A Receita Federal registrou R$ 283,1 bilhões em operações de compra e venda de criptoativos no Brasil entre janeiro e junho de 2026, segundo o Relatório de Dados Abertos divulgado em 27 de agosto. É o maior volume transacionado em um primeiro semestre desde que a série histórica teve início, em 2019. O recorde foi atingido a partir do crescimento de 21,3% sobre os R$ 233,3 bilhões movimentados no mesmo período de 2025.
Os mesmos dados revelam que a expansão do volume contrasta com uma queda no total de investidores: o número de CPFs declarantes caiu 45% em comparação com o pico da série, registrado entre agosto e novembro de 2023, quando, por quatro meses seguidos, mais de 9 milhões de pessoas físicas declararam operações à Receita Federal. Registrado em abril, o recorde no primeiro semestre deste ano foi de 5.077.018 CPFs únicos, bem abaixo da marca histórica.
O crescimento do volume também veio acompanhado por operações individualmente maiores. A consolidação dos investimentos declarados aponta que o tíquete médio passou de R$ 3.584 em 2023, ano do pico de declarantes, para R$ 2.216 em 2024 — a menor marca da série histórica — e voltou a subir até R$ 4.879 no primeiro semestre de 2026, a maior desde 2020.
Olhando só para os meses de pico de cada período, o contraste fica mais nítido: em novembro de 2023, R$ 27,7 bilhões foram declarados por 9,2 milhões de CPFs, razão de cerca de R$ 3 mil por declarante; em abril de 2026, R$ 43,5 bilhões foram declarados por 5,08 milhões de CPFs, razão de R$ 8,57 mil — quase o triplo.
O recorde de declarantes em 2023 coincidiu com uma mudança nos parâmetros de reporte das corretoras nacionais, mas desde então o total de investidores na base de dados da Receita Federal se manteve estável, com leve tendência de queda, como destaca Gustavo Cunha, sócio e gestor da comunidade Fintrender, no relatório "Cripto no Brasil em números":
"A base de pessoas físicas cresceu 34 vezes em seis anos. [...] Em 2025 houve leve retração ante 2024 (menos pessoas, tickets maiores), mas o patamar permanece na casa dos milhões. Em 2026 a média segue em ~4,5 mi de CPFs/mês (jan–jun)."
À primeira vista, o mercado cripto brasileiro ficou mais concentrado e não mais popular. Essa concentração também é de titularidade: pessoas jurídicas responderam por R$ 282,1 bilhões dos R$ 283,1 bilhões declarados no semestre — 99,7% do total. Sozinho, o canal "Exchanges no Brasil" respondeu por R$ 177,6 bilhões no semestre (62,8% do total). Segundo nota metodológica da própria Receita, todos os declarantes desse canal são PJs, porque é a corretora, e não o cliente final, quem declara.
Mesmo concentrando quase dois terços do volume, as exchanges brasileiras perderam espaço relativo ao longo do semestre: 37,2% do volume ocorreu fora delas — 14% em corretoras estrangeiras e 23,2% sem uso de exchange (P2P ou autocustódia, ante 32,6% no mesmo período de 2025. O canal "sem exchange", destaca Cunha, foi o que mais cresceu: de R$ 43,7 bilhões para R$ 65,7 bilhões, alta de 50,4%.
O número de CNPJs declarantes também cresceu ao longo do semestre — de cerca de 70 mil em janeiro para 116,4 mil em maio, segundo a mesma planilha —, mas em escala muito menor que os CPFs, o que reforça a assimetria: algumas dezenas de milhares de CNPJs concentram quase todo o valor declarado, enquanto milhões de CPFs concentram quase toda a contagem de declarantes.
Isso não quer dizer que os mais de 4 milhões de CPFs declarantes sumiram do mercado. Significa que a declaração e a titularidade do dinheiro são coisas diferentes: uma característica do desenho da declaração, não necessariamente evidência de que o varejo desapareceu.
O primeiro semestre de 2026 confirma a tendência de domínio das stablecoins de dólar na participação de mercado. USDT e USDC concentraram 92% do volume declarado no primeiro semestre de 2026, enquanto o bitcoin, com participação declinante, respondeu por apenas 5,1% do total — uma pequena fatia dos 80,8% que ostentava em 2019, no início da série histórica.
A queda da participação do Bitcoin e a ascensão das stabledoins não são um fenômeno linear, de acordo com os dados. Em 2024, quando o bitcoin registrou alta anual de 121%, sua participação no volume declarado foi de 15,1% (a maior desde 2021) e a das stablecoins recuou para 75,7%. Embora as flutuações estejam vinculadas ao ciclo de mercado, a dominância de mercado das stablecoins é uma tendência consolidada, segundo Cunha:
"A participação das stablecoins subiu de 87,9% em janeiro para o pico de 95,9% em maio, fechando junho em 93,5%. Só maio e junho responderam por ~41% de todo o volume do 1º semestre — sinal de tickets maiores e uso das stablecoins para transferência de valor, não apenas trading de varejo."
Em depoimento exclusivo para o WB3News, Diego Martins, sócio-fundador da BLOXtrade, empresa de tecnologia financeira B2B especializada em pagamentos internacionais e stablecoins, afirmou que a consolidação das stablecoins no mercado brasileiro está vinculada à adoção dessa classe de ativos em operações cambiais:
"Os números do primeiro semestre mostram que o crescimento do mercado cripto brasileiro não pode ser analisado isoladamente do comportamento do mercado cambial. Mesmo em um período de maior aperto regulatório, a queda do dólar teve impacto importante sobre as operações com criptomoedas pareadas à moeda americana, especialmente as stablecoins.
Segundo Martins, o cenário eleitoral indefinido também pode ter contribuído para o crescimento das stablecoins no período, na medida em que "houve um movimento de proteção cambial e de antecipação de operações."
O executivo afirma que, até o momento, as novas normas regulatórias implementadas pelo Banco Central tiveram pouco impacto sobre a demanda:
"O ofício [do Banco Central] que suspendeu os fundos de criptoativos foi publicado apenas no final de junho e, portanto, teve pouca influência sobre o resultado consolidado do primeiro semestre. Seus efeitos tendem a aparecer de maneira mais clara nos meses seguintes. Na BLOXtrade, o crescimento do canal de off-ramp, que concentra a parcela mais importante das operações da empresa, mostra que há demanda por essas soluções mesmo em um ambiente de maior cautela."
Geraldo Fabiani, líder do departamento de marketing da Coins.xyz Brasil, chega a uma conclusão parecida a partir do mesmo conjunto de dados: ao longo do primeiro semestre, o bitcoin caiu cerca de 33% — de US$ 87,6 mil para US$ 58,5 mil, segundo ele — e a capitalização global do mercado cripto encolheu cerca de US$ 890 bilhões, enquanto o volume declarado no Brasil batia recorde.
"Quem faz uma operação direcional pergunta sobre preço. Quem faz um pagamento pergunta outra coisa: quanto tempo leva para liquidar, qual o spread na ponta, se o dinheiro chega hoje ou na sexta", declarou Fabiani ao WB3News. "São dois clientes diferentes sentados do outro lado da mesa, e só um deles some quando o mercado cai."
Fabiani concluiu seu raciocínio afirmando que os próximos relatórios da Receita elucidarão o papel das stablecoins no atual contexto do mercado brasileiro: se o preço do bitcoin se recuperar e a participação das stablecoins no volume declarado continuar perto de 90%, a leitura de que o Brasil virou um mercado de pagamento e tesouraria em dólar digital se sustenta; se a dominância cair de forma relevante quando o preço subir, parte do que hoje é chamado de fluxo transacional pode ser apenas exposição barata ao dólar esperando o mercado virar.
Os dados do primeiro semestre de 2026 são os últimos medidos sob as regras da IN 1.888/2019. Em julho, entrou em vigor a DeCripto, Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025, que altera as obrigações de reporte de investidores pessoa física e jurídica.
Publicada em 14 de novembro de 2025, a norma moderniza o regime estruturado pela IN 1.888/2019 e amplia a capacidade da Receita de relacionar operações, usuários, prestadores e valores transacionados. As mudanças incluem o fim do anonimato em operações feitas por meio de plataformas estrangeiras, o cruzamento automático de dados entre a Receita e outros países e um reporte padronizado e recorrente por parte dos prestadores de serviço.
A DeCripto também formaliza a adesão do Brasil ao Crypto-Asset Reporting Framework (CARF), padrão desenvolvido pela OCDE para troca automática de informações fiscais sobre ativos virtuais entre países.