Lula quebrou a Polymarket: "oráculo da Faria Lima" falhou na eleição brasileira?

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  • Na Polymarket, as chances de Flávio Bolsonaro caíram de 77% para 0,15% entre 16h30 e 21h30 de 25 de outubro.
  • O mercado passou a apontar Flávio como favorito em 10 de setembro, quatro dias antes da primeira pesquisa Quaest que apontou o senador à frente no 2º turno.
  • No primeiro pregão após a eleição, o Ibovespa caiu 13,88%, a maior queda desde março de 2020, e o dólar subiu 8,21%.

Flávio Bolsonaro (PL) passou 45 dias como favorito para vencer a eleição presidencial na Polymarket. Deixou de ser na meia hora seguinte à retomada da apuração, entre 19h e 19h30 de 25 de outubro, dia em que ocorreu o 2º turno. Enquanto os eleitores votavam, das 8h às 17h daquele domingo, a probabilidade de vitória do senador na plataforma oscilou entre 76% e 82%. Às 16h30, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha 22,5%.

A partir das 17h, horário de fechamento das urnas, a probabilidade de Flávio caiu de 77% para 0,15% em quatro horas e meia, e a de Lula chegou a 99,85%. Como a cota paga US$ 1 em caso de vitória, quem apostou US$ 100 em Lula às 16h30 recebeu cerca de US$ 444.

Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, ou 64,25 milhões de votos, contra 48,21% de Flávio, que somou 59,82 milhões. A diferença de 4,43 milhões quebrou um tabu histórico no Brasil pós-redemocratização: desde 1989, nenhum candidato que terminou o 1º turno em segundo lugar havia vencido o 2º. Entre os dois turnos, Lula ganhou 10,37 milhões de votos, contra 3,72 milhões de Flávio.

A virada não apareceu nas pesquisas nem no preço. Na reta final do 2º turno, Lula apresentou tendência de alta sem, no entanto, passar à frente: na Quaest, a vantagem de Flávio caiu de 2 para 1 ponto entre 14 e 24 de outubro, e o Datafolha captou o mesmo movimento. Na Polymarket, a probabilidade de Lula quase dobrou entre 9 de outubro e a tarde da votação, de 11,5% para 22,5%.

"A Polymarket é simplesmente uma forma que o mercado tem de expressar se um evento vai acontecer", afirma Guilherme Barbosa, research na Paradigma Education, em depoimento exclusivo ao WB3News. "Em tese, ninguém aposta no Lula ou Flávio por viés: apostam para ganhar dinheiro."

A plataforma está bloqueada no Brasil desde abril, mas se manteve no radar do mercado financeiro durante a campanha. Em 2 de outubro, dois dias antes do 1º turno, Fabrício Tota, vice-presidente de Novos Negócios Cripto do Mercado Bitcoin, chamou a Polymarket de "termômetro proibido que a Faria Lima continua olhando", em publicação no LinkedIn.

Naquele dia, o mercado da eleição brasileira registrava 56% de chance a Flávio e 43% a Lula e somava quase US$ 3 milhões negociados em 24 horas, o maior volume da plataforma, segundo Tota:

"Os mercados preditivos foram banidos no Brasil no primeiro semestre. Contudo, a Polymarket segue como referência informal na Faria Lima: o mercado olha, comenta e usa na tomada de decisão."Nos dois pregões seguintes às votações, o Ibovespa andou na direção que a plataforma havia registrado na noite anterior.

Na Polymarket, cada cota "Sim" paga US$ 1 se o candidato vencer, e o preço da cota, entre zero e um dólar, é lido como probabilidade. Os preços na plataforma se formam pelas ordens de compra e venda dos próprios participantes, sem uma banca que defina as cotações.

Em 24 de abril, o Conselho Monetário Nacional (CMN) proibiu a oferta no Brasil de derivativos ligados a eventos políticos e eleitorais, por meio da Resolução CMN nº 5.298/2026. No mesmo dia, o Ministério da Fazenda anunciou o bloqueio de 27 plataformas de previsão pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), entre elas a Polymarket.

Mesmo assim, o mercado "Brazil Presidential Election" movimentou US$ 249,1 milhões até o encerramento, à 0h17 de 26 de outubro, com resolução vinculada ao resultado oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Preço andou antes das pesquisas

Às 17h03 de 25 de outubro, quando o gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, divulgou a decisão que prorrogou a votação por duas horas, as chances de Flávio eram de 76%. Quando a apuração foi retomada, às 19h, haviam caído para 60,55%.

Em meia hora, o cenário se inverteu. Às 19h30, Lula liderava com 73%, contra 29% de Flávio. Às 21h03, com 91,95% das seções apuradas e o presidente com 99% na Polymarket, o TSE confirmou matematicamente a vitória. 

Flávio assumiu a liderança do mercado da eleição presidencial na Polymarket em 10 de setembro. Entre 9h e 10h, o senador ultrapassou Lula por 48,15%, contra 47,50%. A Quaest não divulgou pesquisa naquele dia, e a rodada anterior, de 7 de setembro, registrava empate em 41% no 2º turno. A primeira Quaest com Flávio numericamente à frente saiu em 14 de setembro, com 42% a 40%.

Em depoimento ao WB3News, um empresário brasileiro que atua no setor e pediu para não ser identificado atribuiu o movimento ao ambiente de campanha:

"Esses mercados incorporam tudo: sentimento, pesquisas, notícias. Nesse caso, a mudança de preço coincidiu com um momento de notícias políticas que o mercado leu como negativas para um dos lados, e isso apareceu no preço antes de aparecer nas pesquisas. Essa incorporação rápida de informação é uma característica desses mercados."

A inversão de posições em 10 de setembro não foi a primeira. Flávio havia superado Lula pela primeira vez na Polymarket no fim de março e manteve a dianteira, com interrupções, entre o fim de abril e meados de maio, quando as chances dele caíram de 43% para 32% em 24 horas, após a divulgação de um áudio trocado com o banqueiro Daniel Vorcaro. O dono do Banco Master estava preso desde março sob acusação de fraude financeira.

Assim como Barbosa, o empresário descarta viés político na formação dos preços nos mercados preditivos:

"Não dá para falar em viés de esquerda ou de direita. Ao longo do ano, a liderança mudou de lado mais de uma vez, sempre acompanhando o noticiário. Olhando um recorte, parece viés; olhando o filme inteiro, é o mercado incorporando notícia rápido."

De 14 de setembro a 24 de outubro, a Quaest divulgou sete rodadas de pesquisas. Em todas elas, a vantagem de Flávio no 2º turno oscilou dentro da margem de erro de 2 pontos. No mesmo período, a probabilidade de Flávio ser eleito presidente oscilou entre 50% e 89%.

A mesma vantagem de 2 pontos na Quaest correspondeu a três preços no contrato, medidos na última hora cheia antes de cada divulgação: 50% em 14 de setembro, 61% em 3 de outubro e 85% em 14 de outubro, consolidando o senador como o favorito do mercado.

Nas três horas seguintes a cada uma das sete pesquisas, o contrato variou entre −2,35 e +2,80 pontos percentuais. A maior alta veio depois da Quaest de 3 de outubro, véspera do 1º turno, que confirmou a tendência de alta do opositor. Segundo o empresário, isoladamente esses movimentos não podem ser considerados desprezíveis:

"O mercado não precifica uma pesquisa só; ele incorpora várias pesquisas à medida que saem, e quem coloca dinheiro tem modelos que pesam muitas informações. Uma pesquisa sozinha costuma mexer relativamente pouco; o que move é o conjunto. Com dezenas de pesquisas rodando, 2,8 pontos por causa de uma é um movimento grande."

O salto do primeiro turno

A maior variação do contrato antes do 2º turno veio durante a apuração em 4 de outubro. Entre 17h e 18h, as chances de Flávio subiram de 63% para 85%. Flávio terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula; a Quaest divulgada na véspera dava 46% a Lula e 45% a Flávio.

"O pico veio logo depois do primeiro turno, quando o resultado das urnas surpreendeu as pesquisas", afirma o empresário. Em 9 de outubro, o contrato atingiu máximas de 89%.

Em depoimento ao WB3News, Jessica Mota, advogada especialista em estruturação de operações financeiras com uso de tecnologia, aponta dois motivos principais e dois complementares para o preço de Flávio no 2º turno. O primeiro está ligado a uma aposta na regularidade da série histórica: em todas as eleições presidenciais decididas em 2º turno desde 1989, o líder do 1º turno venceu. Barbosa, da Paradigma Education, concorda:

"O problema, na minha opinião, é que a vitória do Lula não era esperada por ninguém (nem pelos traders). Muitos acreditaram que a tese de 'um presidente nunca virou no segundo turno' iria se repetir e era uma 'aposta ganha' (...)."

Virada de Lula não foi capturada pelas pesquisas

As três pesquisas Quaest do 2º turno mantiveram Flávio numericamente à frente, dentro da margem de erro: 46% a 44% em 14 de outubro, 45% a 44% em 21 de outubro e 46% a 45% em 24 de outubro. Na última, o placar em votos válidos era de 51% a 49%. A votação deu 51,79% a Lula e 48,21% a Flávio, diferença de 2,8 pontos para cada candidato em relação à pesquisa, acima da margem de erro.

Datafolha, AtlasIntel, Futura, Nexus/BTG Pactual, CNT/MDA e Gerp também mostraram Flávio à frente nas últimas pesquisas. Isso pode ter reforçado a confiança dos usuários, segundo Mota:

"As pesquisas apontaram durante todo tempo que o Bolsonaro ia ganhar."

Barbosa acrescenta que os traders "esqueceram de ver outros fatores, como potencial queda de abstenção, brancos e nulos e o sucesso na campanha do Lula no segundo turno".

Entre os dois turnos, a abstenção caiu de 21% para 19,21% do eleitorado, os votos brancos passaram de 1,84% para 1,12%, e os nulos, de 2,93% para 2,12%, segundo dados do TSE. "São fatores bem específicos e realmente difíceis de mensurar (com antecedência)", afirma o research da Paradigma.

Mercados preditivos não são bolas de cristal

Michael Gilead, professor da Escola de Ciências Psicológicas da Universidade de Tel Aviv e um dos autores de um estudo sobre a calibração de mercados preditivos publicado dias antes da eleição, afirmou em uma análise publicada no X que a vitória de Lula estava contida na precificação do mercado:

"Como psicólogo, vejo uma ironia muito reveladora na pergunta [sobre como Flávio perdeu a eleição]. Por um lado, as pessoas não conseguem compreender a noção de incerteza (80% é 80%, não 100%). Ao mesmo tempo, as crenças de indivíduos (bem motivados) se agregam em estimativas probabilísticas calibradas."

O estudo analisou 1.014.122 contratos e perguntas resolvidos nas plataformas Kalshi, Polymarket, Manifold e Metaculus, em 12 domínios, de 2015 a 2025. Eventos precificados em torno de 70% aconteceram cerca de 70% das vezes, e eventos em torno de 20%, cerca de 20% das vezes. "Os mercados preditivos se parecem mais com seguradoras do que com bolas de cristal", compara Gilead.

Uma seguradora de vida estima com que frequência pessoas com determinado perfil morrem em um ano, sem prever o destino de cada segurado. Gilead aplica a mesma lógica aos mercados preditivos:

"Se a Polymarket dá 70% de probabilidade a um evento e ele não acontece, isso não significa que a estimativa estava errada. Uma previsão de 70% admite explicitamente 30% de chance de o evento não ocorrer."

O mesmo estudo identificou um padrão específico em eleições: nas faixas de probabilidade baixa e intermediária, os resultados aconteceram com mais frequência do que o preço indicava. "Uma tendência a sobreprecificar favoritos em determinados mercados eleitorais pode coexistir com a nossa constatação de que alguns resultados eleitorais de menor probabilidade são subprecificados", explica Gilead.

Considerando uma amostra mais ampla, o favoritismo não confirmado de Flávio Bolsonaro na Polymarket é um evento isolado e não contradiz a acurácia dos mercados preditivos, segundo o empresário:

"Um evento com cerca de 22% de chance (...) não é uma probabilidade tão baixa: acontece mais ou menos uma vez a cada quatro ou cinco. Então o resultado, sozinho, não prova erro. E o preço já estava abaixo do que uma leitura literal das pesquisas sugeriria, o que mostra o mercado ponderando outras informações além delas. Mercado e pesquisa são sinais complementares; a calibragem se avalia em muitas eleições, não em uma só."

Barbosa menciona ainda que o estudo de Gilead mostra que os mercados preditivos são mais eficientes onde há riqueza de dados históricos, como nos resultados trimestrais de empresas e nas taxas de juros dos Estados Unidos. Sobre a eleição brasileira, ele afirma que não acha "que a Polymarket 'falhou'":

"Todos achavam que ele ia ganhar, mas como tudo que envolve probabilidades, nada é impossível e nem 100% certeiro."

Colômbia e Peru: favoritos na Polymarket venceram por menos de 1 ponto

Em eleições igualmente polarizadas, na Colômbia e no Peru em 2026, os favoritos da Polymarket venceram os segundos turnos por menos de 1 ponto percentual. Assim como no Brasil, Abelardo de la Espriella acabou o 1º turno à frente de Iván Cepeda na eleição colombiana, contrariando as pesquisas.

Às vésperas do 1º turno, a Polymarket apontava a probabilidade de vitória de Espriella entre 58% a 66%. Nos dias anteriores ao 2º turno, em 21 de junho, atingiu 90%, superestimando o favoritismo de Espriella. O candidato que apoiou Flávio Bolsonaro venceu por 49,66% a 48,70%.

No Peru, a conservadora Keiko Fujimori liderava a pesquisa Ipsos de 3 e 4 de abril, com 15%, e era a favorita na Polymarket na véspera do 1º turno, em 12 de abril, com cerca de 30%. No mesmo contrato, Ricardo Belmont passou de 5% em 4 de abril para cerca de 25% em 11 de abril, mas acabou em quinto lugar, com 10,15% dos votos.

Um dia antes do 2º turno, em 7 de junho, a probabilidade de vitória de Keiko era de 68%. Nas urnas, ela venceu o progressista Roberto Sánchez por 50,13% a 49,87%, uma diferença de apenas 49.641 votos.

Nos dois países vizinhos, os candidatos de direita favoritos no 2º turno venceram por menos de 1 ponto. No Brasil, o favorito a 77,65% perdeu por 3,58 pontos. Segundo Mota, a onda conservadora pode ter contribuído para distorcer as probabilidades sobre a eleição presidencial brasileira nos mercados preditivos:

"A influência da direita tem tomado conta das eleições pelo mundo, então era esperado que isso se repetisse aqui."

A advogada acrescenta que "o fato da plataforma ser proibida no Brasil restringe muito a participação de uma base confiável".

Da Polymarket à Faria Lima

Na noite de 4 de outubro, data do 1º turno das eleições, o contrato de Flávio subiu 22 pontos em uma hora. Na segunda-feira, 5 de outubro, o Ibovespa fechou em alta de 7,70%, atingindo 206.911,89 pontos, recorde histórico e maior alta diária desde 24 de março de 2020. O dólar comercial recuou 4,12%, a R$ 5,001.

Se a volatilidade na Polymarket antecipou a euforia do mercado no 1º turno, o desfecho da eleição delineou o que estaria por vir no dia seguinte. Na noite de 25 de outubro, o contrato caiu de 60% às 19h para 0,15% às 21h30. Na segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608,23 pontos, com o primeiro circuit breaker desde março de 2020, e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,403.

Nas duas segundas-feiras, o contrato de Flávio havia registrado a direção do mercado cerca de 14 horas antes da abertura da B3.

Na série do Ibovespa, a queda de 26 de outubro fica atrás de quatro pregões posteriores ao Plano Real: 10 de setembro de 1998 (−15,83%), 27 de outubro de 1997 (−14,98%), 12 de março de 2020 (−14,78%) e 16 de março de 2020 (−13,92%), segundo dados da Elos Ayta citados pelo InfoMoney. Antes disso, os dois pregões posteriores ao anúncio do Plano Collor, em 20 e 21 de março de 1990, e a segunda-feira negra de 20 de outubro de 1987 tiveram quedas maiores.

"Contratos de evento são instrumentos de proteção e de informação, não apostas", afirma o empresário. "No Brasil, o caminho é o regulado e ligado a derivativos, via intermediário autorizado, conforme orientação da CVM."

No mercado regulado, a B3 negocia desde 27 de abril contratos de evento ligados a Ibovespa, dólar e bitcoin, restritos a investidores profissionais, com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras ou certificação técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Resolução CMN nº 5.298/2026 exclui desse escopo os contratos sobre eleições. 

Metodologia: o WB3News analisou o histórico de preços do livro de ofertas (CLOB) da Polymarket para os contratos de Flávio Bolsonaro e Lula no mercado "Brazil Presidential Election", com um ponto diário (21h, horário de Brasília) e resolução horária ou de 30 minutos nos dias-chave. A reação às pesquisas compara o preço na última hora cheia antes de cada divulgação da Quaest com o preço três horas depois. Os números das pesquisas Quaest constam dos registros no TSE. Os dados de Colômbia e Peru vêm dos contratos de vencedor da Polymarket, das pesquisas Invamer e Ipsos e dos resultados oficiais da Registraduría Nacional e da ONPE. Limitações: os horários de divulgação das pesquisas são os de publicação na imprensa, com margem de cerca de uma hora; três eleições não bastam para avaliar a calibração de um mercado.
 

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