Em 30 de outubro de 2026, encerra-se o prazo para as prestadoras de serviços de ativos virtuais já em atividade, abrangidas pelas regras de transição, instruírem seus pedidos de autorização ao Banco Central (BC). O prazo, previsto na Instrução Normativa BCB nº 704, marca apenas o fim de uma etapa: protocolar o pedido não equivale a obter a licença. A partir da mesma data, a Resolução BCB nº 520 restringe a realização de operações por instituições reguladas com prestadoras que não estejam autorizadas nem em processo de autorização, ressalvadas as exceções previstas na norma.
Em entrevista exclusiva ao WB3News, Jorge de Almeida, sócio e CEO da Brasil Bitcoin, afirma que o pedido da corretora está “99% pronto” e projeta o protocolo entre o fim da primeira quinzena e o início da segunda quinzena de outubro. A empresa vai pedir autorização como corretora, reunindo as atividades de intermediação e custódia de ativos virtuais. Segundo Almeida, a decisão de não protocolar o pedido até o momento partiu de um conselho do próprio BC, com quem a empresa vem realizando diversas reuniões antes de formalizar o pedido."
Para essa modalidade, o capital mínimo exigido é de R$ 16,8 milhões. O valor é o triplo da previsão que o mercado fazia a partir das consultas públicas, de aproximadamente R$ 5 milhões. A corretora integralizou o montante com recursos próprios, acumulados desde a fundação, em 2018. Almeida atribui a folga de caixa a uma postura conservadora diante de um mercado cíclico e de receita instável.
A exigência de capital surpreendeu, mas não foi a parte mais trabalhosa do processo. Almeida aponta o envio de informações ao regulador como a etapa mais complexa da adaptação: os dados precisam ser transmitidos em formato e campos específicos, o que exigiu refazer a forma de coletar, armazenar e classificar cada operação. O reporte mensal a ser transmitido ao órgão regulador inclui depósitos e saques que envolvem instituições não brasileiras e também a tesouraria da própria empresa.
A adequação também exigiu a contratação de novos profissionais. A corretora tem hoje 35 funcionários fixos, contra 23 a 25 um ano antes, um crescimento de cerca de 40% em doze meses.
A expansão da empresa coincidiu com a ascensão do executivo. Fundada em 2018 pelos programadores Marco Castellari e Erick Crus, a Brasil Bitcoin informa ter alcançado 700 mil clientes e R$ 25 bilhões em volume acumulado de transações. Nos últimos anos, ampliou a atuação do varejo para operações de grandes volumes e serviços de infraestrutura.
Almeida foi contratado entre o fim de 2019 e o início de 2020 para uma função júnior de marketing, tornou-se sócio por convite dos fundadores no fim de 2023 e assumiu como CEO em 2024. A diversificação deu origem à B8, grupo de empresas que tem como sócios Castellari e o próprio Almeida e que reúne, além da corretora, a Shiel ID, de validação de identidade e prevenção a fraudes; a TCR, que converte pagamentos por Pix em USDT para lojistas; a Oracore, de infraestrutura para plataformas de mercados preditivos; e a Aurafy, de cartões globais e pagamentos internacionais com criptoativos.
O pedido de autorização para operar como Sociedade Prestadora de Serviços de Ativos Virtuais (SPSAV) será apresentado em nome da Brasil Bitcoin, não do grupo. As condições que viabilizaram o crescimento da empresa no passado deixam de existir com a entrada em vigor das normas, afirma Almeida:
“Depois dessa regulamentação, por exemplo, não vai haver uma segunda Brasil Bitcoin nas mesmas condições em que começamos. A Brasil Bitcoin começou com capital praticamente zero.”
Na entrevista a seguir, Almeida apresenta detalhes sobre a adequação da empresa e o estágio do pedido de licença, anuncia o lançamento da conta global para receber e enviar dólar e euro e antecipa o plano de a Brasil Bitcoin se tornar participante direta do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI).
Perguntas e respostas foram editadas e reorganizadas por temas privilegiando clareza e concisão, preservando o sentido das declarações.
WB3News: Como está o processo de autorização da Brasil Bitcoin junto ao Banco Central?
Jorge de Almeida, CEO da Brasil Bitcoin: Nosso processo está 99% pronto, vamos dizer assim. O que faz a gente não realizar a aplicação agora, faltando um mês para o prazo, é levar em consideração o próprio conselho que recebemos do Banco Central.
Por mais que ainda não tenhamos feito a aplicação, já fizemos várias reuniões com o BC, porque existem algumas obrigações que precisamos enviar. Tivemos trocas justamente porque eles também estão aprendendo sobre o mercado e recebendo sugestões. A gente vem auxiliando e aprendendo muito com eles também.
O conselho que eles nos passaram foi utilizar o prazo para ter certeza de que tudo está muito redondo, ajustar todas as vírgulas e os pequenos parafusos. Tecnicamente, nós já estamos prontos para fazer a aplicação, mas queremos ter esse capricho final, seguindo o conselho que recebemos.
A expectativa é fazer o protocolo entre o final da primeira quinzena e o início da segunda quinzena de outubro.
WB3News: Em quais modalidades vocês pretendem atuar?
Jorge de Almeida: Neste primeiro momento, devemos aplicar como corretora para prestar serviços de intermediação e custódia.
Das redes sociais ao comando da corretora
O enquadramento reúne duas funções previstas na regulamentação: intermediar operações e custodiar ativos virtuais. A preparação para exercê-las sob supervisão do BC se apoia em uma estrutura tecnológica que, segundo Almeida, foi desenvolvida desde os primeiros anos da empresa.
Fundada por Marco Castellari e Erick Crus, a Brasil Bitcoin iniciou as operações em 2018. Os dois programadores formaram a base técnica da companhia. Almeida chegou depois, inicialmente para cuidar das redes sociais. Gradualmente, passou a participar do desenvolvimento de produtos antes de assumir a gestão.
WB3News: Você foi contratado nos estágios iniciais da empresa, para um cargo não executivo, e acabou se tornando CEO. Como foi esse desenvolvimento paralelo, seu e da Brasil Bitcoin, até assumir o comando em 2024?
Jorge de Almeida: Entrei entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020, em um cargo júnior relacionado ao marketing. Era responsável por estruturar o conteúdo nas redes sociais, desde as ideias até os posts. Já tinha experiência com programas de edição de imagem e sempre fui entusiasta do mercado cripto.
Fui ganhando reconhecimento por combinar em meu trabalho duas coisas de que gostava: a tecnologia e a parte visual dos produtos. A Brasil Bitcoin foi fundada pelo Marco e pelo Erick, que são programadores, se conheceram na faculdade e viram uma oportunidade na experiência do usuário e no suporte do mercado de criptoativos.
Desde o início, eles foram muito focados na programação. Isso nos deu uma vantagem competitiva, porque tecnologia é algo muito caro. Montamos uma estrutura enxuta, com foco na automação dos serviços, para não inchar a operação em um mercado que sempre foi instável e dinâmico.
No final de 2023, fizemos uma reunião. O Marco, que comandava as decisões como CEO desde o início, me convidou, junto com o Erick, para ser sócio. Naquela ocasião, ele estava para ter um filho e queria passar alguns meses mais perto da família. Disse que tinha me treinado ao longo dos anos e avaliado se eu tinha a capacidade e a confiança para tocar a administração.
Alguns meses depois, ele voltou a atuar mais ativamente na empresa. Eu já tinha criado processos, o gerenciamento das equipes estava indo bem e entramos em comum acordo de que fazia sentido eu continuar na posição.
WB3News: Quando surgiu o convite, você ainda era responsável pelo marketing ou já tinha outras atribuições?
Jorge de Almeida: Eu continuava estruturando o marketing. Quando entrei, era só eu; depois fui formando a equipe para delegar funções e ganhar escala no planejamento.
Mas sempre fui muito focado em produto, e até hoje dedico meu tempo a isso. Procuro novos produtos e formas de melhorar o ecossistema. Os lançamentos passam pela minha validação e, às vezes, eu mesmo crio os fluxos: quais são as telas, onde ficam os botões, as imagens, os textos.
Até o final de 2023, eu já tinha mais liberdade para trabalhar com produtos, além das mídias sociais. Quando me tornei CEO, passei a ter uma visão mais ampla do comercial, suporte, marketing, produto, regulatório e jurídico.
WB3News: Essa transição para o cargo executivo tem relação com a adoção da marca B8 e a oferta de outros produtos para empresas?
Jorge de Almeida: Foi algo que aconteceu em conjunto, mas não de forma estruturada. Começamos a trabalhar em outros negócios além da Brasil Bitcoin. Construímos, por exemplo, uma empresa voltada à identificação e ao cadastro de usuários, a partir de uma solução interna da corretora que acabou virando um negócio.
Entendemos que precisava haver um nome para esse grupo de empresas. Foi daí que surgiu a ideia da B8, por termos mais de uma marca no mesmo grupo.
Almeida revela que a empresa se preparou antecipadamente para atender aos requisitos do BC. As consultas públicas permitiram que a empresa planejasse a estruturação da operação regulada com base em demandas concretas. Mesmo assim houve surpresas, especificamente no que diz respeito ao capital mínimo. Para as atividades exercidas pela Brasil Bitcoin, o BC exige R$ 16,8 milhões.
WB3News: Antes mesmo do início dos debates públicos sobre o tema, vocês já projetavam a regulação do mercado? Como a empresa se preparou para esse momento?
Jorge de Almeida: Sempre entendemos que a regulação seria inevitável. Quando começamos, ainda não havia a obrigação de reporte de operações com criptoativos à Receita Federal. Depois veio o marco legal dos criptoativos, em 2022.
Desde o começo, mesmo sem regras específicas, tínhamos o entendimento de que seria algo semelhante ao mercado financeiro tradicional. Isso passa por questões básicas de identificação e monitoramento de clientes, pela trilha de onde o recurso vem e para onde vai e por toda a parte contábil e financeira da empresa.
As consultas públicas foram interessantes para dar um norte mais claro. Acho que a grande alteração que impactou os participantes foi o capital mínimo regulatório. Nossa previsão era de aproximadamente R$ 5 milhões, considerando a corretora e atividades adicionais, como o staking. Quando saiu a regulamentação definitiva, vimos que o valor tinha triplicado para corretora, não para intermediação.
Além do capital, há demonstrações financeiras auditáveis, ferramentas de controle e compliance. Toda essa carga regulatória tem um custo: pessoas, ferramentas, processos, tecnologia e o próprio recurso financeiro em si mesmo.
Nossa vantagem é que, desde o primeiro mês, a Brasil Bitcoin é uma empresa lucrativa. Nunca recebemos aporte externo de investidor. Como o mercado é dinâmico e vivemos altos e baixos de faturamento e de usuários, sempre tivemos uma postura conservadora de guardar recursos para alguma situação emergencial de mercado e para a própria regulação, que foi o que acabou acontecendo.
WB3News: Vocês também foram pegos de surpresa?
Jorge de Almeida: Fomos pegos de surpresa, sim, mas não foi algo que impactou operacionalmente a empresa. Por mais que o valor tenha triplicado, já tínhamos o recurso necessário.
WB3News: Esse dinheiro já estava em caixa?
Jorge de Almeida: Sim. Não foi uma situação em que precisamos buscar investidor. Para nós, foi relativamente tranquilo.
WB3News: Em qual faixa de capital mínimo vocês se enquadram?
Jorge de Almeida: Como corretora, com intermediação e custódia, o valor é R$ 16,8 milhões.
O capital mínimo envolve limites de capital social integralizado e patrimônio líquido a serem mantidos pela instituição. Além disso, explica Almeida, a operação sob o novo regime eleva as despesas recorrentes: contratar profissionais, pagar assessoria e manter os sistemas que sustentam a operação e seus controles.
WB3News: O que mudou na organização e na equipe a partir da divulgação das resoluções do BC?
Jorge de Almeida: Buscamos profissionais cada vez mais qualificados. Quando você entra em um mercado regulado, com uma sequência de regras, é interessante ter pessoas com experiência no mercado financeiro tradicional, que já conheçam essas regras.
Temos vários casos de crescimento dentro da empresa — acho que sou o principal exemplo —, de pessoas que começaram em funções mais juniores, adquiriram experiência e continuam com a gente, mas a mudança mais relevante foi trazer profissionais mais qualificados. Isso vem acontecendo gradualmente desde 2019 e 2020.
WB3News: Esses profissionais vieram do mercado tradicional? Quanto a equipe cresceu nesse último ano?
Jorge de Almeida: Alguns vieram do mercado tradicional, outros de empresas de criptoativos com um posicionamento mais institucional e outros por indicação. Teve um pouco de tudo.
Houve um aumento no quadro de funcionários, principalmente considerando o intervalo de um ano. Ainda nos mantemos enxutos: temos 35 pessoas no quadro. No ano passado, nesta mesma época, devíamos ter entre 23 e 25. Em números absolutos, não é uma quantidade elevada, mas percentualmente crescemos bastante. Foi o ano com mais contratações e maior aumento do quadro.
WB3News: Além de pessoal, quais os principais custos que vieram com a regulação?
Jorge de Almeida: Primeiro, o jurídico e o regulatório. Você precisa de um escritório com experiência, que conheça o processo de licença e saiba trabalhar com o Banco Central, que tem uma linguagem e regras próprias.
Há o custo das pessoas qualificadas e o das ferramentas de monitoramento de transações, identificação de clientes e verificação de antecedentes, para avaliar se um cliente tem alguma restrição ou exige um tratamento mais rigoroso, por exemplo, no aumento de limite.
É um custo que envolve pessoas e ferramentas para cumprir as regras de prevenção à lavagem de dinheiro.
Esse monitoramento depende de informações que são produzidas sempre que os clientes movimentam recursos. Antes de chegarem ao regulador, precisam ser coletadas, armazenadas e classificadas nos sistemas da corretora. A maior complexidade, no entanto, foi enfrentada para comunicar os dados ao órgão regulador, diz Almeida.
WB3News: Qual foi a parte mais complexa da preparação?
Jorge de Almeida: Na minha visão, foi o envio das informações ao Banco Central. Você precisa transmitir em um formato específico, com campos específicos. Isso exige preparar a forma como coleta, armazena e envia os dados.
Foi a situação mais complexa que enfrentamos ao longo do ano. Depois de muitas validações, inclusive diretamente com o BC, conseguimos deixar tudo alinhado. Já tínhamos outras obrigações de informação desde 2019, mas o que precisamos enviar agora ao Banco Central é bem mais complexo. Hoje, conseguimos concluir essa etapa.
WB3News: Isso passa principalmente pela tecnologia ou pelos controles internos?
Jorge de Almeida: Principalmente pela tecnologia. Há um reporte mensal em que precisamos enviar, de forma categorizada, as informações sobre depósitos e saques envolvendo instituições que não são brasileiras. O Banco Central quer saber quanto está sendo remetido ao exterior ou ingressando do exterior.
Os depósitos e saques tiveram que passar por uma adequação. Quando o usuário faz um saque ou recebe um depósito, precisa categorizar se o recurso veio de uma entidade estrangeira ou nacional. Há um fluxo que ele precisa cumprir ou uma contraparte que pode deixar cadastrada, porque precisamos enviar esses dados.
Isso também envolve a tesouraria interna. Por exemplo: enviamos recursos próprios ao exterior para abastecer o caixa do qual serão debitadas as transações dos cartões que emitimos para os clientes. Essa movimentação precisa ser reportada.
São situações que vão além das negociações, dos depósitos e dos saques dos clientes. Há uma complexidade adicional de categorização e de fluxo da tesouraria que antes não era reportada diretamente em um arquivo específico, daquela maneira.
Antes mesmo de iniciar o processo de adequação às normas do BC, a Brasil Bitcoin já vinha mudando seu modelo de negócio. Inicialmente focada no varejo, a corretora vem atuando cada vez mais como prestadora de serviços para outras empresas. Almeida atribui a expansão do segmento B2B à entrada dos bancos no mercado de criptoativos, acirrando a competição no setor.
WB3News: O que levou a Brasil Bitcoin a passar do atendimento ao varejo para uma atuação mais voltada ao B2B?
Jorge de Almeida: Foi uma questão de dinâmica do mercado. Com o passar dos anos, os grandes bancos foram colocando produtos de cripto nas suas prateleiras. Quando começamos, a única forma de comprar criptoativos era ter conta em uma corretora. Hoje, o acesso por um grande banco é muito mais fácil, mesmo que as condições de taxas ou velocidade nem sempre sejam boas.
Nos reposicionamos juntando o que tínhamos de forte, a infraestrutura de tecnologia, para nos ajustarmos a essa mudança do mercado. Isso passou pelo meu planejamento e pela minha validação. Hoje, somos muito mais B2B e institucional, embora, na ponta final, a gente também atenda ao varejo. Estamos nos posicionando cada vez mais como uma infraestrutura de cripto.
WB3News: Que efeitos você vislumbra na estrutura do mercado brasileiro, em termos de concentração, competição e oportunidades para as empresas brasileiras?
Jorge de Almeida: Eu visualizo uma tendência de consolidação cada vez maior. Acredito que ainda veremos outros participantes do mercado optando por não fazer a aplicação, mas isso é uma avaliação minha.
Os que permanecerem terão muitas oportunidades de desenvolver o mercado. Ao longo desses anos, a ausência de regulamentação trazia flexibilidade, mas também muitas travas. Havia coisas que não conseguíamos fazer e parcerias que não conseguíamos fechar.
Particularmente para nós, vejo um momento positivo, porque pode abrir portas às quais não tínhamos acesso. A ideia é trabalhar para que a regulação traga mais segurança aos usuários e, ao mesmo tempo, encontrar possibilidades para não matar a inovação.
Depois dessa regulamentação, por exemplo, não vai haver uma segunda Brasil Bitcoin nas mesmas condições em que começamos. A Brasil Bitcoin começou com capital praticamente zero.
Tenho um desejo pessoal, que é compartilhado pela empresa, de que, com essa estrutura, sejamos capazes de criar possibilidades para novos participantes desenvolverem produtos.
Um dos projetos em que estamos trabalhando é manter sob o nosso controle a parte regulatória, como os reportes e a prevenção à lavagem de dinheiro, enquanto um cliente faz a exploração comercial com outra marca.
É algo semelhante ao que existe no mercado tradicional com correspondentes cambiais e com o Banking as a Service: uma empresa regulada por trás e outra trabalhando a parte comercial. Estamos desenvolvendo isso e validando juridicamente.
A busca por autonomia operacional também envolve maior independência com relação aos bancos. O executivo menciona um plano de médio prazo para a empresa se tornar participante direta do Sistema de Pagamentos Instantâneos (SPI), infraestrutura do BC responsável pela liquidação das transações do Pix entre instituições.
Os serviços internacionais são outra frente da estratégia de expansão. Segundo Almeida, as stablecoins já representam a maior parte do volume movimentado pela Brasil Bitcoin, tanto por pessoas físicas quanto por empresas. O uso desses ativos para pagamentos e transferências internacionais está entre as atividades incluídas pelo BC na regulamentação cambial.
Durante a entrevista, o executivo anunciou o lançamento de uma conta global, já disponível no aplicativo e no site da corretora. O produto fornece ao cliente dados bancários para receber em dólar e em euro: nos recebimentos em dólar, por ACH, Fedwire ou SWIFT; em euro, por SEPA ou outra modalidade disponível. Os valores recebidos são convertidos automaticamente para USDC e creditados na própria conta do cliente na Brasil Bitcoin. Os envios ao exterior usam saldo em USDC, com mínimo de 5 USDC e máximo de 15.000 USDC por operação, e o destinatário não precisa ter conta na corretora.
WB3News: Como foi a relação da empresa com os bancos e as instituições de pagamento ao longo dos anos?
Jorge de Almeida: Ao longo dos anos, tivemos muitos problemas com bloqueios e encerramentos de contas. Quando começamos, não havia Pix. Precisávamos manter contas nos principais bancos, que chamávamos de bancos conveniados, para atender aos usuários.
Era uma situação complicada. Depois do lançamento e da popularização do Pix, algumas instituições de pagamento e bancos começaram a ser mais amigáveis ao mercado cripto. Não são todos, mas mantemos relacionamento com algumas dessas instituições até hoje.
Dependemos de bancos parceiros para a parte transacional dos depósitos e saques em reais dos clientes. Com a participação direta no Pix, conseguiríamos controlar mais essa parte da operação, que é importante. É uma ideia para o futuro e envolve um adicional de patrimônio líquido mínimo.
Jorge de Almeida: É o mercado em que estamos mais inseridos hoje. A maior parte do volume movimentado, tanto por pessoas físicas quanto jurídicas, vem das stablecoins. Elas juntam a facilidade de fazer transações internacionais pela tecnologia blockchain com a referência em uma moeda utilizada no mundo inteiro, principalmente o dólar.
Nossa principal infraestrutura e volume estão nessa parte de envio e recebimento do exterior. Existem vantagens que vão além das taxas, como a facilidade de operar 24 horas por dia, sete dias por semana. Estamos trabalhando em novos produtos relacionados a esse mercado.
WB3News: Por que vocês decidiram entrar no mercado de contas globais em um momento em que empresas como a Crypto.com encerram sua operação nesse segmento?
Jorge de Almeida: Uma parcela muito alta do nosso volume vem do dólar digital. As pessoas utilizam stablecoins para mandar dinheiro para fora ou trazer dinheiro para o Brasil. Então, por que não expandir esse acesso?
Para contextualizar como funciona a conta global: imagine uma empresa na Europa contratando um profissional no Brasil. Esse profissional abre uma conta na Brasil Bitcoin, cria a conta global e passa a ter dados de uma conta bancária na Europa para receber o pagamento.
Isso utiliza a tecnologia do dólar digital para o dinheiro chegar e ficar disponível na conta dele. Trabalhamos com parceiros para liquidar nesses lugares. Estamos olhando muito para a Europa e para os Estados Unidos e imaginamos que daí virão os dois maiores fluxos.