A Coinbase vai disponibilizar centenas de novos tokens de ações na Base, rede de camada 2 da empresa, nas próximas semanas, revela Guilherme Bettanin, Growth Marketing da Coinbase Wallet, em entrevista exclusiva ao WB3News.
A expansão da oferta acompanha o reposicionamento de marca da Coinbase Wallet, carteira autocustodial da corretora líder do mercado americano. Em 10 de setembro, o aplicativo foi rebatizado com seu nome original, deixando para trás a marca Base App. A marca, adotada em julho de 2025, foi uma tentativa de engajar os usuários em redes sociais descentralizadas, fomentando a creator economy.
Com retorno ao nome original, o aplicativo assume a função de "test kitchen" (cozinha de testes, em tradução livre) da Coinbase. A ideia é que a Coinbase Wallet permita aos usuários experimentarem novos recursos e ativos antes de uma adoção mais ampla. As ações tokenizadas estão no centro dessa estratégia, afirma Bettanin:
"Estamos diante de uma transformação estrutural: ativos do mundo real e mercados tokenizados são os segmentos que mais crescem no universo cripto. No entanto, grande parte dos investidores ainda não consegue acessar esse movimento e é justamente aí que queremos atuar, ampliando o alcance e democratizando o setor."
A Coinbase Wallet reúne em um único ambiente negociações de perpétuos da Hyperliquid, ações tokenizadas e mercados preditivos em mais de 11 redes, com liquidação rápida e funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana.
"A entrada de organizações tradicionais no mercado de tokenização representa uma mudança concreta, pois traz escala, legitimidade e infraestrutura para um setor que antes era dominado por iniciativas experimentais”, afirma Bettanin. “A presença dessas instituições acelera a adoção da tecnologia blockchain para ativos do mundo real, amplia a liquidez e atrai novos tipos de investidores que anteriormente não tinham acesso ou confiança nesse mercado."
Segundo o executivo, a institucionalização "cria padrões regulatórios mais claros e promove a integração com o sistema financeiro tradicional". Como resultado, "a tokenização está deixando de ser apenas uma promessa tecnológica e se tornando uma prática consolidada".
Apesar do reposicionamento, Bettanin diz que a Coinbase ainda acredita que “as pessoas querem ter experiências sociais associadas à negociação”:
“Por isso, continuamos experimentando recursos de social trading, como rankings, para oferecer aos usuários a melhor experiência possível."
O objetivo "não é necessariamente se referir a mercados nos quais o modelo de exchange com custódia não seria o mais adequado, mas sim oferecer um mecanismo que possa ser valioso para usuários em todo o mundo”, acrescenta o executivo.
Ao WB3News, Bettanin detalhou o modelo adotado pela Coinbase na emissão de ações tokenizadas, com lastro integral nos ativos subjacentes:
"Nossas ações tokenizadas são ações reais. Elas conferem propriedade efetiva. Os tokens da Coinbase representam a propriedade de ações reais com lastro integral, e não derivativos, exposição sintética ou um direito baseado exclusivamente na variação do preço da ação."
O executivo explicou que os detentores dos tokens têm direito aos benefícios econômicos e aos direitos associados às ações, "incluindo dividendos, quando aplicável, e direitos de voto em um futuro próximo". Além da negociação e da liquidação ininterruptas, os tokens podem ser usados em DeFi (finanças descentralizadas) como garantia, em empréstimos e em negociação combinada com outros protocolos. Bettanin também citou o uso por agentes de inteligência artificial (IA):
"Optamos por esse modelo porque acreditamos que o lastro direto nos ativos e a possibilidade de utilizá-los como blocos de construção programáveis para agentes autônomos de IA terão maior utilidade no longo prazo para o futuro das finanças."
A Coinbase lançou as ações tokenizadas na Base em agosto, começando com Apple, Nvidia, Meta e Alphabet. Segundo o executivo, as ações tokenizadas já estão disponíveis globalmente na Base, inclusive no Brasil:
"Construímos isso da maneira certa, não da maneira mais rápida. Agora que a base está estabelecida, vamos disponibilizar centenas de novos tickers nas próximas semanas."
A entrada da Coinbase no mercado de ações tokenizadas ocorre em um momento em que o volume mensal de negociação em exchanges descentralizadas (DEXs) passou de US$ 237 milhões em janeiro para US$ 7,9 bilhões em agosto, segundo relatório da Binance Research.
Em 17 de setembro, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC) aprovou uma isenção temporária que permite a negociação on-chain de ações tokenizadas em plataformas reguladas nos EUA. A isenção permite que ações listadas no National Market System (NMS), o sistema que reúne as bolsas americanas, sejam negociadas on-chain em pools de liquidez permissionados de formadores de mercado automatizados (AMMs). A ordem vale por cinco anos a partir da publicação e pode ser alterada ou revogada antes desse prazo.
A isenção cobre ações tokenizadas pela própria empresa emissora e por terceiros não afiliados. Instrumentos em que um terceiro emite um token que oferece exposição sintética a uma ação ficam de fora. As ações tokenizadas precisam ter os mesmos direitos a dividendos, os mesmos direitos de voto e o mesmo direito sobre o patrimônio residual que a ação original.
A ordem também concede poder de veto às empresas emissoras. Antes de listar uma ação tokenizada de terceiros, a plataforma precisa notificar por escrito a empresa emissora e aguardar pelo menos 30 dias corridos. Uma objeção por escrito apresentada nesse prazo impede a listagem.
A nova regra estabelece limites. Cada plataforma pode listar até 75 ações do Tier 1, que reúne as ações do S&P 500 e do Russell 1000 e alguns fundos de índice (ETFs), com volume de até 0,25% da média diária de negociação do mês anterior.
O Tier 2 abrange as demais ações do NMS, com limite de 250 ações e 2,5% do volume médio diário. Ultrapassar o teto de volume suspende a negociação da ação por três meses. As plataformas também precisam interromper a negociação do token sempre que a bolsa de origem suspender a ação.
A ordem foi emitida dois dias depois de o Senado americano rejeitar, por 49 votos a 50, o avanço do CLARITY Act, projeto de lei que estabelece um marco regulatório para o mercado cripto nos EUA. Em declaração que acompanhou o anúncio da ordem, o presidente da SEC, Paul Atkins, afirmou:
"O Congresso não conseguiu avançar com o CLARITY Act, apesar dos esforços incansáveis de muitos. Esta medida provisória precisa ser seguida por uma regulamentação duradoura, que garanta que os mercados on-chain continuem sendo um caminho viável."
A capitalização de mercado das ações tokenizadas passou de US$ 965 milhões no início de 2026 para cerca de US$ 4 bilhões em 9 de setembro, alta de 314%, segundo o relatório When Stocks Become On-Chain Assets (Quando ações se tornam ativos on-chain, em tradução livre), da Binance Research.
O volume mensal de ações tokenizadas em DEXs cresceu mais de 33 vezes entre janeiro e agosto, de US$ 237 milhões para US$ 7,9 bilhões. Em janeiro, o volume mensal negociado correspondia a 0,23 vez a capitalização de mercado média das ações tokenizadas. Em agosto, chegou a 2,14 vezes, depois de atingir 3,32 vezes em julho, segundo a Binance Research.
O uso em DeFi também cresceu. O valor total bloqueado (TVL) de ações tokenizadas em protocolos DeFi subiu de US$ 21,6 milhões no início do ano para US$ 289,1 milhões em 9 de setembro, alta de 1.242%. No mesmo período, a participação do TVL passou de 2,2% para 7,2% do valor de mercado ativo. Pools de liquidez concentram 65,4% desse TVL, e protocolos de empréstimo, 28,1%. BNB Chain, Robinhood Chain e Solana somam 90% do TVL.
As ações tokenizadas já se tornaram par de negociação para memecoins. Entre 26 de julho e 9 de setembro, mercados de memecoins pareados com ações tokenizadas movimentaram US$ 2,49 bilhões na Robinhood Chain e US$ 2,9 bilhões na BNB Chain. Numa amostra da Robinhood Chain analisada pela SQD, US$ 711,2 milhões, ou 32,1% do volume acumulado de tokens de ações em DEXs até 30 de agosto, vieram de negociações contra outros tokens, a maioria memecoins.
Em um mercado bastante competitivo, a Coinbase não descarta a integração de ações tokenizadas e memecoins. “As memecoins são uma expressão bastante típica do universo Web3, que permite aos usuários participar de uma maneira muito mais ativa e proativa”, disse Bettanin. “Nossa missão é ampliar a liberdade econômica. Queremos fazer isso trazendo mais ativos para a blockchain e ampliando o acesso das pessoas a todos os ativos que desejam negociar. Isso inclui as memecoins”, completou o executivo.