A pauta cripto não pode ficar restrita a um único campo político, sob risco de se tornar ideológica e de produzir uma regulação sem profundidade técnica, afirma Marina Fuzeti Fagali, diretora do Juntos por Cripto, braço brasileiro do Stand With Crypto.
Em entrevista exclusiva ao WB3News, Fagali afirma que a pauta está hoje "mais enviesada à direita" e que isso "não pode fechar as portas do outro lado". Ao procurar parlamentares para discutir o tema, a diretora já ouviu como resposta que "essa pauta é do lado de lá".
O Brasil já passou por processos semelhantes, que Fagali, com receio, classifica como "malsucedidos": a regulamentação das bets e a regulação das big techs. Nos dois casos, a diretora avalia que a pauta tomou um lado político, o outro lado se fechou, e a regulamentação avançou mesmo assim, porque o mercado seguia operando e era preciso regulamentar.
Cripto não pode ser submetido ao mesmo processo, defende Fagali:
"É preciso repensar o processo regulatório — é normal revisitar de tempos em tempos, mas, dessa forma, quem é mais penalizado é a própria comunidade, que está esperando que a regulamentação traga a segurança e a sustentabilidade necessárias para o setor se desenvolver. E o setor vai sendo penalizado por um ônus regulatório, porque o debate não está sendo sobre o setor em si, está sendo sobre uma ideologia."
Desde 2 de fevereiro de 2026, as prestadoras de serviços de ativos virtuais dependem de autorização prévia do Banco Central (BC) para funcionar, conforme as Resoluções BCB nº 519, 520 e 521, de 10 de novembro de 2025, que regulamentam o Marco Legal dos Ativos Virtuais. As empresas em operação têm até 30 de outubro para protocolar o pedido.
Nos Estados Unidos, debates como o da regulação de stablecoins e o do Clarity Act passam pelo Congresso. No Brasil, a regulação de cripto tem avançado por meio de resoluções do BC, sem tanto debate no Legislativo. Apesar disso, a arena não limita a atuação do Juntos por Cripto, segundo Fagali, que vê o órgão regulador como "mais sensível à pressão popular", porque "não está acostumado a lidar com ela".
A diretora questiona, porém, por que a regulação está sendo levada no âmbito infralegal, e não no Legislativo, e o quanto isso gera risco sistêmico para o setor:
"Isso também responde a um certo interesse político de enfraquecimento — porque, se o Banco Central emite uma norma, uma resolução que não está alinhada a um projeto de lei, no limite, quem descumpre essa norma não está diretamente agindo de forma ilegal; logo, a capacidade punitiva, ou de contornar a situação, também fica limitada."
Parte do trabalho do Juntos por Cripto é estender o debate sobre cripto para além do seu uso financeiro. O debate regulatório, porém, está calcado no uso financeiro, o que, afirma a diretora, deixa de lado "vários outros potenciais de impacto importantes, tanto para o ecossistema de cripto quanto para a própria política nacional":
"Cripto é uma ferramenta que tem sido muito bem usada pelo mercado financeiro, mas atravessa uma perspectiva que é econômica, não financeira. Existe, inclusive, um desentendimento comum, como se a economia fosse restrita ao mercado financeiro — e não é."
A missão declarada do Juntos por Cripto é transformar os brasileiros que fazem parte do ecossistema cripto em "uma voz uníssona e ativa na política brasileira". O movimento chega para somar ao trabalho institucional de associações como a ABCripto e a ABToken, segundo Fagali, que define o próprio papel como o de representante da "base de eleitores, e não mais as empresas".
A metodologia é a mesma que o Stand With Crypto aplica nos Estados Unidos, na Europa, na Austrália e no Canadá, segundo Fagali. A plataforma cruza o discurso público dos parlamentares no X, no Instagram e, eventualmente, na imprensa com a atuação legislativa, em que proposição, autoria, relatoria e votos contam pontos. O discurso pontua menos que a ação, as manifestações recentes pesam mais que as antigas, e o voto tem menos relevância que a relatoria, que tem menos relevância que a autoria.
O monitoramento do discurso é feito por inteligência artificial, integrada por API às redes sociais e aos sites da Câmara e do Senado, explica a diretora:
"Quando se trabalha com muita tecnologia, IA, monitoramento de discurso, é necessário calibrar, treinar o agente, principalmente porque no Brasil temos muita figura de linguagem, um humor muito sarcástico, que a inteligência artificial nem sempre é capaz de capturar de forma pronta."
Conforme noticiado pelo WB3News, apenas 48 dos 586 deputados e senadores monitorados pela plataforma tinham posição a favor ou contra o setor.
As eleições de 4 de outubro renovam todas as 513 cadeiras da Câmara e 54 das 81 do Senado. O Juntos por Cripto monitora hoje os mandatários; os candidatos ao Congresso somam mais de 10 mil nomes, segundo Fagali, e o movimento ainda não consegue mapeá-los.
Às vésperas da eleição, Fagali foi a Brasília para a última semana de esforço concentrado, com reuniões com parlamentares que ficam no Congresso e com os que buscam a reeleição:
"A nossa busca não é direcionar o voto da comunidade cripto aos políticos que já debatem cripto — não é sobre isso. É sobre envolver novos políticos no debate."
A entrevista, concedida ao WB3News em setembro, está reproduzida na íntegra a seguir.
WB3News: A 2ª Pesquisa Nacional das Criptomoedas identificou que dois em cada três brasileiros que têm ou tiveram cripto acham importante votar em senadores e deputados favoráveis ao setor. Você, que está mais próxima tanto das empresas quanto dos políticos: o quanto cripto pode ser prioridade na hora do voto, num país com tantas carências em diversas áreas? Que relevância cripto pode ter nesta eleição, efetivamente?
Marina Fuzeti Fagali, diretora do Juntos por Cripto: Eu acho que tem um peso relevante, sim — tanto pelos números que a própria pesquisa trouxe, que já deixam isso evidente, quanto pela forma como vem sendo construída a comunicação e a opinião pública sobre o tema, que acho um pouco dissonante da realidade prática.
Politicamente, no Brasil, a gente vive em muitos setores uma distância muito grande entre teoria e prática, entre discurso e prática política. Uma coisa é o que o político promete e fala publicamente, outra é o que ele faz ativamente dentro do Congresso e como ele de fato leva essas pautas adiante.
Trazendo isso para o olhar do setor de cripto é a mesma coisa: hoje a pesquisa aponta que já são 29 milhões de brasileiros que transacionaram cripto de alguma forma — cada um usa cripto de uma maneira, mas todos serão impactados diretamente por todo o arcabouço regulatório que esse sistema político é responsável por criar.
Essas pessoas claramente vão se preocupar com isso, porque vai afetar diretamente como elas trabalham com cripto. E 29 milhões de pessoas é muita coisa: se você lembrar, a última eleição presidencial teve uma diferença de votos de cerca de 2 milhões. E quando a gente olha para como funciona o quociente eleitoral no Legislativo, esse número tem um impacto muito grande.
Então já não é um nicho — mas, por alguma razão, na comunicação e na opinião pública ainda é tratado como um nicho. Acho que a capacidade é muito maior do que se imagina, e essa pesquisa traz isso à tona: é uma comunidade grande e politicamente mais engajada — desde os dados de 2025, da primeira pesquisa, já havia essa tendência. São pessoas que se preocupam mais, que buscam mais conhecimento sobre política, exatamente por estarem nesse momento em que o mercado ainda vai ser regulado.
É preciso saber em quem se vota e cobrar de quem se vota, porque é quem vai escrever as regras desse mercado que eu acredito ser o futuro do Brasil. Acho que tem, sim, uma relevância muito grande, que tem sido, de certa forma, subvalorizada ou subcomunicada. Por quê? Porque o próprio meio cripto ainda tem muitas questões que as pessoas não entendem na complexidade — o que é o ecossistema como um todo, o que cripto é capaz de fazer, como cripto é capaz de gerar impacto positivo para a sociedade.
E falo tanto da sociedade civil como um todo quanto dos próprios políticos. Quando a gente não entende sobre o tema, muitas vezes, em vez de buscar o conhecimento, finge que esse tema não é importante. Claro que, numa comparação, alguém pode perguntar: o que é mais importante, a fome ou o cripto? Educação ou cripto? Primeiro, não é uma coisa ou outra. Segundo, cripto participa de tudo isso — é uma ferramenta que pode gerar mais democratização de acesso ao capital, e que demanda educação; a gente tem, dentro do manifesto do Juntos por Cripto, uma pauta específica sobre a necessidade de educação.
A gente precisa atualizar os currículos: não adianta uma educação que não constrói para o futuro. Acho que tudo isso contempla um pouco da minha visão de como, neste ano, a gente vai mostrar essa relevância.
WB3News: Com base no levantamento que o Juntos por Cripto faz do Congresso atual, que já tratou de algumas matérias do tema, faz sentido falar hoje de uma "bancada cripto" organizada, com peso nacional, ou cripto é um tema que mobiliza em função de pautas e disputas específicas?
Fagali: Acho que ainda é um tema que mobiliza em função de pautas e disputas específicas — isso desde tudo que participei, inclusive antes do Juntos por Cripto, na concepção e no debate regulatório do setor. Mas há, sim, um interesse na formação de uma bancada, até porque se debate bastante se o próprio sistema político atual, o sistema de quadros, continua fazendo sentido dentro da política brasileira, e se o caminho de um sistema político mais eficiente não passaria pelas bancadas temáticas — já temos algumas bancadas temáticas que sabemos que conseguem entregar mais representatividade lá dentro. O que acho é que ainda falta muito envolvimento político.
Dentro do Juntos por Cripto a gente tem essa ferramenta de monitoramento, que monitora primeiro esse distanciamento do discurso à prática — uma coisa é o que o político fala, outra é o que ele está fazendo, e tudo isso conta nota para, no final, ele ter uma determinada avaliação. Mas também é um lugar em que a nossa busca não é direcionar o voto da comunidade cripto aos políticos que já debatem cripto — não é sobre isso. É sobre envolver novos políticos no debate. Porque o que acontece hoje, verdade seja dita — a gente tem inclusive um vídeo de lançamento que fala bastante disso —, é que o debate regulatório cripto começa aqui no Brasil lá por 2017, muito liderado pela Receita Federal.
A gente deu passos importantes, até antecipados ao mundo, no que diz respeito ao processo regulatório, discutindo as primeiras normativas. Só que, com o passar do tempo, a gente viu uma desaceleração por um lado e uma superficialização por outro — falta profundidade técnica no debate sobre cripto, de novo entendendo que cripto não se trata do mercado financeiro.
Cripto é uma ferramenta que tem sido muito bem usada pelo mercado financeiro, mas atravessa uma perspectiva que é econômica, não financeira. Existe, inclusive, um desentendimento comum, como se a economia fosse restrita ao mercado financeiro — e não é. Cripto também tem esse lugar: é econômico, não é financeiro, é uma nova forma de transacionar valor entre diferentes economias, diferentes comunidades, diferentes geolocalizações, estados, cidades. Acho que hoje o debate regulatório está muito calcado no ambiente financeiro, porque é onde cripto está sendo mais utilizado e onde uma tecnologia rapidamente comprovou muito valor, mas isso deixa de lado vários outros potenciais de impacto importantes, tanto para o ecossistema de cripto quanto para a própria política nacional.
E o que eu entendo é: quando você não tem uma contraposição no debate político — ideologias políticas diferentes debatendo a mesma coisa —, essa coisa se torna ideológica. Quando você cria contraposição, você atribui o caráter técnico que isso tem e aprofunda a visão regulatória, para que essa visão promova a inovação que a tecnologia entrega, e não fique cega e unidirecional.
WB3News: Existe hoje um viés político-partidário de quem é identificado a favor ou contra cripto no Congresso?
Fagali: Hoje existe, sim. Acho bem visível, bem inegável, que a gente tem principalmente uma linha política dominando muito esse debate. E é uma conversa que a gente tem tido bastante: isso não pode fechar as portas do outro lado. Às vezes acontece de eu bater numa porta e dizer "eu queria debater essa pauta" e ouvir "não, essa pauta é do lado de lá". E aí a pessoa nem se abre para ouvir o quanto essa tecnologia poderia entregar dentro da ideologia política dela também, porque, de novo, é uma tecnologia: é neutra, depende de quem está pilotando e do uso que está sendo feito, de para onde a gente vai conduzir.
Acho importante dizer que já passamos por processos semelhantes no país — receio dizer que malsucedidos — e ainda estamos tentando consertar o que foi mal feito, como a própria regulamentação das bets ou a regulação das big techs, em que a pauta toma um lado político, o outro lado se fecha, e a regulamentação avança de qualquer forma, porque o mercado segue operando e é preciso regulamentar. E aí vem uma regulamentação muitas vezes sem profundidade técnica, sem entendimento, e muito enviesada.
É preciso repensar o processo regulatório — é normal revisitar de tempos em tempos, mas, dessa forma, quem é mais penalizado é a própria comunidade, que está esperando que a regulamentação traga a segurança e a sustentabilidade necessárias para o setor se desenvolver. E o setor vai sendo penalizado por um ônus regulatório, porque o debate não está sendo sobre o setor em si, está sendo sobre uma ideologia.
Confesso que tenho um certo receio de trazer muitos nomes aqui e isso soar enviesado. Mas no site juntosporcripto.org as pessoas encontram todos os políticos, do mais ao menos pró-cripto, elencados por ordem de alinhamento com a pauta. Alguns nomes atuam muito forte na linha do PL, tem nomes do Missão — o próprio candidato à presidência do Missão fala bastante do tema, mas, de novo, discurso e prática ainda estão bastante díspares.
Prefiro dizer que hoje é uma pauta mais enviesada à direita, para partidos que hoje representam o que seria a direita do Brasil — então PL, Missão, e tem alguma coisa entre União Brasil e Podemos também. Mas prefiro não dar nome aos políticos.
WB3News: Como funciona a metodologia do Juntos por Cripto?
Fagali: É uma metodologia que já é utilizada pelo Stand With Crypto internacionalmente — já foi aplicada nos Estados Unidos, na Europa, na Austrália e no Canadá. Basicamente, a gente tem uma plataforma, uma ferramenta que monitora com algumas integrações de API, com IAs operando no monitoramento das redes sociais, capturando palavras e conteúdos, e classificando quanto à ação legislativa. Também está integrada aos sites do Senado e da Câmara. Analisamos proposição, autoria de projeto, relatoria de projeto, votos — tudo isso é contabilizado. Essa metodologia tem critérios concretos de pontuação, em que o discurso pontua menos e a ação pontua mais.
WB3News: Esse "discurso" contempla redes sociais em algum momento?
Fagali: Monitoramos o X (antigo Twitter) e o Instagram, e eventualmente falas na imprensa. Gostaríamos muito de também capturar eventos, mas é um pouco mais difícil, porque a tecnologia nem sempre alcança — mas tudo que conseguimos captar de discurso público, a gente monitora e pontua. Dentro dessa pontuação de discurso existe também uma graduação: o mais antigo vale menos do que o mais recente. Por quê? Porque entendo que todo mundo está aprendendo — é possível que, há cinco anos, um político tenha feito um post contra cripto porque não dominava o tema e não entendia como funciona, e agora, tendo aprendido, ele tem a chance de se recolocar. Então notas de posts e discursos mais recentes têm peso maior, e discursos mais antigos têm peso menor, respeitando esse processo educacional. Dentro da técnica legislativa também a temporalidade conta, e obviamente a relevância do que está sendo feito: o voto tem menos relevância do que a relatoria, que tem menos relevância do que a autoria, por exemplo. Todos esses critérios são bem objetivos — mas, verdade seja dita, quando se trabalha com muita tecnologia, IA, monitoramento de discurso, é necessário calibrar, treinar o agente, principalmente porque no Brasil temos muita figura de linguagem, um humor muito sarcástico, que a inteligência artificial nem sempre é capaz de capturar de forma pronta. A gente tem que lapidar isso, e é o que temos feito bastante por aqui.
WB3News: Para essas eleições de 2026, com a renovação de todas as 513 cadeiras da Câmara e de 54 das 81 do Senado, ainda que a gente saiba que quem já está estabelecido tende a permanecer — você vê uma tendência de aumento na possibilidade de formação concreta de uma bancada cripto, e de mais políticos com maior conhecimento do tema se envolvendo diretamente com a matéria? Como vocês estão mapeando esse cenário?
Fagali: É um desafio, porque uma das coisas que conversamos bastante aqui é que gostaríamos muito de, dentro da plataforma, não monitorar só os mandatários, mas também os candidatos. Só que mapear candidatos ao Congresso são mais de 10 mil nomes — esperamos chegar lá um dia, mas estamos começando aqui no Brasil, então precisamos começar aos poucos. Ainda assim, essa é nossa missão: ter mais políticos familiarizados com a pauta participando desse debate.
Neste mês, especialmente, estamos com um trabalho grande — hoje mesmo estou indo para Brasília para a última semana de esforço concentrado, marcando as últimas reuniões, conversando tanto com quem fica quanto com quem está buscando reeleição; os novatos são um pouco mais difíceis de mapear. Mas acho que existe uma perspectiva de renovação: primeiro porque há uma transição entre Câmara e Senado — muitos deputados se candidatam ao Senado —, e o Senado é sabidamente o órgão mais "velho", os mandatários já têm mais idade, já estão lá há mais tempo, já têm mais bagagem política.
E é inegável — a própria pesquisa traz esse dado de forma muito contundente — que cripto é uma tecnologia muito ligada à jovialidade, muito ligada à faixa de 16 a 35 anos. Acho natural que, conforme a gente rejuvenesce essas instituições, essa pauta naturalmente entre. Também foi muito interessante — não me lembro exatamente onde foi essa conversa — alguém comentou de um político que disse "meu filho investe em cripto para mim": então os próprios mandatários que às vezes não têm tanta familiaridade têm uma relação direta com um familiar mais jovem que ajuda a conhecer o tema. Acho que tudo isso vai abrindo essa oportunidade.
E, verdade seja dita, a própria institucionalização do setor — considerando o bom trabalho feito pela ABCripto e pela ABToken nos últimos dois anos — teve mais contundência, também abriu muitas portas, criou possibilidades para que isso permeasse um pouco mais a visão dessas pessoas. Então a gente chega para somar nesse trabalho institucional, mostrando um caráter de engajamento e mobilização popular — ou seja, eu represento propriamente a base de eleitores, e não mais as empresas. Aí consigo criar uma segunda camada de relevância para que isso comece a ser levado, daqui para frente, como um ponto crucial nas eleições.
WB3News: A regulação aqui no Brasil tem sido, em parte, diferente do que se vê nos Estados Unidos, onde debates importantes — como a regulação de stablecoins, o Clarity Act — estão ocorrendo no Congresso. Aqui, o processo passa muito pelo Banco Central, sem tanto debate público no Legislativo. Isso limita a atuação do Juntos por Cripto?
Fagali: Não limita, porque somos plenamente capazes de pressionar o Banco Central também. Claro que o Banco Central não é diretamente eleito pela população, então a forma de pressão é um pouco diferente — mas, por isso mesmo, ele às vezes é mais sensível à pressão popular, porque não está acostumado a lidar com ela, não trabalha dessa forma.
Tanto o Executivo (no âmbito infralegal) quanto o Legislativo, além da base eleitoral, respondem a uma segunda camada, que é a questão reputacional: como estou me colocando, como as pessoas estão vendo minha gestão, como estão entendendo o que estou falando. Porque, no fim das contas, mesmo não sendo eleito de forma direta, o Banco Central ainda é uma autarquia com um certo grau de independência que responde aos interesses da população — e, se em algum momento deixar de responder a esses interesses, ainda que a população não tenha todas as ferramentas para destituí-lo diretamente, esse enfraquecimento reputacional também onera a instituição.
Então, sim, somos capazes de gerar pressão sobre o Banco Central, e isso é muito importante. Agora, fica também a reflexão: por que isso está sendo levado no âmbito infralegal, e não no Legislativo, e o quanto isso gera risco sistêmico para o setor. Isso também responde a um certo interesse político de enfraquecimento — porque, se o Banco Central emite uma norma, uma resolução que não está alinhada a um projeto de lei, no limite, quem descumpre essa norma não está diretamente agindo de forma ilegal; logo, a capacidade punitiva, ou de contornar a situação, também fica limitada. É muito importante o alinhamento entre os poderes, para que o que estamos construindo seja, de fato, algo positivo para o ecossistema.
WB3News: Alguma mensagem final para a comunidade cripto às vésperas da eleição?
Fagali: Uma coisa que acho relevante trazer, que tenho construído muito na consciência das pessoas, é que talvez o que o Juntos por Cripto faz seja também usar cripto como ferramenta de educação política. Não é só educar politicamente sobre cripto e sobre o arcabouço regulatório em si — o que já é relevante —, mas talvez seja também um momento em que estamos conseguindo reaproximar a sociedade civil da política, porque ficamos muito distantes. E é um plano político muito bem-sucedido quando se afasta a sociedade da política: quem está no poder se mantém fazendo o que bem quer, porque não há monitoramento nem cobrança. Então é também uma ferramenta de mão dupla. E acho muito importante dizer que, a partir disso, muitos outros movimentos podem também surgir nessa linha.