Compras de cripto no exterior sobem 20% em setembro, mas queda anual de 49% mantém debate sobre regulação

Alta sobre agosto marca o segundo mês de recuperação; Tokenbase relata retorno de clientes após avaliações jurídicas, enquanto BLOXtrade aponta novos negócios com a regulação.

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  • Aquisições líquidas de criptoativos com passivo correspondente somaram US$ 842,7 milhões em setembro.
  • Tokenbase relata pausas de clientes para avaliação jurídica das operações; BLOXtrade registra expansão do resultado líquido e do volume de pagamentos.

As compras líquidas de criptoativos no exterior cresceram 20% em setembro de 2026, passando de US$ 702,3 milhões em agosto para US$ 842,7 milhões, segundo dados do Banco Central (BC). Foi o segundo mês consecutivo de recuperação após a queda registrada em julho. Contudo, na comparação com setembro de 2025, quando o fluxo somou US$ 1,65 bilhão, o recuo foi de 49%.

Os números foram divulgados em 26 de outubro nas Estatísticas do Setor Externo, sob a rubrica de criptoativos com passivo correspondente. A categoria inclui stablecoins e não representa o total negociado no mercado brasileiro.

As empresas ouvidas pelo WB3News relatam experiências distintas durante o período de adaptação regulatória. Rodrigo Torres, cofundador e responsável por produto e finanças da Tokenbase, afirma que clientes suspenderam operações enquanto avaliavam as novas regras e retornaram ao mercado após esclarecimentos e análises jurídicas. Kaio Gomes, sócio-fundador da BLOXtrade, diz que a empresa manteve o crescimento e conquistou novos parceiros com a regulação.

Recuperação mensal ainda não recompõe o fluxo do primeiro semestre

As aquisições líquidas passaram de US$ 571,5 milhões em julho para US$ 702,3 milhões em agosto e US$ 842,7 milhões em setembro. Apesar das duas altas consecutivas, os valores permanecem abaixo dos resultados mensais superiores a US$ 2 bilhões registrados entre janeiro e junho.

No terceiro trimestre, o fluxo somou US$ 2,12 bilhões, ante US$ 4,79 bilhões entre julho e setembro de 2025, redução de 55,9%. O desempenho do primeiro semestre, porém, manteve o acumulado do ano acima de 2025.

Entre janeiro e setembro, as aquisições líquidas atingiram US$ 16,8 bilhões, crescimento de 52,3% sobre os US$ 11 bilhões registrados no mesmo intervalo do ano anterior, de acordo com os dados do BC.

A recuperação dá continuidade ao movimentado relatado pelo WB3News desde a queda de julho, quando especialistas apontaram condições de mercado, custos de adaptação e reorganização dos canais de liquidez como possíveis fatores para a redução dos fluxos.

Na avaliação de Rodrigo Torres, a queda anual está relacionada à sequência de mudanças regulatórias e discussões tributárias, que levou parte das empresas a adiar operações. Já a alta de setembro sobre agosto acompanha, na leitura dele, uma retomada à medida que os clientes compreendem as novas regras:

"As empresas continuam precisando pagar e receber do exterior, e a stablecoin segue sendo uma ferramenta eficiente para isso. O que muda é o canal: o fluxo tende a migrar para operadores estruturados e em conformidade."

No entanto, os dados agregados do BC não permitem quantificar o quanto à regulação contribuiu para a variação dos fluxos.

Clientes interromperam operações para avaliar as regras

Torres relata que a Tokenbase começou 2026 com volumes recordes, mas passou a observar maior oscilação a partir do meio do ano. Segundo ele, a implementação das novas exigências do Banco Central teve dois efeitos sucessivos sobre a operação: primeiro, redução do fluxo e aumento das dúvidas dos clientes. Depois, retomada após o esclarecimento de questões jurídicas.

O executivo afirma que áreas de compliance mais conservadoras preferiram suspender operações até compreender melhor o enquadramento dos serviços:

"Tivemos clientes para quem explicamos em detalhe como nossa operação se enquadra nas novas regras e, mesmo assim, o compliance decidiu aguardar. Vários desses clientes já voltaram, à medida que foram entendendo melhor a norma."

Em parte dos casos, a decisão de retomar as transações passou por uma análise externa da estrutura da Tokenbase:

"Muitos dos nossos maiores clientes contrataram escritórios de advocacia para revisar a nossa estrutura e dar o aval jurídico às operações. Uma vez feita essa validação, o volume voltou."

Torres afirma que a empresa conseguiu manter a competitividade, a rapidez e o baixo custo das operações durante a adaptação ao novo marco regulatório.

BLOXtrade relata crescimento e novos parceiros

Na BLOXtrade, Gomes afirma que o crescimento se manteve entre julho e setembro e alcançou tanto o resultado líquido quanto o TPV (volume total de pagamentos).

O executivo associa a regulação à entrada no mercado de empresas que antes estavam receosas em operar no setor:

"Não sentimos a queda de volume que outros relataram. Pelo contrário: a regulamentação trouxe novos negócios e parceiros, e deu mais confiança a empresas que antes estavam receosas."

Gomes também relata maior facilidade para converter stablecoins em moedas tradicionais fora do Brasil. Segundo ele, essa mudança contribuiu para manter as parcerias da empresa durante sua expansão regional:

"Fora do Brasil, a troca de stablecoin por moeda tradicional ficou mais fácil. Isso nos ajudou a manter nossas parcerias enquanto expandimos para a América Latina."

Fluxo externo é um retrato parcial do mercado

O resultado de setembro corresponde à diferença entre US$ 852,3 milhões em despesas e US$ 9,6 milhões em receitas com criptoativos com passivo correspondente. Trata-se de aquisições líquidas no exterior.

Na revisão metodológica publicada em novembro de 2025, o BC separa essa categoria, registrada na conta financeira do balanço de pagamentos, dos ativos sem passivo correspondente, como o bitcoin, contabilizados na conta de capital.

O indicador também não reúne todas as negociações realizadas no Brasil. Assim, a queda anual e a recuperação mensal não devem ser interpretadas como variações equivalentes de todo o mercado doméstico.

A expectativa da Tokenbase é voltar, em 2027, a volumes próximos aos registrados em 2025, conclui Torres:

"Com regras mais claras e mais rígidas, e com o trabalho forte que fazemos na parte regulatória, esperamos uma retomada importante, principalmente de empresas maiores, que têm exigências de compliance mais complexas e só entram quando o ambiente está bem definido".

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