Exclusivo: Stablecoins de real são "evolução" do Pix e prioridade da Base no Brasil, diz Coinbase
Empresa afirma com exclusividade ao WB3News que a "próxima onda" do mercado cripto será a das stablecoins em moeda local.
- A Base concentra 54,9% da oferta de stablecoins de real.
- Segundo a Coinbase, os produtos mais fortes vão combinar carteiras autocustodiais, integração com sistemas de pagamento locais e produtos de poupança e rendimento em moeda local.
A corretora de criptomoedas Coinbase aposta nas stablecoins atreladas ao real como prioridade estratégica no Brasil para a Base, rede de camada 2 do Ethereum criada e incubada pela empresa. Em depoimento enviado com exclusividade ao WB3News por meio de sua assessoria, a Coinbase afirma que a "próxima onda" do mercado será a das stablecoins em moeda local e trata esses ativos como uma evolução apoiada no Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central (BC).
"Para a Base, as stablecoins atreladas à moeda local são uma prioridade estratégica no Brasil, com potencial para viabilizar experiências financeiras e de comércio mais programáveis para pessoas e empresas no dia a dia", diz a Coinbase.
A Base já é a rede com a maior oferta de stablecoins de real. Em 22 de outubro, concentrava 54,9% do total de R$ 679,7 milhões em circulação, segundo dados do RWA Monitor. Quase toda essa oferta é de BRLV, stablecoin emitida pela Crown, fintech de São Paulo que recebeu recursos do Base Ecosystem Fund, fundo gerido pela Coinbase Ventures, braço de investimentos da Coinbase.
Atualmente, mais de 99% do valor de mercado das stablecoins está atrelado ao dólar, segundo o Brazil Tokenization Report 2026, publicado em setembro pela Nexa, empresa de infraestrutura para produtos de investimento. A Coinbase projeta uma maior diversificação no mercado de stablecoins no futuro próximo:
"Estamos observando uma adoção significativa de stablecoins atreladas ao dólar americano em todo o mundo, inclusive no Brasil, e uma demanda clara por esses ativos como instrumento de poupança. Acreditamos que a próxima onda será a das stablecoins atreladas às moedas locais."
A Base reúne 32 stablecoins de 21 moedas, entre elas o euro, o dólar canadense, a naira nigeriana e a rupia indonésia, além do real. Durante a conferência Token2049, realizada em Singapura, em outubro, Jesse Pollak, criador da Base, afirmou que o mercado está subestimando as moedas que não são o dólar. Em outubro de 2025, Pollak havia estabelecido a meta de ter todas as moedas do mundo na Base até o fim de 2026.
Como parte dessa estratégia, a Base lançou em junho o B20, padrão de token aberto disponível na Base Standard Library, biblioteca de código aberto da rede. Compatível com o ERC-20, padrão de tokens da Ethereum, o B20 reúne os recursos de conformidade exigidos de emissores regulados, segundo a Coinbase.
O B20 permite ao emissor limitar quem pode deter o token, bloquear endereços, recuperar saldos bloqueados e pausar transferências. Qualquer emissor pode adotar o padrão sem trabalhar diretamente com a empresa. A Coinbase não cita empresas brasileiras, mas diz que há emissores em diversos mercados interessados em adotar o padrão à medida que a tokenização de ativos reais avança:
Liquidação instantânea e alcance global são vantagens das stablecoins"Essas experiências [com stablecoins em moeda local] ainda estão em estágio inicial, e vemos a adoção ficando aquém do potencial que existe. À medida que as criptomoedas se tornam cada vez mais integradas à economia real, esperamos que mais fluxos de transações utilizem moedas locais: os bens são precificados em moedas locais e é dessa forma que as pessoas recebem, gastam e vivem."
O Brasil já possui um sistema de pagamento digital instantâneo amplamente adotado pela população. O Pix era usado por 148 milhões de pessoas e 12,8 milhões de empresas no fim de 2025, segundo o Relatório de Gestão do Pix, do BC. O envio de Pix é gratuito para pessoas físicas. Ainda assim, a Coinbase vê espaço para as stablecoins atreladas ao real no país:
"O sucesso do Brasil com o Pix demonstra como regras claras e uma infraestrutura financeira moderna podem impulsionar a inovação, a concorrência e a adoção pelos consumidores. Enxergamos as stablecoins não como concorrentes do Pix, mas como uma evolução que se apoia nessa base. As stablecoins evoluíram para se tornarem uma verdadeira infraestrutura de pagamentos — indo muito além de meros instrumentos especulativos — e oferecem vantagens que a infraestrutura tradicional não consegue proporcionar: liquidação instantânea, alcance global, custos reduzidos e design programável. Somente em 2025, as stablecoins processaram US$ 28 trilhões em volume econômico real (segundo a Chainalysis)."
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou em dezembro de 2025, no XP Fórum, que o Pix "resolveu de forma mais elegante" os problemas que as stablecoins e as moedas digitais de bancos centrais se propõem a solucionar. Galípolo afirmou que os pagamentos domésticos dispensam stablecoins, mas reconheceu que elas podem ter espaço nos pagamentos internacionais, que o Pix não atende.
Para justificar a aposta nas stablecoins de real, a Coinbase menciona que "o Brasil é líder global na adoção de criptoativos pelo público em geral". O país assumiu o primeiro lugar entre 117 países no Índice Global de Adoção de Criptomoedas 2026 da Chainalysis, publicado em setembro.
A Coinbase também cita a 2ª Pesquisa Nacional das Criptomoedas, feita pelo Datafolha em parceria com a Paradigma: cerca de 29 milhões de brasileiros já tiveram criptoativos, e outros 82,8 milhões dizem conhecer essa classe de ativos, mesmo sem nunca ter investido neles. Esse segundo grupo representa uma oportunidade para produtos mais intuitivos e confiáveis, segundo a empresa:
"A extensão e a velocidade desse avanço [na adoção de criptoativos] dependerão do ambiente regulatório. Apoiamos o objetivo do Banco Central de promover um setor seguro e bem regulamentado. Nosso foco é garantir que o arcabouço regulatório seja viável na prática, permitindo a operação de empresas em conformidade, assegurando a proteção dos usuários e mantendo a competitividade do Brasil no cenário global."
As Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, de 10 de novembro de 2025, regulamentam o Marco Legal dos Ativos Virtuais desde 2 de fevereiro de 2026. As normas condicionam o funcionamento das prestadoras de serviços de ativos virtuais (PSAVs) à autorização prévia do BC e enquadram no mercado de câmbio os pagamentos e as transferências internacionais feitos com ativos virtuais.
BRLV responde por 97% das stablecoins de real na Base, mostra BaseScanA BRZ, da Transfero, a BRLA, da Avenia, e a BRLV, da Crown, são as três stablecoins atreladas ao real que usam hoje a infraestrutura da Base, diz a Coinbase:
"A Base é uma camada de liquidação aberta, escalável e de baixo custo, que opera de forma independente das atividades da corretora centralizada (exchange) da Coinbase. A Coinbase não emite nem seleciona os ativos criados nessa rede. Como qualquer emissor pode realizar lançamentos na Base, a lista de ativos é dinâmica."
Levantamento do WB3News no BaseScan, explorador de blocos da Base, mostra 368,4 milhões de unidades de BRLV circulando na rede. A BRZ tinha 9,1 milhões de unidades, e a BRLA, 183,2 mil. O explorador registra ainda 2,26 milhões de unidades da wBRL, stablecoin de real da Ripio, que não consta da lista enviada à reportagem pela Coinbase. A BRLV responde por 97% da oferta de stablecoins de real na Base.
A oferta circulante de BRLV na rede está concentrada em 208 endereços, menos de um quinto dos 1.125 que detêm BRZ. O relatório 10+ BRL Stablecoins, publicado em maio pela Fintrender, classifica a BRLV entre os tokens de uso interno, restritos a fluxos institucionais. Entre as stablecoins de real de acesso livre, a emissão se concentra nas redes Polygon, Celo e XRP Ledger, segundo o relatório.
No ranking do RWA Monitor, a BRLV lidera com R$ 373,3 milhões, seguida pela BRLD, da Liqi, com R$ 148,9 milhões na rede XDC, e pela BRLA, com R$ 133,3 milhões na Polygon, segundo o RWA Monitor. A XDC responde por 21,9% da oferta de stablecoins de real, e a Polygon, por 20,6%. O painel associa cada stablecoin a uma única rede, e por isso a fatia da Base na base de dados corresponde apenas à BRLV.
Produtos com stablecoins locais vão reunir carteira, pagamentos e rendimento, diz CoinbaseA Coinbase Ventures participou da rodada seed de US$ 8,1 milhões da Crown, liderada pela Framework Ventures, com Valor Capital Group, Norte Ventures, Paxos e Ed Wible, cofundador do Nubank, em outubro de 2025. Em dezembro, a Paradigm investiu US$ 13,5 milhões na Crown numa rodada Série A que avaliou a empresa em US$ 90 milhões.
"A Crown recebeu financiamento por meio do Base Ecosystem Fund, um fundo destinado a investir em startups em estágios pre-seed e seed que escolhem a rede Base como sua base de operações" explica a Coinbase. "Nossa estratégia consiste em investir nos melhores talentos do mundo, que estão desenvolvendo a próxima geração de infraestruturas (primitives) e negócios onchain de alto desempenho e longa duração — iniciativas que impulsionam a atividade econômica real e definem o futuro do ecossistema onchain."
A experiência do usuário é um dos principais focos do ecossistema da Base, conclui a Coinbase:
"Os produtos mais fortes combinarão carteiras não custodiadas, integrações com sistemas de pagamento locais e soluções de entrada e saída de recursos (on/off-ramps), além de produtos de poupança, rendimento e investimento baseados em stablecoins locais. Empresas que conseguirem reunir e controlar essa experiência do usuário final podem ter um impacto especialmente relevante."
O conta.vc, aplicativo brasileiro de pagamentos via Pix com saldo em carteira autocustodial na Base, foi selecionado em 1º de outubro para a quarta turma do Base Batches, acelerador oficial da rede, conforme noticiou o WB3News. Cada projeto selecionado recebe uma oferta de investimento de US$ 100 mil do Base Ecosystem Fund, sujeita à diligência do fundo.
"A conta.vc é o tipo de empresa que acreditamos ter potencial para ajudar a desbloquear essa oportunidade", afirmou a Coinbase na ocasião.
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