. A barra veio alta, mas acho que o que mais dói no final do dia nem é isso. É que o regulador está vindo a conta-gotas: de semana em semana, falando "agora é assim, agora é assado". Nunca sabemos o que está por vir.

Existe um grande nível de insegurança, não só na Chainless, mas em outros também: "se continuarem vindo linhas aqui, eventualmente eu não terei mais permissão para operar". Por essa razão decidimos sair.

Autocustódia, parceiros e conexão com o Pix

WB3News: Como a Chainless mapeou esse novo momento do mercado e como vocês entendem o lugar da empresa nesse novo arranjo regulatório?

Kevin Voigt: A gente acaba fazendo um paralelo muito grande com o que o browser foi para a internet e com o que a carteira é para cripto. Por mais simpes que a Chainless seja em relação a uma carteira como a MetaMask, no final do dia, tecnologicamente, a gente é uma carteira.

Essa é a nossa posição quando falamos de regulamentação. A gente acaba sendo essa interface entre o cliente e o mercado descentralizado ou, eventualmente, centralizado também.

Quando falamos do centralizado, parte do que estamos assumindo é que a prestadora de serviços de ativos virtuais no Brasil possa oferecer os serviços dela através da minha interface. O que quero dizer com isso é o Pix para cripto. Isso é parte da nossa premissa.

Se isso não parar de pé, muda muita coisa para a Chainless? Muda que a gente não vai conseguir conectar com o Pix. Mas seguimos sendo uma plataforma de ativos digitais com autocustódia.

Em nível de marketing, costumamos evitar o nome "carteira" porque somos tão mais simples de utilizar que uma MetaMask que, às vezes, isso traz pressupostos incorretos sobre a experiência de uso que o cliente vai ter. Preferimos "uma interface para DeFi", "uma plataforma para DeFi". Mas, tecnologicamente, somos uma carteira: você tem uma chave privada, pode exportar e importar em outro lugar. Por mais que crie a carteira com uma conta social, ainda é uma carteira.

Para tudo que for real, nosso plano é operar com um parceiro regulado local. Quando você fizer uma operação Pix, será cliente dessa instituição regulada, seguindo as regras do Banco Central para esse tipo de instituição. O que estamos argumentando é que é razoável que uma carteira faça essa ponte, essa aproximação entre o cliente e o parceiro regulado.

Não acreditamos que a regulamentação tangencie o usuário que vai de uma MetaMask, entra em um site e faz uma troca em DeFi. Isso não é o escopo. Da mesma forma, não achamos que o core do nosso negócio esteja sendo regulado.

Concorrência e custos: a conta ainda está por vir

WB3News: Sei que você não fala por outros agentes, mas isso também é uma preocupação de outros operadores que oferecem esse tipo de produto e serviço de intermediação tecnológica? A regulação está afastando essas empresas do mercado brasileiro?

Kevin Voigt: Não conheço uma que vai seguir com CNPJ no Brasil. Não conheço uma. Pensamos: "Não vamos ser o diferente. Vamos fazer o que todo mundo está fazendo, porque nunca se sabe".

Esse movimento que se teorizou aconteceu e segue acontecendo. Quem tem [operação no Brasil] — a gente, por enquanto, ainda tem — está saindo.

WB3News: Por outro lado, vemos a consolidação dos grandes players, inclusive bancos abrindo sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais. Na sua opinião, isso prejudica o ecossistema criptonativo e a inovação?

Kevin Voigt: Com certeza. Eu acho que a regulamentação muitas vezes vem com boas intenções, tentando combater problemas que de fato existem. Como comentei, há casos de fraude e lavagem de dinheiro que podem acontecer por meio de criptomoedas, tentativas de ocultação de patrimônio.

Mas isso sempre serve como oportunidade para alguns decidirem onde colocar a régua e, frequentemente, sufoca o mercado. Esses movimentos de consolidação eu não vejo com bons olhos.

Você tem um problema, quer endereçá-lo, mas isso acaba dando abertura para subir a barra lá em cima e deixar apenas poucos operando. Assim fica mais fácil de regulamentar, de garantir que as regras estejam sendo cumpridas, mas o ônus muitas vezes fica com o consumidor, o cliente das plataformas, que agora tem menos opções.

Acho que ainda nem vivenciamos os problemas disso. No longo prazo, ficará mais nítido na qualidade do serviço, nos preços, na agilidade. As coisas vão ficar mais caras, mais lentas, mais intermitentes. Quando a competição cai, o esforço diminui por parte de quem oferece o serviço. Não acho que isso seja positivo.

Essa é uma opinião bem pessoal. Enquanto empresa, seguiremos tudo que for exigido pela regulamentação. Isso está fora de questão. Mas, pessoalmente, acredito que a regulamentação não é a melhor solução.

WB3News: E quanto à estrutura, aos custos e à equipe, a regulação trouxe mais despesas?

Kevin Voigt: A gente vai pagar a conta depois. Como não estamos sendo regulamentados diretamente, nosso movimento é sair do país.

Acho que as empresas que ficarem no mercado tendem a aumentar o custo, a oferecer um serviço pior, mais caro, mais demorado. A conta ainda está para chegar no nosso relacionamento com o agente regulado.

Não estamos herdando esse custo regulatório, quem está é o parceiro regulado. Esse custo será transmitido, seja pela ausência de competição, seja simplesmente porque ele vai dizer: "Agora tenho que fazer mais, meu custo subiu, então o serviço será mais caro".

Ainda não vivenciamos isso, mas acredito que devemos vivenciar muito em breve.

Controles contra fraudes e a retenção de transferências por 24 horas

A Resolução BCB 584, que entra em vigor em 1º de janeiro de 2027, estabelece retenção cautelar para transferências destinadas a entidades do mercado de ativos virtuais no exterior ou a carteiras de autocustódia. A medida é válida para movimentações superiores a US$ 10 mil, por operação ou no total diário do cliente, e outras situações identificadas pelas políticas de risco da instituição.

O prazo de 24 horas é contado a partir do recebimento dos recursos de aporte, em reais ou criptoativos. A instituição pode liberar a operação antes, desde que fundamente e documente a decisão.

WB3News: Em que ponto as exigências de identificação e comprovação da origem e do destino dos recursos afetam vocês?

Kevin Voigt: Acredito muito na autorregulamentação dos mercados. Muito do que o BC exige, nós sempre fizemos, nunca porque foi exigido, mas porque não queríamos facilitar o crime, a lavagem de dinheiro, nem ter estresse com fraude. Queríamos uma operação tranquila.

Quando você quer movimentar mais de R$ 50 mil na Chainless, sempre pedimos identificação da origem dos recursos e o destino desejado. Sempre tivemos uma análise de compliance para avaliar quem é o cliente.

Não é em todo saque para autocustódia que pedimos a finalidade. Mas, acima de R$ 50 mil — e esse limite não é só de uma única transação; se você dividisse em outras, não faria diferença —, sempre paramos e conversamos com o usuário. Pedimos mais documentação, declaração de origem dos recursos, declaração de Imposto de Renda, finalidade pretendida.

Quero deixar bem claro: comentei que não acho a regulamentação a melhor solução, porém sou extremamente favorável a empresas implementarem esses sistemas para termos um mercado melhor. Quero atender um cliente com dinheiro lícito e não ter que enfrentar esse tipo de dor de cabeça.

WB3News: Como você avalia especificamente da regra de retenção de transferências por até 24 horas?

Kevin Voigt: Exatamente, é até 24 horas. Ela dá o direito à prestadora de ativos virtuais de reter o dinheiro, não é uma exigência. Pelo menos é assim que estamos entendendo, e é assim que nossos parceiros estão entendendo também.

Acho que o mercado caiu matando nessa norma, muitas vezes sem entender o que ela tenta prevenir. De novo, não sou a favor de regulamentação, estou fazendo o papel de advogado do diabo.

Vou dar um exemplo de casos que já pegamos: você rouba uma conta no Instagram, vende um iPhone que não tem e tenta escoar esse dinheiro para cripto, porque, quando cai em cripto, o dinheiro não pode mais ser bloqueado no banco.

O mesmo benefício para um empresário honesto, que busca proteger seu dinheiro de bloqueios, pode ser buscado por pessoas mal-intencionadas: "Lesei uma pessoa, vendi um iPhone falso e vou colocar esse dinheiro em cripto".

A função da norma é tentar dar tempo para a operadora entender se aquele pagamento ou transação não está relacionado com uma fraude. É dar tempo para fazer o dever de casa e garantir: "Essa transação aqui, de fato, vamos entregar a cripto, porque está tudo certo".

Não acho que isso seja ruim. Poderia até ser bom. O que realmente sou contra é quando a regulamentação vem de cima para baixo, em vez de uma autorregulamentação do mercado.

É uma tentativa de pensar quanto tempo é necessário — acho que 24 horas é exagero — para fazermos uma checagem, uma estrutura de compliance, e garantirmos que essa transação está sendo executada e ninguém vai contestá-la depois.

Privacidade e comunicação de operações ao Coaf

Outra obrigação envolve a comunicação ao Coaf. A Resolução BCB 591 incluiu entre as operações de comunicação obrigatória as transferências de ativos virtuais para ou de carteiras de autocustódia em valor igual ou superior ao equivalente a US$ 10 mil. A exigência decorre do valor e do tipo de operação, sem depender da identificação de suspeita.

Para as operações contratadas entre 1º de outubro e 31 de dezembro de 2026, a comunicação deverá ocorrer no primeiro dia útil de janeiro de 2027. Na nova estrutura da Chainless, essa responsabilidade recairá sobre o parceiro regulado que realiza as operações em reais.

WB3News: Como fica a comunicação ao Coaf de operações com carteiras de autocustódia?

Kevin Voigt: Não vamos fazer isso. Quem vai fazer é o parceiro.

Sei que há brasileiro que vai ficar extremamente paranoico e achar que isso é vigilância, que todo o dinheiro dele está sendo monitorado, com certeza há. Mas eu, enquanto alguém de tecnologia, sei que para tudo tem solução.

É muito provável que, no futuro, a Chainless lance soluções para adicionar uma camada de privacidade ao nosso usuário: o endereço que o parceiro de pagamento reporta não necessariamente conseguiria ser associado à sua conta com fundos.

O próprio Vitalik, da Ethereum, vem falando muito de privacidade. Acho que é questão de tempo. Esse caminho do regulador de achar que vai entender tudo que está acontecendo on-chain é um beco sem saída. Não acho que seja por aí a prevenção à lavagem de dinheiro.

O ideal é prevenir na originação, em vez de tentar entrar no final, na última etapa do problema, e não onde ele realmente nasce e acontece.

De neobanco cripto a plataforma de investimentos integrada a TradFi

A mudança no ambiente regulatório coincide com uma mudança de direção comercial da Chainless. A proposta inicial de incorporar serviços cripto à experiência de um banco digital deu lugar a uma plataforma focada em investimentos que não se limita a cripto ou DeFi.

WB3News: Quando a Chainless foi lançada há dois anos, você mencionava o desejo de se tornar um banco cripto. O que mudou desde então?

Kevin Voigt: Lá atrás, talvez influenciados pelo que estava quente no mercado momento, acreditávamos que havia uma grande oportunidade em pagamentos: conectar com o Pix, pagar contas, cartão, esse tipo de produto. Conforme o tempo passou e fomos dobrando a aposta no que funciona, entendendo do que o cliente gostou, fomos cada vez mais nos tornando uma plataforma de investimentos.

Hoje, o cliente que usa a Chainless tem vários perfis, mas descobrimos que o cliente que realmente se fidelizou com a gente, que retém, é um cliente com um perfil mais velho. Nosso cliente ideal hoje tem 50 anos ou mais.

Para cripto, não é o estereótipo. Acabou tendo um fit muito grande com esse público mais velho, que, no geral, está buscando ter um patrimônio seguro, mas fora do sistema tradicional. É alguém que às vezes entende o conceito de autocustódia, mas pensa: "Vou ter que cuidar da minha chave, fazer um curso? Vou ficar com receio? Como funciona?".

Tem um limiar que às vezes pode confundir. Nosso objetivo não é facilitar coisas ilícitas, muito pelo contrário, muito longe disso. Temos uma política de combate à lavagem de dinheiro superforte, avaliamos todos os clientes, fazemos monitoramento contínuo e trabalhamos com vários parceiros para garantir que todo o dinheiro que entra na plataforma tenha origem correta.

No geral, nosso usuário é um brasileiro com dinheiro limpo, dinheiro honesto, mas que busca ter uma parte desse patrimônio fora de um banco, fora de uma plataforma onde tenha receio de que, em algum momento de instabilidade política ou econômica, ele possa perder aquele patrimônio ou que ele fique retido.

WB3News: A integração com a Ondo Markets anunciada em agosto ampliou essa aproximação com os ativvoos tradicionais, mas acrescenta outra camada regulatória. A regulação também mexe com os ativos tokenizados disponíveis na Chainless?

Kevin Voigt: Acho que a CVM já deu alguns passos de um pouco mais de abertura para essa inovação com tokenização. É algo bem necessário, porque existe certa insegurança jurídica no que fazemos hoje com oferta de ações.

Não fazemos a oferta de ações diretamente, é a Ondo que está fazendo. Mas, mesmo se pensássemos em seguir a rota mais próxima possível no escopo da CVM, seia um pouco como pegar uma forma quadrada e tentar colocar numa redonda.

A regulamentação precisa de um refresco. Acho que, em parte, eles entendem isso e os movimentos estão indo nesse caminho. Enquanto alguns, como a gente, estão se sentindo suficientemente confortáveis para trilhar esse caminho e aguardar esclarecimentos, pode haver muita oportunidade sendo perdida pela falta deles.

WB3News: Diante desse cenário, ou até independentemente dele, há alguma novidade que pretendem adicionar à Chainless?

Kevin Voigt: Lançamos as ações tokenizadas e já temos um volume expressivo nisso. Um dos aprendizados é que não necessariamente porque temos um cardápio com centenas de ações americanas e ETFs o brasileiro está pronto para investir nesse mercado.

Ficou claro que ainda há um grande trabalho de educação com o investidor, para entender os ativos e o que faz sentido para o perfil dele. Isso ainda não resolvemos.

Mas há um produto que estamos vendendo bem: pools de liquidez de ações. Essa classe de produtos está numa crescente muito grande na Chainless. Hoje vendemos muito mais pools de liquidez de ações do que ações propriamente ditas.

WB3News: Então essa integração com as finanças tradicionais é uma tendência?

Kevin Voigt: Acho que sim. Não acho que o futuro do nosso cliente seja investir majoritariamente em cripto. Acho que cripto sempre será uma parcela pequena para alguém que tem patrimônio relevante.

Como buscamos ser uma plataforma de investimentos, conforme a tokenização avançar, devemos abrir o cardápio para oferecer mais produtos tokenizados.

Naquela época, usei o exemplo do Nubank, dizendo que queríamos ser o Nubank das finanças descentralizadas. O que o Nubank fez merece aplausos, mas, se pararmos para pensar, foi trazer a internet para a parte da frente do banco, o que chamam de front office. Você não vai mais à agência; a parte da frente está digitalizada. Mas a parte de trás ainda é extremamente tradicional, depende dos sistemas tradicionais.

Não acho que a inovação da internet vá até a metade. A tendência é inovarmos de ponta a ponta. Toda a parte de trás de uma plataforma de investimentos, de um banco, quando falamos de internet, é na blockchain. A blockchain é a base das finanças da internet.

É essa bandeira que seguimos levantando. Estamos surfando a onda. Hoje, com ações, abrimos nossos horizontes, mas acho que essa onda ainda está se formando e tende a amadurecer cada vez mais, seja aqui no Brasil, com a CVM falando de tokenização de valores mobiliários, seja globalmente. É um movimento sem volta.

WB3News: O oferecimento de ativos reais tokenizados brasileiros está nos planos da Chainless?

Kevin Voigt: Acho que a tokenização tem a maior parte dos benefícios quando a origem do ativo já é tokenizada. A dívida, o título, a ação nascem como um ativo na blockchain, um ativo global em mercados descentralizados, sem depender de todo o custo operacional de um ativo tradicional.

É aí que temos a grande virada de chave, ou uma nova onda de crescimento: a tokenização de primários. Isso vale tanto para o Brasil como internacionalmente.

Para o Brasil tomar a frente nesse mercado, tem que abrir, permitir que as pessoas experimentem. Senão, provavelmente veremos o mercado americano dar esse passo.

Seria interessante no Brasil. Nossos clientes são, em grande maioria, brasileiros; é nosso principal mercado. Mas acho que o público brasileiro pode se beneficiar disso independentemente de onde aconteça.

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