"Tá tudo lá": Faraó dos Bitcoins diz que carteira sob posse da PF tem recursos para ressarcir vítimas da GAS

Preso desde 2021, o líder da GAS Consultoria garante que os criptoativos acumulados pela empresa continuam intactosna carteira fria que está sob custódia da Polícia Federal.

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  • Esquema de pirâmide financeira movimentou R$ 38 bilhões e pode ter afetado 77 mil credores, segundo as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
  • Em caso de condenação, Glaidson, sua mulher, Mirelis Zerpa, e outros 15 acusados podem pegar mais de 40 anos de cadeia.

Glaidson Acácio dos Santos, que se tornou conhecido como "Faraó dos Bitcoins", afirmou em depoimento à Justiça que há dinheiro para ressarcir os credores da GAS Consultoria Bitcoin na carteira fria mantida sob custódia da Polícia Federal. Em trechos inéditos do depoimento revelados pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo, 6 de setembro, Glaidson garante que os criptoativos jamais foram movimentados:

"A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá." 

Segundo a reportagem do Fantásico, cerca de 77 mil credores da GAS Consultoria cobram cerca de R$ 3 bilhões em ressarcimento. O esquema de pirâmide financeira montado sob a fachada de investimentos em criptomoedas movimentou R$ 38 bilhões, de acordo com as investigações.

Glaidson admite manipulação de mercado

No mesmo depoimento, Glaidson admitiu ter manipulado o preço de criptoativos por meio de operações coordenadas com outros grandes investidores — as chamadas "baleias", termo utilizado para designar entidades do mercado capazes de mobilizar capital suficiente para influenciar de forma significativa a cotação de criptoativos:

"Como 'baleia', eu consigo manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras 'baleias' e vamos falar o seguinte: 'Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda (…)' No mercado, uns riem, outros vendem lenços."

Ao descrever de que forma a GAS Consultoria operava e como foi capaz de captar cifras bilionárias junto aos clientes, explicou que fechava contratos individuais:

"Como diz aquele velho ditado, não sei se o senhor já ouviu: 'De grão em grão, a galinha enche o papo'".

Glaidson também relatou como movimentava dinheiro em espécie de clientes entre o Rio de Janeiro e São Paulo:

"Os meus funcionários iam, através de helicóptero, ia até São Paulo, levavam o recurso em espécie dos clientes, e as pessoas lá de São Paulo transferiam pra minha carteira da GAS".

O cofre da Polícia Federal e os 4,5 mil bitcoins da Flórida

A carteira fria a que Glaidsom se refere — dispositivo que guarda as chaves privadas dos criptoativos se conexão com a internet — está sob custódia da Polícia Federal, e o acesso depende de senhas que ele diz não lembrar. Sem as chaves privadas, os ativos não podem ser recuperados.

Há ainda uma movimentação que a investigação não conseguiu explicar: depois da prisão de Glaidson, em 2021, 4,5 mil bitcoins — cerca de R$ 1 bilhão à cotação da época — saíram das contas a partir de Kissimmee, na Flórida (EUA). Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, mulher de Glaidson, também responde pelos crimes. Ela fugiu do Brasil após a prisão do marido, e se estabelceu em Chicago. Três anos depois, foi presa e deportada pela imigração norte-americana.

Em depoimento, ela nega ter participado da administração da empresa e comparou o processo a "um livro de ficção científica":

"Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro em criptomoedas e fazer trading de criptomoedas. Ele (o marido) era quem sempre se comunicava com os clientes."

Cinco anos da Operação Kryptos

Glaidson tornou-se nacionalmente conhecido sob a acusação de organizar um esquema de pirâmide financeira sob a fachada de investimentos em criptomoedas à frente da GAS Consultoria. Os contratos firmados pela empresa com os clientes prometiam rendimentos mensais fixos de 10% sobre o valor investido.

A organização criminosa foi desarticulada depois que a Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal, deflagrou a Operação Kryptos. Glaidson foi preso em 25 de agosto de 2021 em uma ação que resultou na maior apreensão de criptoativos da história do Brasil até então — aproximadamente R$ 150 milhões na cotação da época. Carros de luxo e R$ 13 milhões em espécie também foram encontrados no local da prisão, um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.

Em outubro de 2021, o Ministério Público Federal apresentou a denúncia formal contra Glaidson, Mirelis e outros 15 réus por gestão de instituição financeira sem autorização, gestão fraudulenta e organização criminosa. É essa ação penal que agora entra na reta final. Em caso de condenação, Glaidson, Mirelis e os outros 15 acusados podem pegar mais de 40 anos de prisão. A defesa nega que os réus sejam culpados

A GAS Consultoria e Tecnologia teve a falência decretada em 17 de fevereiro de 2023 pela 5ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que rejeitou o pedido de recuperação judicial apresentado pela defesa.

A ação penal federal também não é o único processo em curso. Em 2 de outubro de 2025, a 1ª Vara Especializada em Organizações Criminosas do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou Glaidson a 19 anos e 2 meses de prisão por organização criminosa e corrupção ativa, em processo derivado da Operação Novo Egito, deflagrada em dezembro de 2022. Ele responde ainda, na Justiça estadual, pelo homicídio de Wesley Pessano e por uma tentativa de homicídio, casos que devem ir a júri popular.

Enquanto aguarda o desfecho dos processos, Glaidson cumpre pena na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná.

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